segunda-feira, fevereiro 01, 2016

João, o careca

Hoje lembrei-me do João "careca" como eu propositalmente lhe chama só para te irritar. O João, o careca, tinha que adormecer com a luz ligada porque tinha medo do escuro... E claro que não se podia fazer barulho em casa depois das 22h porque ele podia acordar! O João era o nosso companheiro... companheiro de jantares, companheiro das conversas pela noite fora (apesar de adormecer quando ainda nem tínhamos começado), de sorrisos e lágrimas... muitas...

O João acompanhou-te por largos anos, e num momento de mudança, partiu... deixando-te seguir, forte e segura, mesmo nos momentos de insegurança que se avizinhavam. O João sabia que estavas preparada para a guerra, para a luta... e com a certeza de que, quem luta, algumas vezes vence... outras perde... mas que o que mais importa é voo... que o destino.

Hoje lembrei-me do João... E venho dizer-te que, o tempo passou, mas ele continua a saber... da tua força e da tua garra... e eu... também!

terça-feira, setembro 01, 2015

Hortelã

Resolvi fazer chá de hortelã. Era de manhã cedo e precisava de dar uso às folhas que ameaçavam morrer em poucos minutos. O calor aperta por aqui, e o chá não tem sido a bebida que mais tenho bebido... mas porque não fazer um chá gelado para o Almoço? E assim fiz.

O almoço era arroz com vegetais variados (acelga, beringela, repolho, couve-flor, ...), um almoço leve e vegano: que poderia haver de melhor?! Ahhh chá gelado de hortelã a acompanhar! E foi no instante que bebi dois goles desse chá que fui projetada para uma cozinha que conhecia tão bem... Mesa redonda ao meio, com duas cadeiras e um banco (o meu!), em frente uma arca frigorífica com aquele velho radio em cima... A cadeira do meu avô é estrategicamente colocada para poder assistir ao telejornal que passa na TV da sala, mas não a minha... Eu contento-me com o som distante ou entao, depois de terminar, com os Parodiantes de Lisboa que passavam no rádio mais tarde....

A um canto o fogão de dois bicos, o forno de pão e uma pequena lareira que permitia cozinhar com fogo... Como eu adorava o cozido à portuguesa feito no fogo! E como dizia orgulhosamente à minha mãe que o cozido dela, não era o cozido da avó... porque aquele sim, era cozido a lenha!

Ao lado estendia-se uma bancada em pedra onde descansava alguma louça... Em cima dela, logo depois da pia, mais ou menos a meio, vejo uma caneca de louça verde transparente... Nela descansa pela manhã o resto do chá da noite anterior que, à hora de almoço, é saboreado por mim... Chá de hortelã...

E as lembranças vêm-me de repente, sou transportada de ida e volta em breves instantes... Sempre soube que gostava de hortelã, sempre soube que gostava de chá de hortelã, mas não sabia identificar de onde, afinal em casa dos meus pais nunca foi um chá que se bebesse... Agora eu sei de onde vem... agora eu sei!

segunda-feira, agosto 31, 2015

Pessoas...

Tenho pensado em algumas pessoas que se cruzaram na minha vida... Quantos passam por nós todos os dias?! Mas a verdade é que, quem passa por nós verdadeiramente, não nos deixa igual nem parte igual. Mas somos nós que, em cada momento, devemos construir essas marcas... Serão boas recordações ou feridas abertas pelo tempo? 

Quando penso nas pessoas importantes, verdadeiramente importantes, penso em algumas... Várias. Umas por bons motivos, outras nem tanto... Umas marcaram-me positivamente, outras deixaram-me feridas abertas até hoje... Ainda há poucas semanas tive que enfrentar a sombra de uma dela. Não posso negar que o coração apertou, que as mãos tremeram, o olhar se desviou do caminho como que olhando por cima do ombro... Memórias que me fazem bem... Penso: serão verdadeiras ou serão invenção dos meus sentidos? Não importa o que são, o que dizem que são... Porque o sentir, ninguém mo tira e isso é que realmente importa... 

Sei que também magoei pessoas, que deixei feridas abertas que sangram até hoje. Sei-o! Mas devo dizer que nenhuma delas o fiz com intenção de o fazer... nenhum delas magoei com intenção de magoar. Porque aconteceu? Porque somos diferentes, porque pensamos diferentes... Porque talvez tenho um jeito estranho de ligar com pessoas ou, roubando a deixa, porque naquele momento fui uma besta... Mas quero acreditar que mais do que fria, fui desajeitada... acredito eu... ou quero acreditar...

Os momentos passam, as marcas ficam. Às vezes as palavras conseguem ajudar... outras vezes as palavras não chegam ao outro lado... Aí, há que respeitar a solidão, o "lamber da ferida" mesmo que dure a vida inteira... Quando as nossas palavras fazem sofrer mais do que ajudar... Devemos deixar o silêncio... mesmo sem nunca sair da sala... correto? 

Os anos passam, as experiências são outras... Não se pode mudar o passado, mas pode-se mudar presente e o futuro. Mas mais do que isso, acredito que podemos também mudar a forma como vemos o passado. Porque as memórias tornam-se vagas, seletivas... Porque não decidir o que guardar ou como guarda-las no coração...?

Talvez estas minhas palavras não cheguem a nenhuma dessas pessoas... ou talvez sim... Mas mesmo que não cheguem, ficam aqui os ensinamentos que também devo seguir... 

... E pode ser que assim, da próxima vez, já não me tremam as mãos ou aperte o coração.


quarta-feira, agosto 26, 2015

Muita coisa passou...

O Ticho nasceu no final de 2006, estará em breve a fazer 9 anos! OMG... NO-VE-A-NOS!! Com ele e através dele cruzei-me com muita gente e... alguns ficaram, permaneceram ao longe destes anos.. Nele e para além dele.

Quando o criei não fazia a mínima ideia do que estava a criar... hoje, sinto-me feliz por o ter feito. Nos últimos anos tem estado, por assim dizer... parado! Parado sim, mas nunca abandonado! Venho por cá às vezes, limpar-lhe as teias de aranha (Lembrei-me agora que antes também andava a tirar teias de aranha a outro canto especial... enfim... alguns / alguém entenderá o meu comentário....) e a ver / rever algumas coisas...

Mais do que um blog onde escrevo coisas, o Ticho é reflexo de mim, do que eu fui ou pensei em determinado momento. Nunca foi minha intenção ter uma "linha editorial" em que poderia ou não publicar determinadas coisas... Não... deixei-me ser neste espaço... com minhas duvidas, desabafos, com histórias, felicidades, tristezas e indignações. Este e outros espaços foram (e são?) lugares de encontros com amigos... Muitas das coisas mais importantes aqui escritas (e lá... por aí) não foram escritas como mensagens, mas estão trancadas nas caixas de comentários... 5, 10, 20, 50 ou mais comentários escritos num só post... Não, não eram comentários... eram conversas de amigos!

Nesta e noutras casas cresci, nesta e noutras casas aprendi... nesta e noutras casas... fui feliz!

E não, não é uma despedida...

terça-feira, novembro 11, 2014

Vilarinho das Furnas


Vilarinho das Funas... Foi lá onde nasci, cresci e casei. Foi lá que nasceram os meus quatro filhos: três homens e uma mulher. Eles para ajudarem no campo, com os animais. Ela, para me ajudar em casa. Foi ali também que eu me apaixonei pela primeira vez...

Tinha 30 anos. Era Agosto e estava muito calor. Os dias seguiam iguais, com as tarefas de casa, a roupa, a comida dos animais, a ordenha das cabras e ovelhas, as crianças que ainda eram pequenas, principalmente a Lúcia, que ainda não era mais que um bebe de colo. Os dias passavam rapido, muito rapido. Mas aquele Agosto foi diferente. Era dia 15, dia da Assunção de Nossa Senhora, dia de festa e procissão na aldeia. As casas estavam enfeitadas, as mesas cheias de comida, as crianças brincavam pelas ruas e nós preparavamo-nos para ir para a Igreja com a melhor roupa.

As ruas enchiam-se de pessoas das aldeias vizinhas que vinham a Vilarinho. O padre colocava as novas vestes que chegavam de Braga... As velas acendiam-se e os instrumentos já anunciam o inicio da celebração. Passei os olhos de uma ponta a outra para ver o movimento... e foi aí que nossos olhos se cruzaram, foi aí que o vi, foi aí que logo tudo aconteceu.

 

(continua...)

quarta-feira, outubro 01, 2014

Carlos - 3ª parte

Naquele dia Carolina partiu, mesmo sem sair.  Carolina sabia que toda a sua presença não fazia mais sentido. Continua a frequentar a casa, a ir, mas sabia que já não estava. Até que um dia, pegou nas malas e partiu... Da mesma forma que chegou... Mas nada mais errado.

Carlos, de tão envolvido só percebeu o que se estava a passar, quando viu da janela a Carolina a colocar as malas no carro. Correu escadas abaixo, mas quando saiu pela porta, já Carolina estava a manobrar para sair da vaga em frente. Ela lançou-lhe apenas um olhar de quem desistia e ele, viu do meio da rua o carro a desaparecer na curva seguinte... E ficou ali, a ver tudo acontecer em camara lenta...


Passou-se 5 anos desde então e Carlos e Carolina são agora ambos casados, embora não um com o outro. Cada um seguiu reconstruiu a sua vida. Um do outro, ficou apenas a lembrança no passado. Muita coisa se passou entre aquela tarde em que Carolina saiu, até poderem seguir em frente... mas isso são histórias ficam... cicatrizes de uma guerra terminada.Mas no final, ambos têm a certeza que do pior retiraram o melhor, e são hoje são pessoas mais adultas e melhores por se terem conhecido e vivido o amor que nunca o foi.



segunda-feira, setembro 29, 2014

Carlos - 2ª parte

Carlos começou a acordar cansado, sem força nem energia... Carolina sentia que algo não estava bem. Perguntava-lhe mas ele acabava sempre por responder o mesmo: "era trabalho demais, preocupações e pouco descanso... " Ela aceitava a resposta mas os dois sabiam que não era verdade!

Aqueles 3 segundos, os exatos 3 segundos antes de dormir repetiam-se agora diariamente. Os seus pensamentos pareciam desencadear um big bang na sua propria cabeça todas as noites... Até que o sono deixou de vir! E aí os 3 segundos passaram a 3 horas e depois a 3 noites sem conseguir dormir. Carlos estava sem qualquer vontade de trabalhar, de estudar, de falar ou visitar amigos e a Carolina passou de final feliz para ser alguém que era preciso (também) desviar a atenção do que se passava... Mas como?

Os encontros romanticos deixaram de o ser tão romanticos e os beijos apaixonados deixaram de ser tão apaixonados... As conversas de horas, passaram  a ser conversas tão pequenas que muitas vezes pareciam não existir sequer.

Ele estava diferente e não estava a ser capaz de dar a volta... Ela não tinha como interferir, ele não deixava e ela... deixou que tudo acontecesse... como que se visse passar as águas do rio... o rio não corre sempre pelo seu leito? para quê tentar desviá-lo?

Certo dia,  quando estavam juntos, a aproveitar o silêncio ainda confortável, Carlos confessou-se que considerava que nada na sua vida corria bem... Carolina olhou-lhe sem perceber o que ele queria dizer... Questionou-lhe! Mas ele de tão envolvido com os seus pensamentos, já nada respondeu... o silêncio voltou, mas já não era o mesmo... era outro, aquele que incomoda...

Carolina olhou para a pequena vela que ainda brilhava no canto da sala... mas naquele instante ela apagou-se... e ficou escuro... muito escuro...

domingo, setembro 28, 2014

Carlos - 1ª parte

O Carlos era uma rapaz da aldeia. Filho unico. Morava com os pais numa casa distante do resto da aldeia. Talvez por isso tornou-se um rapaz isolado e inseguro. Cresceu assim, mas sendo filho unico tinha que corresponder às expectativas...Acabou por nunca se afastar. Estudou mas não fez faculdade porque tinha que começar a trabalhar, a ganhar o seu dinheiro. Nas horas vagas ia até ao café central encontrar-se com o grupo de amigos. Mas a verdade é que se sentia deslocado dali. Os amigos eram todos mais animados, com histórias novas sempre para contar e as raparigas, essas, só o viam como o rapaz amigo, que as podia ouvir a falar do namorado que não lhes ligava... Mas ele, o Carlos, sofria por um amor secreto que sabia não poder sequer contar...

O tempo passou, os amigos seguiram as suas histórias, os amores seguiram também e ele permaneceu ali... Até que um dia conheceu uma rapariga da cidade. Carolina. Ela era diferente de todas as que tinha conhecido até então. Era envergonhada, mas de opinião formada. Ao contrário do que acontecia sempre, ela não o rejeitou à partida. Ela foi-se mostrando e as conversas foram-se tornando cada vez mais animadas. Passavam horas a conversar e riam... Descobriam assuntos em comum e havia cada vez mais assunto.

Pouco tempo depois Carlos convidou Caroina para jantar. Ambos sabiam o que significava mas nenhum queria admitir. E no final da noite chegou o beijo... aquele beijo que Carlos desejava desde os tempos do liceu... o beijo que tantas vezes não conseguiu dar à rapariga popular da escola nem tão pouco à filha da vizinha... Carlos estava ali agora com Carolina.. O seu final feliz tinha finalmente chegado!

Carlos andava feliz mas por vezes antes de adormecer, naqueles 3 segundos antes de pegar no sono, naqueles exactos três segundos os seus neuronios entravam em colisão e os pensamentos surgiam, aqueles pensamentos que ele não queria pensar... Não, não queria... mas como evitar?


domingo, novembro 27, 2011

E o tempo passa...

... passa tão depressa que faz hoje 5 anos e 1 mês que abri este canto, o Ticho. Penso: 5 anos?! Sim, já passaram 5 anos... 5 anos que mudaram extraordinariamente a minha vida, muito por causa dos amigos que fiz nestas paragens, dos momentos bons e felizes que me proporcionaram, mas também pelos maus e muito maus (que também os houve) que foram partilhados e, em conjunto foram superados... E depois vieram os momentos que alguns passaram de virtuais a reais... e foram-se somando e hoje muitos são como a minha família, outros são apenas estrelas que vão iluminando, mesmo que de longe ou muito muito longe. Existem ainda amigos que ainda não passaram ao real... mas não deixam de ser família e a iluminar-me como estrelas.
Foi também através deste canto que aprendi a conhecer-me... e neste blog tornei-me a mulher que sou. Sei que sou uma pessoa muito melhor e muito mais feliz muito por causa de um simples gesto que eu tive no dia 26 de Outubro de 2006, depois de uma conversa na biblioteca da faculdade com a minha colega Inês que tinha, também ela, aberto um blog.
Tudo cresceu e transbordou há muito para além deste blog mas não podia deixar de comemorar aqui estes 5 anos, provavelmente os meus melhores 5 anos... E agradecer a todos por serem parte importante da minha vida. Obrigada... Adoro-vos!

quarta-feira, outubro 19, 2011

De volta à vida - Blog Mil Razões

Luta por um gesto (De volta à vida – 5)

Era o teu 2º aniversário, e estava desejosa para chegar a casa e poder passar o resto do dia contigo... Estava a chover e o trânsito estava ainda mais louco que o habitual. Em poucos segundos deixei de ter noção do que se passava, reinava o caos. Dei por mim deitada no frio do asfalto e adormeci. Algo se tinha passado, mas não tinha forças para questionar... Vieram as ambulâncias, os bombeiros e eu apenas deixei levar-me em silêncio, sem perguntas nem choros.

Passaram-se horas, dias, não sei quanto ao certo... Quando acordei estava deitada numa cama de hospital. Era essa a altura de me questionar, de questionar sobre o que se tinha passado. Olhei em redor e não havia ninguém. A sensação que percorria o meu corpo não era boa, sentia-me perdida em mim, apenas desconhecia ainda a verdadeira razão. Foi quando chegou o médico, observou-me e começou a contar-me o que eu não me lembrava: Tinha tido um acidente com um camião e tinha sido projectada do carro. Passado pouco tempo cheguei inconsciente ao hospital, fui operada mas infelizmente não tinham conseguido travar as lesões da coluna e estava agora paraplégica. - "Como??" - Gritei. Fechei os olhos com toda a minha força. "Foi um sonho mau", pensei e fiquei assim por muito tempo. Quando abri os olhos estava novamente sozinha. Tentei contrariar tudo o que me diziam mas sabia que seria uma tentativa em vão... Tirei os cobertores e olhei para o meu corpo assim sem vida... Era este o meu final, um corpo deitado à mercê dos outros...

De repente, entraste naquele espaço. Reconheci a tua gargalhada, a tua expressão contrastava bem com o meu estado de espírito... Olhei-te em silêncio, o meu pensamento foi de desilusão... "Que raio de mãe foste tu arranjar? Que desilusão serei para ti?" Mas tu olhaste para mim e disseste aquela palavra mágica: "Mamã!" Vieste para o meu colo e sorriste. Sorriste para mim como sempre o fizeste. Naquele momento senti que não poderia deixar-me abater, que não poderia deixar de lutar... Por ti simplesmente não podia! E foi assim que se deu a minha iniciação para uma luta eterna, uma luta por um gesto meu, por muito pequeno que fosse...

Hoje, passados tantos anos, a vida vai correndo ao sabor de pequenas vitórias. Hoje sou independente dentro da dependência. A minha vida não voltou a ser a mesma, mas tentei minimizar os danos daquele momento que nunca me consegui lembrar... Guardo em mim aquele sorriso que me deste, aquela força, aquele amor desmedido, e é esse amor que me move... em cada momento deste regresso à vida.




Cátia Azenha


(Articulista Convidada - aqui)