terça-feira, fevereiro 24, 2009

Desafio: Os três anões (9)

"Splash...!!"
- Socorro, acudam-me...estou a afogar-me...! – desesperadamente berrava Boquitinho.
- Que se passa?? Que atrofio é esse, estares a incomodar o sono da gente?- questionou o pai Bocas.
- Apaa-paanhe-eeii...com água ...penseiii...que fossseee...afogar-me...!
- Só estás molhado...Vai-te secar e deixa-te de andar pela torianda.
Torianda era uma espécie de terraço bem organizado que se situava no calcanhar do sapato.
- Não preciso de me secar...tenho calor.
- Filho, deixa-te de coisas...vai para o teu quarto secar-te e depois vai dormir...!
- A sério pai, a água está quente...olhaa-aa...nã...
"Splash...!!"
Desta foi o Bocas vitima do misterioso liquido.
- Eii...puxa...! Que se passa por aqui? ...filho vai andando para casa que vou ver de onde vêm esta água...quente!
- Ohhh pai, deixa-me ir contigo.
- Não! Vai e avisa a tua mãe, se tiver acordada, que eu já volto, para não se preocupar.
Bocas começou a subir o godiote, um banco mágico, em que se dobrava um eixo e se transformava em câmera lenta num escadote...capaz de chegar ao cimo do sapato...! Tinha sido uma prenda do seu mano
Bicas. Não foi preciso subir tudo...pois deu pela nascente do estranho liquido...! Era um sem abrigo a chorar! A baixa-estima infestava o aroma do ar. As lágrimas corriam como se de uma torneira louca se desvairasse. Bocas já estava todo encharcado e não sabia o que fazer! O perigo eminente do seu lar ficar inundado pairava pela sua mente. Olhou de leve para o caminho que teria de percorrer até chegar lá cima. "Mesmo que consiga, coisa improvável, chegar, como parar as gotas?" – matutava. O sapato continuava a ser atacado pelas gotas e a ansiedade e medo já começavam a atormentar o anão. "Tão íngreme é a subida...mas vou arriscar...!" - sua consciência parecia algo decidida. O big casaco estava infestado de borbotos e tal amedrontava Bocas. Fez os cálculos e chegou à conclusão que demoraria muito tempo a chegar à cara do gigante. "Por essa altura as lágrimas já teriam feito grandes estragos ao meu querido lar" –
pensava. O perfume da fatalidade agitava o coração do pequeno. De repente um tempestivo impulso levou-o a decidir pela subida, sem saber o que fazer quando chegasse ao destino, e se chegasse. Sua mente estava mergulhada num cocktail de pensamentos...só pensava subir acontecesse o que acontecesse!

- Nãooo...!! – gritou. Um abanão brusco fez girar o casaco e o anão caiu...caiu...e foi parar ao bolso direito. Era um casaco de lã...quentinho...próprio para aquecer nestes dias de inverno. Meio atordoado...recompôs-se e deu-se rodeado de uma escuridão. Ergueu-se firmemente e com esforço, nos meios dos "escombros" pegou na sua lanterna lovix que levava sempre consigo. A luz do seu delicado utensílio jorrava por todos os ângulos. Sentiu-se menos nervoso e mais seguro. Sentiu o chão demasiado escorregadio...e apontou para
baixo...! Parecia-lhe uma foto...gigante...! Surgiu-se-lhe a ideia de ver o que continha tal quadro...mas repentinamente veio à mente a delicada situação do ser lar, das "lágrimas" que abalariam sua família. Bocas ficou eximindo cálculos para a subida do bolso. Era bom a fazer contas. Não foi por acaso que sua casa ficou
impecavelmente bem estruturada. Encontrou uma solução. Tratava-se de um lápis gasto e cheio de cortes. Tais cortes dava-lhe para se apoiar e descansar um pouco na subida. Chegou. Estava no cimo do bolso; este era largo, o que lhe proporcionava espaço para grandes vistas. Lembrou-se da foto e apontou a sua lovix para baixo. Eram dois rostos...um feminino na casa dos 29 anos e outro mais meigo, mais angélico pelos 2 anitos. Ao ver aquela tela lembrou-se do seu boquitinho...e da sua mulher. Apesar de a foto estar de lado
conseguia ver todas as linhas daqueles rostos sorridentes. Numa tentativa de ver um pormenor dos olhos da singela figura juvenil precipitou-se e deixou cair a sua lanterna. Tal descuido provocou um estrago. Caiu por debaixo dos olhos da figura juvenil e borrou tinta vermelha. A lanterna de Bocas não funcionava a pilhas, tinha um liquido vermelho, que sugava energia solar provocando luz no arredondado pináculo da lanterna. Era um mecanismo muito eficiente. "Não posso esperar" - disparou sua mente. De novo à aventura, esgrimiu-se para alcançar portos seguros. Agarrava-se com firmeza aos pontiagudos pelos de lã.Estava quase a chegar aos cabelos quando um reflexo de luz atingiu seus olhos deixando-o anestesiado. Quase caía de novo. Suas fortes mãos evitaram mal maior. Recomposto tentou ver de onde teria vindo a fustigante luz. Ficou abatido com o que viu. Lá baixo estava a sua mulher e filho a debaterem para sacudiram as águas ...as lágrimas. Olhou e gritou para a mulher ... mas o som não chegava, olhou para cima e gritou para o ser e nada. Ficou desesperado. Nada lhe valia ao ficar aos gritos...e fazendo força de punho continuou a subida...! Estava pendurado em vários pêlos do cabelo perto da orelha do gigante. Encheu os delicados brônquios de ar e brotou:
- Por favorrrrrrrrrr...pára de chorarrrrrrrr...!!
Subitamente o anão é sacudido e foi parar ao outro lado ... ficando de frente perante a outra orelha. Tinha sido o ser. Abanou a cabeça com rapidez. Tal grito de Bocas não passou despercebido. Não desta vez. O medo assombrava calorosamente Bocas. O silêncio reinava. A tremer todo, foi ganhando calma...quando reparou que as águas já não caíam. Mas tal não serviu de desafogo para o pobre anão pois este sabia muito bem que sua família estaria em apuros. Afinal o choro do ser não foi curto. Nasceu (momentos raros) algum ódio no anão pelo ser. Na máxima força nos pulmões soltou:
- Só sabes destruir com as tuas lágrimasssss...!
Foi fatal. O ser levantou-se energicamente e Bocas foi cuspido pelo ar.
- Nãoooooooooo...splasssh!
Caiu ao lado do seu filho e sua mulher. Ainda apoquentado tentou situar-se. Nadou um pouco e deu-se pelo boquinhas e mulher. Fraco mas com forças para abraçar a mulher e filho. As águas salpicavam loucamente. Bocas começa a chorar...!
- Eiii então paizinho...já não basta este lago de lágrimas??
Bouquitinho e sua mãe também já estavam a par do sucedido, pois o maroto não tinha obedecido o pai. Em vez de ter ido para casa avisar a mãe seguiu o pai e viu o que se passava, mas voltou logo pois ficou com medo, dando a conhecer à mãe do sucedido.
- Ai meu filho...meu querido filhooo...!
- Poupem os afectos para mais logo, temos esta água toda para tirar...e para variar...está a ficar fria...! - berrava a mulher.
Alegria dos três pequenotes infestava as águas...as lágrimas. A aurora do sol já estava à espreita e os primeiros raios provocavam no sapato um brilho, um reflexo brilhante. Bonito.

(...)

Estava frio e o ser andava pelas ruelas solitárias. "só sabes destruir com as tuas lágrimas" - mastigava o pensamento. Ele sempre foi uma pessoa humilde e activo até à morte das duas pessoas que mais amava na vida. Um estúpido acidente rodoviário ceifou as duas vidas e quase a sua. Desde este dia fatídico deixou de pensar, de falar, pior, de crer em Deus. Tal sussurro que tinha ouvido foi um clique para a sua alma. Imaginou coisas, imaginou anjos, imaginou mensageiros, e também coisas maradas. Algo que não fazia há muito
tempo..., pegou na foto que tinha no bolso. Sentou-se num velho banco. Chorou...chorando com o olhar colado aos olhos dos seus, outrora, mais que tudo. Nova faísca soltou-se-lhe. Reparou que na face do seu filho, um choro vermelho pingava. Ficou brutalmente aterrado com tal visão. Ficou segundos, minutos, horas...a vislumbrar tal quadro soberbamente triste. "só sabes destruir com as tuas lágrimas..." – de novo se lembrava do sussurro. Sentiu-se impelido a sair dali e levantou-se. Andou sem destino. Ao passar por
uma capela olhou para a cruz. Ficou tocado. Entrou na capela. Estava vazia, muito vazia, muito solitária. Sentou-se no banco da frente e ficou a olhar para o santo que estava de frente, ao lado do altar.
Lembrou-se do dia do velório. A saudade começava a apertar. Apesar da luz das velas, a escuridão triunfava. Ainda ansioso com a visão, decidiu tirar de novo a foto da sua famí lia. Surrealmente, a escuridão da capela foi desaparecendo! O ser sentiu-se atingido por forças de libertação, sentiu-se noutro lugar e notou uma
diferença..., os olhos do seu filho estavam brilhantes, imaculados, o sorriso fustigante! No seu coração nasce uma força. A semente da esperança, da luta que há muito estava enterrada, começou a florescer! Ganhou coragem e foi ao cemitério. Os mochos cantavam...melodia vampirica. A porta estava semiaberta. Entrou.
(...)
Campas caídas...abandonadas...figuras...anjos...folhas voando...Parou! Num cantinho estava uma campa. Estava coberta de folhas, velas tombadas. Era a campa mais mal tratada. De joelhos e derreado perante a laje deixou cair uma lágrima, mais uma...a última.

"Acabaram-se as lágrimas, não posso nem vou continuar assim!! Vou à luta nem que tenha de morrer pela descoberta da paz na minha vida...! Desculpem o meu estado. Desculpem por vos ter dado tristeza com as minhas lágrimas"
Levantou-se. Com um semblante rejuvenescido, tirando a foto do bolso olhou para o céu e beijou a foto. "A mudança é hoje. Tentarei nunca mais vos desiludir e obrigado meu Deus. Até já!". Limpou a sujidade. Hoje era uma campa aprumadinha. O brilho floreava a campa. Posou a foto e prendeu bem.
O homem foi caminhando em frente semblante de energia positiva, ...,e com destino! Tinha renascido.

*Nada acontece por acaso...um "acidente" que quase destruía o lar do Bocas fez renascer o laço fraterno entre este e a sua família e paralelamente fez acordar o ser para o caminho da paz.*

segunda-feira, fevereiro 23, 2009

Desafio: Os três anões (8)

OS TRÊS ANÕES

Era uma vez uma história
De três anões muito catitas
Ficarão na nossa memória
As três palavras benditas

Eram o Bicas, Becas e Bocas
Três anões muito pequenos
Não vão ser só palavras ocas
Pois isso nós não queremos

O Bicas simboliza o "Amor"
Que deverá existir completamente
Sempre com seu muito calor
Que ás vezes falta infelizmente

O Becas simboliza a "Esperança"
Que deverá existir na dose certa
Tal como os pratos da balança
Que com os seus pesos se acerta

O Bocas simboliza a " Paz"
Que tanto queremos observar
Em qualquer situação nos satisfaz
Em todo o lado e além mar

Agora só por curiosidade
Andavam sempre dois a dois
E viviam todos numa cidade
Um, em sapato trinta e dois

Reafirmo também o meu querer
Amor, Paz e Esperança
Pois sempre se ouviu dizer
"Quem espera sempre alcança"

Belisa da Estrela do Céu

domingo, fevereiro 22, 2009

Desafio: Os três anões (7)

Era uma vez...

Dois anõezinhos havia
Num país algures distante
Trabalhavam todo o dia
Até sua casa um instante

A sua casinha bonita
Parecia um cogumelo
Era toda forrada a chita
E lá dentro tudo muito belo

Tinham três filhos lindos
E seus nomes tinham graça
Todos eles muito bemvindos
E houve festa na praça

O primeiro era o Bicas
Pequeno com olhos chorões
Gostava muito de fitas
Para prender seus balões

O segundo era o Becas
Mais pequeno que o primeiro
Andava sempre em cuecas
Estava alegre o dia inteiro

O terceiro era o Bocas
Pequenino até mais não
Sempre com ideias loucas
Sempre muito brincalhão

Sendo este o mais pequeno
E com suas ideias ousadas
Lembrou-se pôr no terreno
Uma das suas moradas

Imaginam como era ela
Digo-vos já e não depois
Era mesmo muita bela
Um sapatinho trinta e dois

Belisa do Estrela no Céu

sábado, fevereiro 21, 2009

Desafio: Os três anões (6)

“Era uma vez um anão que teve três filhos: o Becas, o Bicas e o Bocas. Este último era tão pequeno, tão pequeno, que casou e foi viver para um sapato nº. 32.”

“Hey!” – puxou-me violentamente pela manga do casaco e quase me derrubou da cadeira…- “Não gosto nada desses nomes! Então vais dar-nos esses nomes horríveis?!”
“Bem…” – respondi, atónita – “eu ainda só estava a ler aqui as indicações para escrever este conto, nem fui eu que sugeri os nomes…”
“Pois é! Mas vais precisar de mim para escrever esta história, certo?!” – e abria ainda mais os grandes olhos, de um castanho salpicado de verde e dourado.
“Então é assim: se queres saber a história, para a poderes contar, tens que rectificar os nossos nomes!”
“Está bem!” – respondi – “Devo confessar-te que ainda estou sem saber o que dizer… De onde surgiste?...”
Riu-se com um ar subitamente infantil – só tinha setenta e cinco anos, como vim a saber mais tarde, o que, para um GNOMO, era uma idade muito jovem ainda… Bem, regressando à história:
Riu-se e gargalhou uma resposta já bem disposta:
“Primeiro, não somos anões, somos GNOMOS! Depois, os nossos nomes têm uma grafia difícil, pois são de origem gaélica, mas, para efeitos da história, podes escrever que o nosso Pai, o respeitado Hermenegildo, actualmente com 450 anos, teve três filhos: ANTON, BERTO e CLÁUDIO, eu próprio”.
Eu não sabia bem se havia de acreditar em tudo aquilo, mas ele quase me havia derrubado da cadeira e a sua voz – não era só eu que a ouvia, pois o meu cão Lucky tinha vindo cheirar este curioso homenzinho e sentara-se junto dele, numa atitude de simpática curiosidade.
Assim sendo, rendi-me à evidência de que, se não fosse tudo um sonho, CLÁUDIO estava mesmo ali em frente, ora rindo, ora protestando, sempre com a sua engraçada fatiota colorida, o seu chapéu em bico, os seus olhares expressivos e as suas muitas sardas…
“Desculpe-me” – disse-lhe – “nunca tinha conhecido um gnomo e não sabia muito bem o que dizer. O que propões?”
“Pareces uma boa pessoa. Proponho-me vir aqui contar-te a minha história… mas agora tenho que ir.” – E oscilando as pernas, tomou balanço e pulou da cadeira, onde tinha estado empoleirado, aterrando suavemente no chão, como se o seu corpo pesasse menos do que parecia. Lucky foi atrás dele até à janela, por onde Cláudio desapareceu, voltando de seguida para junto de mim e olhando-me com os seus belos olhos de dálmata, plenos de confiança.
Quanto a Cláudio, que extraordinária aparição! Levantei-me e fui fazer um café, antes de me sentar a trabalhar. No entanto, não podia contar a história sem o auxílio de Cláudio, já não me atrevia a inventar pormenores que estivessem incorrectos. Durante umas horas nada aconteceu e eu tentei concentrar-me nas minhas tarefas – mas a minha mente regressava sempre, teimosamente, ao curioso surgimento de Cláudio e à expectativa que este criara de me transmitir uma história bem mais invulgar do que qualquer uma que eu pudesse inventar.

Quando a Lua já ia alta no céu, e o Lucky já se estendera no tapete junto à cama, deitei-me, virada para a janela como sempre gosto de fazer para ver o céu estrelado e tive um sonho curioso…

Do lado da janela, ouvi um ruído como se se tratasse de alguém a atirar pedrinhas os vidros… Levantei-me a custo, pois estava bastante cansada. O Lucky levantou uma orelha, depois abriu um olho primeiro e só depois o outro, e com um bocejo preguiçoso decidiu-se a seguir-me.
Aberta a janela, vi que Cláudio me esperava, com a cara afogueada e agitando os braços: “Vem, não temos muito tempo, pois ao nascer do Sol terás que estar de volta”.
Saí pela janela, que Cláudio fez fechar com um só gesto, apesar de estar a mais de três metros… O Lucky também saltara pela janela e estava agora colado a mim, movendo-se suavemente na noite tépida.
Metemos por um atalho que eu nunca havia notado e que aparentemente começava ao fundo do meu jardim! Que estranho! Não me recordava nada de o ver ali antes, como se as grandes árvores daquele lado se tivessem afastado um pouco, criando ali um estreito carreiro.
Cláudio foi à frente, empunhando uma lanterna para que eu visse o caminho. O Lucky nem disso precisava, com o seu faro, visão e sentidos apurados. Chegados mais adiante, entrámos numa clareira que o luar iluminava e, para meu espanto, outros gnomos ali se encontravam, à volta de uma fogueira, rindo e cantarolando!
Não sei o que mais me espantou, se a visão daquele mundo, ou a atitude naturalíssima de Lucky, como se desde sempre convivesse com aqueles pequenos seres!

Quando Cláudio nos apresentou, embora alguns franzissem os sobrolhos ou os alçassem, em ar inquisitivo, na sua maioria foram gentis, embora reservados.
A Mulher de Cláudio era uma jovem de sessenta anos chamada Iolanda. Tinha um ar muito alegre, menos sardas que ele e usava tecidos mais vistosos e coloridos. Fez-me sentar e serviu-me algo quente, parecido com chá, mas com uns aromas tão maravilhosos e misteriosos que era como se eu estivesse a tomar uma tisana de miosótis e violetas.
Ao fim de algum tempo, atrevi-me a lembrar a Cláudio que ainda não me tinha contado o resto da história. Iolanda riu-se com gosto e comentou: “Todos achámos muito engraçado quando vimos o desafio lançado on-line, para os humanos escreverem uma história com tais características!” – e a sua gargalhada era fininha e fresca como um fio de água saltitante – “Embora ficássemos horrorizados com os nomes escolhidos!”
“E a história do sapato nº.32?” – perguntei…
“Bem, há um fundo de verdade nisso” – disse um outro gnomo, aproximando-se. “Sou o Anton” – afirmou, quando viu o meu ar de curiosidade.
“Quando o Cláudio quis casar, tinha havido uma inundação na floresta e todos os cogumelos desabitados estavam em péssimo estado. Como a Iolanda e ele tivessem pressa, para aproveitarem uma lunação favorável, improvisaram um “apartamento temporário” num sapato nº.32 que tinha pertencido a uma criança… até conseguirem remodelar um cogumelo gigante que actualmente à a sua casa”.
“Uma criança?” – perguntei, curiosa.
“Sim, uma menina que há muitos anos costumava visitar-nos. Vinha brincar connosco e com os animais, as flores e as borboletas… “
O meu coração começou a bater. “Como era ela?” – perguntei, num fio de voz…
“Era uma menina com longos cabelos castanhos e olhos ternos. Era tão calma que nem parecia humana, brincava a cantar suavemente e até os animais se aproximavam para ficar junto dela.”
“Posso ver o sapatinho?”
“Claro, ficou no jardim de Cláudio e Iolanda, para que sempre se recordassem dos seus primeiros tempos…”
Iolanda servia mais chá, mas eu levantei-me e gritei: “Venho já!”

Corri até casa seguida por um Lucky espantado mas divertido com aquela noite tão movimentada e entrei pela janela. Ajoelhei-me junto à velha arca de cânfora, que rangeu quando abri a tampa… de dentro, retirei um sapatinho de criança que não tinha par.

Quando cheguei de novo à clareira, Cláudio recebeu-me em festa. Eles sempre tinham sabido quem eu era, só eu precisava de me recordar! Até quase ao nascer do Sol, cantámos e dançámos… Depois, Cláudio acompanhou-nos até à janela.

De manhã, quando acordei, junto a mim estava um sapatinho de criança. Não querendo acreditar, e pensando que tudo não teria passado de um sonho, agarrei o sapatinho azul e olhei para dentro: meio sumido, ainda se conseguia ver o número: 32!
Lucky, ainda com terra seca nas patas, ladrou alegremente.

Isabel do blog Poesia Viva e outros com José António

sexta-feira, fevereiro 20, 2009

Desafio: Os três anões (5)

A Preta de Noite e os Três Anões

A noite caíra na companhia de uma ventania danada e de uns aguaceiros desesperados. Naquela noite, era como se as nuvens parecessem rebentar pelas costuras, tal era a intensidade e a brusquidão do temporal que eclodira. O vento assobiava e a chuva chicoteava as janelas das casas velhas, dando-lhes um ar de derrotadas. O céu negro escondia os mais belos cantos da aldeia, sugando-lhe muita da sua genuína beleza.
A aldeia, de seu nome Dwarfland, tinha o seu próprio encanto, deslumbrava qualquer um que lá entrasse, embora não fossem muitas as pessoas a sujeitarem-se àquele chão. Dizia a lenda, que quem lá entrasse se tornaria um tanto ou nada mais pequeno, anão! Diziam os antigos, que aquele lugar soprava uns pós mágicos que actuavam convertendo os seus visitantes a verdadeiros habitantes daquele lugar magnífico. E a parte mais importante, é que quem entrasse não voltaria a sair. Deveria lutar pela felicidade naquele sítio recôndito…

Nessa mesma noite tempestuosa, disfarçada por entre a escuridão, surgiu Preta de Noite. Era tão negra quanto o céu naquele momento, só o grande chapéu vermelho a fazia distinguir minimamente perante aquele ambiente negro. Em tudo se assemelhava com a noite, não só pela cor, mas também pela sua maneira de falar tão calma. Afinal, a noite é uma boa conselheira e, mesmo em silêncio, parece fazer-se ouvir calmamente.

Preta de Noite, após sofrer a transformação devida, que normalmente desfigura aqueles que lhe estão submetidos, continuava de igual forma bela, respirando encanto e serenidade. À parte de tudo isto, tinha um pé de Cinderela, o seu pequeno sapato 32 oferecia-lhe um toque especial. Aquando da sua transformação em anã, um deles permaneceu com o seu tamanho original. E ali ficou, num canto, ligeiramente sob um arbusto.

Num belo dia de Sol, Preta de Noite passeava pelos caminhos de Dwarfland, acabando por encontrar três companhias que viriam a ser muito especiais. Becas, Bicas e Bocas eram três anões irmãos muito simpáticos. Embora existissem várias semelhanças entre eles, existiam alguns pormenores que permitiam a sua distinção. Becas usava sempre um boné azul garrido com uma bolinha branca de algodão na extremidade. Tal característica dava-lhe um ar muito divertido e conferia-lhe muita graça. Era o que se podia chamar um tipo porreiro! Bicas transparecia uma personalidade vincada e parecia bastante eloquente. Os óculos castanhos colocados na ponta do nariz bicudo era uma marca exclusivamente sua. Passava grande parte do tempo a falar sobre o pai, um anão bastante querido na aldeia, que havia morrido há meses com cento e noventa anos, vítima de uma doença no estômago. Por fim, Bôcas ou Bócas, como lhe queiram chamar, era um super-anão. Saltava à vista o seu tamanho, era o mais pequeno dos três irmãos. Contudo, o que era de salientar era a sua extrema simplicidade e humildade. Foram talvez estes dois aspectos que fizeram com que Preta de Noite se apaixonasse por ele.

Bocas e Preta de Noite faziam um par impecavelmente harmonioso. Desde o dia em que assumiram um namoro, eram admirados por todos os habitantes da aldeia. Afinal aquele lugar parecia ser um óptima escolha para se viver… Tinha uma magia incomensurável, além disso, ser anão significava mais anos de felicidade.

Rapidamente chegou o dia em que ficaram noivos. Foi um dia para colmatar algum espaço do coração, onde não tivesse chegado aquele grande amor. Bocas tinha encontrado a mulher com quem queria ficar para sempre, agora restava-lhe finalmente abandonar a casa onde vivia com os seus dois queridos irmãos. A despedida foi custosa, apesar de não significar grande distância, pois ficaria com a sua noiva em Dwarfland. Bicas mostrava-se cabisbaixo ao ver o seu Bocas partir, Becas apesar da sua maneira tão entusiasta de viver, não conseguia esconder alguma nostalgia antecipada. Bocas, esse, não conseguiu evitar o lencinho branco para enxugar as lágrimas teimosas que surgiam no canto do olho. E, assim, Bocas partiu rumo a uma nova vida…

Bocas e Preta de Noite casaram, envoltos por uma festa maravilhosa na aldeia. Daí em diante, tinham a sua própria casa e partilhavam todos os retalhos das suas vidas, que agora eram uma só. A casa era bela e aconchegante. A chaminé soprava o aroma dos petiscos de Preta de Noite e a simplicidade da morfologia da casa transluziam a personalidade do pequeno Bocas. E assim viveram muito felizes, aconchegados no calor de um sapato número 32.

- Alguma vez eu pensei viver no meu próprio sapato?! – dizia Preta de Noite às gargalhadas.
- Ao menos não pagamos renda!! – respondia Bocas a rir.
Do outro lado da aldeia, Becas e Bicas dialogavam, já mais animados.
- A Preta de Noite calhou na rifa ao Bocas! Será que a Branca de Neve está guardada para mim?! – dizia Becas a rir, com o seu espírito bem disposto de volta.
- Nunca se sabe – respondia Bicas a sorrir.

Patrícia do More Than Words e mais

quinta-feira, fevereiro 19, 2009

Desafio: Os três anões (4)

Os três irmãos anões
Becas Bicas e Bocas
coincidência casados
soltaram amarras
num sapato nº 32
e noutro espaço
pouco importava
a aparência
felizmente
conheceram mundo
e tudo belo
em cânticos de esperança
de voltas e reviravoltas
e de imensa redundância
os anões de aqui hoje
são os homens paz do futuro.

Paula Raposo do Por ti...com os meus olhos e outros

quarta-feira, fevereiro 18, 2009

Desafio: Os três anões (3)

O Bocas resolveu casar e viver com a mulher no sapato nº 32. Os outros irmãos também se casaram e viveram noutros lugares com as suas mulheres e filhos, sempre no nº 32. Curioso.

O que sempre tinha atraído os irmãos Becas, Bicas e Bocas era a ideia de poderem ser felizes mesmo que o resto da população olhasse para eles de soslaio ou até com alguma indiferença.

Estudaram alguma coisa, não muito, pensaram em trabalhar e assim foram sonhando com um futuro.

Tinham 32 anos quando se casaram e 32 anos após, voltaram ao presente e deixaram uma palavra a cada um de nós :'nunca pares de sonhar, porque o sonho mesmo que pareça longínquo ele está aqui a 32 metros de nós...'.

E assim, se desfizeram da fatiota de anões e se envolveram na atmosfera com a felicidade nos seus sorrisos...

Paula Raposo do Por ti...com os meus olhos e outros

terça-feira, fevereiro 17, 2009

Desafio: Os três anões (2)

Bocas

Caminham em fila indiana, pela beirinha do ribeiro, cinco figurinhas miúdas, baixinhas, pequeninas. Tão pequeninas, tão delicadas, que uma brisa, que lhes soprasse, as poderia fazer desequilibrar e tombar sem remédio em direcção ao riacho. Por isso, cautelosamente, a família avança em direcção a uma casinha, num cantinho mais escondido na aldeia dos anõezinhos, que fica na clareira da floresta das magnólias e das hortênsias.
À frente, a mãe guia o seu pequenino rebanho. Atrás, o pai protege-os, orgulhoso da sua prole. O Becas, o Bicas e o Bocas, três destemidos guerreiros (incapazes de fazer mal a um rato), seguem, alegres e travessos, escoltados pelas suas chefias.

Já são uns rapazinhos, não muito criancinhas, mas ainda gostam de brincar às escondidas e à apanhada uns com os outros e, também, aos domingos, com os seus amiguinhos.
O Bocas é o mais pequeno dos três. Não por ser o mais novo, mas porque a sua constituição mais franzina o deixou mais pequeno do que os irmãos. É também este o mais brincalhão e namoradeiro, sempre rodeado pelas mais lindas catraias da aldeia. É engraçado observar as partidas que gosta de pregar às rapariguitas, e que elas, todas sorridentes, não se atrevem a levar a mal, ficando, até, à espera para ver qual é a próxima contemplada com uma maldadezita das dele. Ele gosta de todas elas sem distinção… ah! mas há uma que, aos poucos, lhe vai prendendo mais a atenção.
Coitadito do Bocas!... Quando se acerca das suas amiguinhas, começa a ficar com um apertozinho no coração… e não sabe o que fazer para as tratar todas por igual, pois aquela, para ele, começa a ser muito especial.

Atrás dos seus irmãos, o Bocas vai caminhando mas sem sentir muito o caminho, esquecendo-se de brincar amiúde como é seu costume. Vai um pouco pensativo, dando voltas para encontrar uma maneira de descalçar aquela bota, antes de arranjar um trinta e um.
Pois… magicava ele, para com os seus botões, que se não conseguir mudar a situação, um dia ainda haverão de começar a contar assim a sua história:
"Era uma vez um anão que teve três filhos, o Becas, o Bicas e o Bocas. Este último era tão pequeno, mas tão pequeno, que quando casou foi viver para dentro de um sapato número trinta e dois!"

segunda-feira, fevereiro 16, 2009

Desafio: Os três anões (1)

Era uma vez um anão que teve três filhos: O Becas, o Bicas e o Bocas. Este último era tão pequeno, tão pequeno que casou e foi viver dentro de um sapato nº 32. Seria no 34?... 36?... Humm deveria ser por ali, bateu, ninguém atendeu. Esperou, esperou... porém a chuva caia, quase desistia mas insistiu, alguém de dentro perguntou: Quem era, e Bocas respondeu "já Bocage não sou" em jeito de brincadeira, lá de dentro não acharam graça, nem piada, nem era isso que estava em causa, um disparate diziam uns, passou-se diziam outros, divagações concordavam em uníssono! Adiante. A porta abre-se, de par em par, o som de festejos, brindes, e o tilintar. à mistura, os risos, e a música a sobrepor-se a tudo. Entra e abraça a Noiva! O casamento seria ali. Ali mesmo na Graça, na Capela da Nossa Senhora do Monte, com bela vista, um miradouro e ao longe espraiava-se o Tejo e a cidade subia o horizonte. Percorriam-na. Beberam mais um copo e desceram para Alfama, com um banda e fanfarra, era dia de festa, de celebração de casamento! Bocas já ébrio, dançava ao som das ruas, do eléctrico 28, das gaivotas, da cadência das gotas na calçada. Seguido dos milhares de convidados e de sua esposa, que atrás de si rodopiava e dançava, com as suas sete saias de nazarena, multicolorida, e farfalhuda, espalhava a alegria! Todos em Êxtase e euforia! Aproximavam-se do rio, do cais e do cacilheiro, embarcavam rumo à felicidade, ao seu destino alegre e ao Barreiro. Tornaram-se nómadas, deixaram o sapato. Bocas inchou, o físico e o Ego, cresceu, aumentou e quase rebentou. Tornou-se um belo rapaz, prosseguiram caminho sem os convivas, em direcção ao sul, ao sol, ao calor e perseguiam o amor, seguiram a migração dos pássaros, mergulhavam com os golfinhos, fez-se príncipe encantado, pelo caminho fabricavam ninhos, perderam-nos de vista assim que cruzaram o Sado...

João Cruz do apontamentes

domingo, fevereiro 15, 2009

Desafio: Os três anões - pré-publicação

Queridos amigos, amigos silenciosos e visitantes ocasionais,

Começará amanha a publicação das respostas ao desafio dos três anões, que pretendia que escrevessem (em prosa, ou não) seguindo a frase ou ideia:

"Era uma vez um anão que teve três filhos: O Becas, o Bicas e o Bocas. Este último era tão pequeno, tão pequeno que casou e foi viver dentro de um sapato nº 32."

O objectivo deste desafio era, para além de colocar as pessoas sobre um "assunto" comum, era "desconstruir" a lógica do pensamento, escrevendo sobre algo que não faz muito sentido. E, apesar de me ter dado conta que não foi a melhor altura para lançar este desafio, porque foi tempo de testes e exames, chegaram várias respostas ao desafio. Algumas até de pessoas que nem conheciam o Ticho mas tiveram conhecimento do desafio através de divulgação. Quero deixar desde já o meu agradecimento a todos os que embarcaram comigo e responderam a este desafio. Obrigada pela dedicação, pela companhia, pelo esforço e pelo gostar conjunto pela escrita.

A publicação dos textos acontecerá de forma semelhante à publicação do desafio "Rai's parta os sapos": Será publicado um texto por dia, seguindo uma lógica de chegada, para que todos possam aproveitar cada estória. De notar que o conteúdo e forma dos textos são da inteira responsabilidade dos respectivos autores.

Quem acompanhou o primeiro desafio sabe que, embora comece a publicação já amanha, aceitarei textos até ao dia em que publicarei o meu texto, que será o último (não sendo isto um concurso, faz todo o sentido que não feche as portas a ninguém!). Por isso fica aqui o convite a quem ainda não teve tempo ou oportunidade de escrever, têm ainda uns diazinhos para mos enviarem...

Conto com a vossa companhia na leitura dos textos, assim como que para a publicação dos mesmos.

sexta-feira, fevereiro 13, 2009

No Parlamento

O reforço da protecção às vítimas da violência doméstica esteve ontem em debate no Parlamento: 32 mulheres morreram nos primeiros oito meses de 2008.


Para discussão no plenário foram agendadas uma proposta de lei do Governo e projectos de lei do CDS-PP, Bloco de Esquerda, PCP e PSD, sendo que a iniciativa do Executivo visava estabelecer o regime jurídico aplicável à prevenção da violência doméstica e à assistência das vítimas.

Os projectos de lei são também no sentido de conferir maior protecção às vítimas, quer através da alteração do artigo 152 do Código Penal (que prevê e pune a violência doméstica), quer pela alteração do regime de apoio ao acolhimento familiar, conforme propõe o PSD.

"A presente lei procura dar uma resposta ao nível da política social, unificando, pela primeira vez no ordenamento jurídico nacional, o acervo normativo relativo a esta problemática", diz a proposta do Governo.

Para o efeito, estabelece-se, "pela primeira vez, a configuração do "estatuto de vítima" no âmbito da violência doméstica que consagra um quadro normativo de direitos e deveres, não apenas no âmbito do processo penal, mas também no contexto laboral, social e de acesso aos cuidados de saúde de forma adequada".

Consagram-se ainda soluções jurídico-penais dirigidas à protecção integral da vítima, avultando a natureza urgente dos processos de violência doméstica, a criação de medidas de coacção urgentes (aplicáveis nas 48 horas subsequentes à constituição de arguido) e a consagração da protecção da vítima e das testemunhas durante a recolha de meios de prova e no âmbito da audiência de discussão e julgamento, promovendo o recurso à videoconferência e à teleconferência.

O projecto-lei do PSD visa alterar o regime de apoio ao acolhimento familiar, reforçando as medidas de assistência e protecção às vítimas de violência doméstica.

O projecto-lei do PCP propõe o "alargamento do conceito de violência sobre as mulheres" e "a responsabilização do Estado na criação de uma rede institucional de apoio às mulheres vítimas de violência".

Propõe ainda a instituição de uma Comissão Nacional de Prevenção e de Protecção das Mulheres vítimas de violência, à semelhança do que acontece com a Comissão Nacional de Protecção às Crianças e Jovens em Risco.

Para o CDS/PP, é "urgente" fazer reflectir na lei a "especial censurabilidade e perigosidade social" que a violência doméstica merece, tendo em conta o seu "carácter coercivo e o drástico aumento da sua incidência".

O projecto do CDS/PP refere que a violência doméstica "não deve ser tratada como pequena criminalidade", pelo que propõe "o aumento de 5 para 6 anos dos limites máximos das penas aplicáveis às formas mais comuns" deste crime.

Já o Bloco de Esquerda (BE) propõe que "o crime continuado deixe de abranger os crimes contra os bens eminentemente pessoais, o que terá efeitos ao nível da pena".

"Entendemos que essa será uma boa forma de proteger as vítimas não só de violência doméstica, mas também de crimes como o abuso sexual de menores ou de maus tratos", diz o projecto do BE.

(Notícia Expresso)

[Um pouco tarde, não? Quantas mortes já podiam ter sido evitadas?]

segunda-feira, fevereiro 09, 2009

Ir e lutar...


Existem dias que tudo parece que desaba, como terra a cair pela serra abaixo, em dias de temporal. Existem chapadas que nos atingem, pontapés que avançam mesmo não tendo a certeza da sua direcção ou procedencia. Vêm e atingem-nos com tanta força que nos fazem dar voltas e reviravoltas sobre nós mesmos, duas ou três vezes. Queremos apenas fugir do centro do circulo viciado que apenas roda ao nosso redor. Tentamo-nos enconder sobre nós próprios, resmungamos, choramos... Vem a dor e a furia de quem não esperava por tempestade na primavera. Mas ela vem... E se não queremos apanhar chuva, há que aprender a abrir o chapéu-de-chuva.

Depois de acordar com estalos de realidade, há que aprender a lutar, dar resposta aos ataques e depois seguir em frente. Mazelas? Existirão ou não, mas essas apenas ensinar-nos-ão a estar mais atentos. Ensinar-nos-ão a ser desconfiados, e preparados para o que pode vir. Depois de lição aprendida e de fazer os trabalhos de casa, faço a mala e vou, caminhando... Rapido? Não sei, mas quem sabe o que acontecerá amanha? A vida é feita de improvisos... E eu tornar-me-ei actriz desses improvisos. Faço a mala, calço os sapatos, levo o chapéu-de-chuva e estou pronta para a luta do caminho... Poderei caminhar sozinha, poderei caminhar acompanhada, mais depressa ou devagar, dependendo das inclinações, mas caminharei com passo firme. Desistir e voltar para trás? Não quero, não vou.... Cair, todos caimos, mas a verdadeira sabedoria é saber sempre levantar.

domingo, fevereiro 08, 2009

O tamanho do Universo...

«Um dia, uma criança chegou diante de um pensador e perguntou-lhe: "Que tamanho tem o Universo?" Acariciando a cabeça da criança, ele olhou para o infinito e respondeu: "O Universo tem o tamanho do teu mundo."

Perturbada, ela indagou novamente: "Que tamanho tem o meu mundo?" O pensador respondeu: "Tem o tamanho dos teus sonhos."»


(in Nunca desista dos seus sonhos, Augusto Curry, Pergaminho)


Hoje é o teu dia Sofiiinha, sonha e constrói.

Parabéns minha querida!

terça-feira, fevereiro 03, 2009

Desafio: Os três anões (parte 2)

Já começaram a chegar as primeiras respostas ao Desafio dos três anões, e que bom que é! Relembro que a ideia é escrever sobre a ideia:

"Era uma vez um anão que teve três filhos: O Becas, o Bicas e o Bocas. Este último era tão pequeno, tão pequeno que casou e foi viver dentro de um sapato nº 32."

Este é um desafio que pretende colocar-nos a escrever, puxando pela imaginação para uma situação menos lógica. A criatividade é algo que se trabalha, desconstruindo a lógica que tentamos sempre colocar em tudo. Esse é o objectivo: construir desconstruindo.


Este desafio está também a ser acompanhado, à distancia, por algumas pessoas com interesse sobre escrita... Estou expectante com o resultado. Fico a aguardar as respostas ao desafio para o email catiaazenha@gmail.com até dia 15 de Fevereiro. Dia 16 de Fevereiro iniciarei a publicação dos textos no blog Ticho.


Conto com a vossa participação e divulgação.

domingo, fevereiro 01, 2009

Hoje... foi assim

Existem sentimentos,
que são sentidos...
Existem palavras,
que são ditas...
Existem gestos
Que são tidos...
Existem momentos,
que não explicamos.

Hoje... foi assim,
Momentos,
sentimentos,
Palavras e gestos,
Num intenso partilhar,
Com a certeza do gostar
Na confirmação do olhar.

CA

quarta-feira, janeiro 28, 2009

Ali...

Ali tinhamos passado horas de uma singular paixão que nos fazia querer sempre mais. Aqueles momentos que passavamos juntos transformavam-se ali num novo renascer para nós com um autêntico sentimento de partilha. Era ali que dançavamos um supremo salsifré, como que se os nossos corpos dançassem ao sabor de uma música qualquer, com um ritmo músical que apenas nós podiamos ouvir. E foi assim, ali, durante todo aquele tempo.

Mas um dia vieste com uma conversa escaganifobética, tentando explicar o que ainda não consigo comprender, e partiste. Hoje acordei ali novamente naquela cama vazia. A sensação de estar à deriva naqueles lençois em que antes eram o nosso refugio, não se tinha alterado muito, era uma sensação que permanecia em mim.

Olho, dali, para a janela que vai iluminando aquele espaço que ainda me parece escuro. Respiro fundo e tento ganhar as forças que não tenho. O despertador toca atrasado. Está um dia límpido lá fora que chama por mim... É hora de seguir com aquela fábula em que se tornou a minha vida.

CA


Texto enviado para o 10º desafio das 12 palavras do blog Eremitério.

segunda-feira, janeiro 26, 2009

26 anos a 26 - parte 2

Amigos queridos, a verdade é que, apesar de estar a trabalhar, este dia está a correr bastante bem. Muitos são os mimos que me estão a chegar, via blog, via mail e via telemóvel. Que bom que é quando o carinho dos outros nos envolve desta forma tão intensa.


Parei agora para vos deixar alguns endereços que, neste dia, me dedicam carinho:

- Conto aqui - Marta
- Don’t panic! The truth is… - Fontez
- Gostar de Viver - Teresa
- More Than Words - Patrícia
- Procurar-se - Cris
- The Sound of Silence - Sofia

Adenda:
- Os livros que ninguem quis dar a ler - Sónia Pessoa
- MaMaRiSo - Tite

A todos vós, e aos muitos outros que me foram enviando carinho e mimando neste dia especial, deixo-vos um abraço e um sorriso ao som da amizade.

26 anos a 26..

Hoje é dia do meu aniversário... Hoje, dia 26, faço 26 anos. Sinceramente não sabia o que escrever aqui... Que dizer sobre o nosso próprio aniversario? Comecei a pensar no Ticho em si, na várias fases que já teve, em tudo o que já vivi e conheci por ter criado aqui este espaço... Nunca publiquei aqui a razão deste nome, e a verdade Ticho é o um diminutivo que eu tinha quando era criança: de Cátia passou a Caticho e rapidamente ficou apenas Ticho.

A verdade é que foi aqui que fui-me abrindo para o mundo, conhecendo tanta gente excelente, fazendo amigos, que não conheceria por outro meio. Mas de alguma forma foi aqui também que me abri para mim mesma. Este espaço serviu também para combater alguns fantasmas, falar sobre eles, tornar alguns assuntos maduros o suficiente para os encarar. Foi também por aqui que desenvolvi a minha paixão pela escrita. Sempre a tive desde criança (a minha mãe diz que é hereditário da familia paterna), mas aqui deu-se também uma maturação de tudo isso, e quem sabe se a minha vida não passará por aí? (Terei novidades a curto prazo, quanto a isso.) A verdade é que o Ticho marca de alguma forma a minha vida, e não podia de deixar celebrar convosco este dia.

Amigos, hoje faço 26 anos. Que mais posso eu dizer? Hoje é um dia importate para mim. Costuma ser um dia tendencionalmente depressivo e em que me escondo de mim própria. Se o dia do nosso aniversário é dia de celebrar o facto de estarmos vivos, e se antes não gostava de o estar, porquê celebrar? Mas este ano não. Hoje, encontro-me mais segura de mim mesma, mais consciente do que sou, do que quero ser e do que não quero ser. Sei que tenho ainda muitas pedras no sapato a resolver, mas estou nesse processo... Acredito que a vida tem muita coisa para me oferecer e cabe-me a mim aproveitar e lutar por isso. Hoje quero celebrar, dizer que quero ir em frente, e que os meus 26 anos serão um ano de mudança e que mais tarde serão para recordar. Hoje aposto em mim. Mas sei que nada faz sentido se estivermos sozinhas, sem que haja quem goste de nós, por isso hoje agradeço-vos também por estarem aqui comigo, como estiveram tantas outras vezes. Obrigada por isso, obrigada pela amizade, obrigada por caminharem ao meu lado, obrigada por ficarem felizes por mim.

ps - Talvez este post não tenha ficado bonito para post de aniversário, mas foi feito de coração aberto... que mais interessa?

sábado, janeiro 24, 2009

Os Contos de Natal em livro

Em Outubro desafiei-vos a escrever um conto em 3 dias para o projecto CrioNatal 2008, um projecto desenvolvido pela Crioestaminal a favor da Casa do Gil: Por cada conto de Natal recebido a Crioestaminal contribuia com 50€. Sabia que o tempo era pouco, mas mais valia tentar... Alguns de vós responderam positivamente ao meu desafio, o que me deixou muito orgulhosa e satisfeita.

Hoje foi com tanto ou mais orgulho que vi o ebook onde contam os nossos contos... Dos 44 contos inseridos no livro 6 são nossos, amigos queridos. Há algo que me poderia deixar mais orgulhosa? Quero salientar os contos, por ordem apresentada no livro:

- Coração Precioso - CA (página 19).
- O gigante do Moinho das Sapatilhas - Maria de Fátima Ramos (página 21)
- Paz na Terra aos Homens de boa vontade - Joaquim Mexia Alves (página 22)
- O Menino que queria tocar as Estrelas - Elsa Sequeira (página 32)
- Árvore de Sonhos - Cristina Arriaga (página 52)
- Avô Natal - Ana Barbara Varejão, Ana Isabel Brochado, Sofia Monteiro e Sara Salvador (página 55).



Deixo-vos um Obrigada de coração cheio, cheio de orgulho e alegria. Parabéns por serem quem são.

CA

terça-feira, janeiro 20, 2009

No Jornal...

Como habitualmente, parei a caminho do escritório para comprar o jornal. Bebi café logo de seguida e lá fui para mais um dia de trabalho. Sentei-me à secretária, liguei o computador e abri o email. Depois de ver se havia algo de importante, fui ler as notícias do dia.

Assim que olho para a capa com um pouco mais de atenção, um titulo chamou-me à atenção: “Mulher morre queimada pelo marido”. O meu coração tremeu, desfolhei apressadamente o jornal à procura da tal reportagem. Leio apressadamente a notícia. Parece que o tal homem, chegou a casa bêbado e tentou agredir a mulher, mas como ela tentou defender-se, regou-a com álcool e ateou-a com o isqueiro.

Senti-me mal disposta, enjoada. Parecia que me tinham dado um murro na barriga. Levantei-me e fui a correr para a casa de banho. Sentia-me tonta, entrei num daqueles cubículos e vomitei o que não tinha comido. Depois, sentei-me naquele chão imundo e frio e fiquei ali, com os pensamentos a andar num turbilhão. O meu pensamento não largava aquela mulher, que sofria em silêncio, que aguentou sabe Deus o quê. Pensei nele, e em como seria ele quando estava sóbrio. Pensei nos filhos que o casal poderia ter e em como eles se sentiriam agora. Pensei nos amigos... Porque nunca fizeram nada? Será que também ninguém se apercebeu? Ninguém viu as evidências? Muitos comentarão agora o sucedido e as suas causas. Falarão e continuarão a falar, lamentar-se-ão por não terem visto.

De repente o pensamento muda de direcção e pensa nos meus amigos, nos meus filhos, na minha família. Também eles pensarão isso no dia em que me acontecer algo semelhante? Penso sempre que um dia ele vai parar, mas quem me garante que um dia não serei eu o motivo de notícia? Tentei acalmar-me, afinal tinha que voltar para o escritório para não transparecer nada. Lavei a cara com água abundante, e olhei-me ao espelho. “Como me tornei nesta que vejo?” – Perguntei-me sem tentar responder. Encolhi os ombros, enxuguei a cara, ajeitei a roupa, e saí para lutar por mais um dia, mais um dia a viver com a máscara posta.

CA.

segunda-feira, janeiro 19, 2009

Desafio: os três anões - Novidades

Os três anões estão a dar que falar... E parece que a ideia louca foi acolhida com alguma piada por pessoas ligadas à cultura. Quer dizer... não que me tenham contactado mas foi o que me soou... zunzuns que me chegaram apontam para a divulgação do desafio a 700 pessoas da área. Ok, vamos ver se não me meti em trabalhos... Prometo mais novidades dentro em breve, e veremos se não haverá prémios a chegar... Fica no ar a ideia.

Sei que alguns de vós andam a "fingir" que não viram este post mas... Vamos lá escrever! Espero novidades vossas até dia 15 de Fevereiro. Conto com a vossa participação e divulgação.

quarta-feira, janeiro 14, 2009

Desafio: Os três anões

Cheguei a conclusão que, muitas das visitas silenciosas que recebo aqui vêm à procura de informação sobre escrita criativa ou sobre exercicios de escrita criativa. Quando eu frequentei os dois ateliers, uma das coisas que aprendemos e desenvolvemos foi a libertação na escrita, escrever sem lógica...

Grande foi o sucesso do Desafio: "Vamos escrever uma estória?" com a participação de muitos os que por aqui andam, e muitos dos que não andam por aqui... Muitos, nessa altura afirmaram que seria interessante que lançasse mais desafios do género. Pois bem, agora e assim de repente lembrei-me de vos lançar um desafio sem grande lógica, mas para exercitar isso mesmo.

Nessa altura surgiu, em tom de brincadeira como só ela sabe fazer, uma promessa de um conto sobre três anões. Como o conto nunca chegou... fica o desafio! O desafio é: Escrever um conto (ou poema) seguindo a frase /ideia:

"Era uma vez um anão que teve três filhos: O Becas, o Bicas e o Bocas. Este último era tão pequeno, tão pequeno que casou e foi viver dentro de um sapato nº 32."

Quem tiver interessado em participar neste desafio, por favor envie os textos para catiaazenha@gmail.com até dia 15 de Fevereiro. Dia 16 de Fevereiro iniciarei a publicação dos textos. Conto com a vossa participação e divulgação.

domingo, janeiro 11, 2009

Cinema e Teatro

Cinema: Changeling - A troca


Numa bela manhã de sábado do mês de Março de 1928, em Los Angeles, Christine Collins, mãe solteira, despede-se do seu filho de 9 anos, Walter, para ir trabalhar – trabalha como telefonista. Mais tarde, quando Christine regressa do trabalho, é confrontada com um dos piores pesadelos que uma mãe pode ter: Walter, o seu único filho, desapareceu. Segue-se uma busca exaustiva e infrutífera - Walter parece ter desaparecido sem deixar rasto. Até que, 9 meses mais tarde, uma criança – que alega ser o seu filho – é entregue a Christine pela polícia, ávida de refazer a sua imagem perante a opinião pública. Confusa, entre fotógrafos, jornalistas, polícias, e as suas próprias emoções em conflito, Christine é persuadida a aceitar a criança, mesmo sabendo, no fundo das suas emoções, que aquele não é o seu filho.

À medida que Christine pressiona as autoridades para continuar as buscas, Christine percebe que, em plena era de Proibição, uma mulher só, não desafia todo o sistema e consegue sair incólume da história. Profundamente desiludida e revoltada, Christine encontra um aliado na pessoa do Reverendo Gustav Briegleb, que a ajuda na luta à procura do seu filho desaparecido. Enfrentado uma polícia corrupta que questiona a sua sanidade mental, e apropria opinião pública, céptica, à espera de um final feliz, Christine desesperadamente batalha por obter respostas. À medida que a sua luta continua, a mãe solteira torna-se uma espécie de heroína para os pobres e derrubados que foram sistematicamente abusados e postos de lado pela polícia estatal que tomou conta da cidade.

Changeling (A Troca) é um filme veridico, escrito por Michael Straczynski e realizado por Clint Eastwood, passado em Los Angels em 1928 que envolve todo o sistema que estava implementado na altura em que a polícia era soberana.



Changeling estreou esta semana nos cinamas, um filme a não perder, com Angelina Jolie no principal papel.


Teatro: Os Acamarrados

Um pai e uma filha presos a uma cama suja. Cada um deles conta compulsivamente a sua história: o pai fala da ascensão e queda da sua empresa de móveis, a filha de um passeio na praia, das histórias que a mãe lhe lia do que quer que seja, desde que encha o silêncio. Até que as histórias se cruzam, neste momento e nesta cama, onde é tudo frenético, cruel e feio, mas onde talvez seja finalmente possível uma verdadeira conversa entre os dois, e talvez consigam então parar e dormir. Em Acamarrados o pai construiu paredes e mais paredes dentro de casa, até a filha ficar numa caminha: erigiu paredes à volta, e entrou, também ele, para a cama. E a história é: por que raio é que ele fez isso?



Texto escrito por Enda Walsh e tradução de Joana Frazão com a fantástica interpretação de António Simão, Carla Galvão. Em cena no Teatro Municipal de Almada, projecto Artistas Unidos.

quinta-feira, janeiro 08, 2009

A crise e os Portugueses

Por Ricardo Araújo Pereira

Ou estou fortemente enganado (o que sucede, aliás, com uma frequência notável), ou a história de Portugal é decalcada da história de Pedro e o Lobo, com uma pequena alteração: em vez de Pedro e o Lobo, é Pedro e a Crise.

De acordo com os especialistas – e para surpresa de todos os leigos, completamente inconscientes de que tal cenário fosse possível – Portugal está mergulhado numa profunda crise. Ao que parece, 2009 vai ser mesmo complicado.

O problema é que 2008 já foi bastante difícil. E, no final de 2006, o empresário Pedro Ferraz da Costa avisava no Diário de Notícias que 2007 não iria ser fácil. O que, evidentemente, se verificou, e nem era assim tão difícil de prever tendo em conta que, em 2006, analistas já detectavam que o País estava em crise. Em Setembro de 2005, Marques Mendes, então presidente do PSD, desafiou o primeiro-ministro para ir ao Parlamento debater a crise económica. Nada disto era surpreendente na medida em que, de acordo com o Relatório de Estabilidade Financeira do Banco de Portugal, entre 2004 e 2005, o nível de endividamento das famílias portuguesas aumentou de 78% para 84,2% do PIB. O grande problema de 2004 era um prolongamento da grave crise de 2003, ano em que a economia portuguesa regrediu 0,8% e a ministra das Finanças não teve outro remédio senão voltar a pedir contenção. Pior que 2003, só talvez 2002, que nos deixou, como herança, o maior défice orçamental da Europa, provavelmente em consequência da crise de 2001, na sequência dos ataques terroristas aos Estados Unidos. No entanto, segundo o professor Abel M. Mateus, a economia portuguesa já se encontrava em crise antes do 11 de Setembro.

A verdade é que, tirando aqueles seis meses da década de 90 em que chegaram uns milhões valentes vindos da União Europeia, eu não me lembro de Portugal não estar em crise. Por isso, acredito que a crise do ano que vem seja violenta. Mas creio que, se uma crise quiser mesmo impressionar os portugueses, vai ter de trabalhar a sério. Um crescimento zero, para nós, é amendoins. Pequenas recessões comem os portugueses ao pequeno-almoço. 2009 só assusta esses maricas da Europa que têm andado a crescer acima dos 7 por cento. Quem nunca foi além dos 2%, não está preocupado.

É tempo de reconhecer o mérito e agradecer a governos atrás de governos que fizeram tudo o que era possível para não habituar mal os portugueses. A todos os executivos que mantiveram Portugal em crise desde 1143 até hoje, muito obrigado. Agora, somos o povo da Europa que está mais bem preparado para fazer face à crise.

terça-feira, janeiro 06, 2009

Eu e Outro Eu

Hoje nasceu outro espaço. "Eu e Outro Eu" é um espaço de conversa do Eu com Outro Eu. Não me irei alongar e dar explicações... Criei apenas porque sim, porque me apeteceu, porque acho que me fará bem. Será um espaço onde preocupações sobre como, porquê, quando não entrarão. Será um espaço que poderá durar ou talvez não... Mas que não me importarei.

domingo, janeiro 04, 2009

Confiança



Confiar é andar na chuva,
Mesmo podendo adoecer
Confiar é apostar tudo,
Correndo o risco de perder
Confiar é dedicar-se,
Sem medo de fracassar
Confiar é ir contra todos,
E descobrir o que é amar
Confiar é dar espaço,
E ter a certeza de que não vão te traír
Confiar é decepicionar-se,
E mesmo assim não se deixar iludir
Confiar é ir atrás,
Mesmo quando te dizem não quero mais
Confiar é amar com a alma,
Sabendo que isso não morre jamais
Confiar é dizer posso te fazer feliz,
Ainda que pense que não tenho razão
Confiar é os erros perdoar,
Antes mesmo de pedirem perdão !


(Ediel Caldas)

quinta-feira, janeiro 01, 2009

Contribua para esta causa!

Ainda em tom de festa, com cheirinho ao Natal e e folia do ano novo, aqui fica um video para uma nova campanha... Não se esqueçam que Natal é quando um Homem quiser por isso juntem-se a esta causa!

Se tiver dificuldade em visualização, ver aqui

Nota: O Ministério da Justiça, o Ministerio da Economia, o Ministério das Finanças e o Banco de Portugal são padrinhos desta causa.

quarta-feira, dezembro 31, 2008

Feliz 2009



A última noite do ano aproxima-se e é tempo de balanços... Este foi mais um ano que passo com a vossa companhia, com a vossa amizade... Mas não foi apenas "mais um", foi um ano cheio, cheio de momentos e alguns bem intensos... Foi um ano cheio de alegrias, de muitos sorrisos, mas também com algum sofrimento e lágrimas, muitas lágrimas também. Foi um ano de novas amizades, e algumas muito boas... Foi um ano de crescimento e de amadurecimento.

Vem aí um novo ano e com ele surgem pedidos, votos, desejos. Eu desejo que este ano vos traga muita saúde e felicidade... Depois deixo os votos convosco e desejo que este ano vos traga tudo o que mais desejam. Para mim? Para mim, para além de saúde, quero paz! Tenho alguns objectivos pessoais sim, e tenho já estruturado como vou conseguir alguns, mas.. Acima de tudo quero paz de coração e estar bem comigo mesma.

Espero que 2009 seja um ano melhor que 2008, não que este tenha sido mau, mas... Pedimos sempre um pouco mais, não é? Em termos de felicidade temos mesmo que ser ambiciosos. Tenham uma noite muito feliz, e que seja o reflexo de todos os momentos do ano. Feliz 2009!

domingo, dezembro 28, 2008

Silêncio...



A brisa corre, o sol aquece a manhã, o mar toca gentilmente a areia húmida, que os pés hesitam em pisar com medo do que poderão sentir… Por haver falta de melhor solução senta-se esperando que a vontade e coragem de entrar na água apareçam como um súbito desejo. Espera, espera e espera, até que uma tristeza lhe invade o pensamento distraindo-a de tudo o que esperava… Tal sentimento era fruto de algo que tinha ficado por resolver, de alguém que a magoou e não deu justificação para fazê-lo.

Há dias em que as palavras escassam… Por mais que tentemos agarrá-las e fazê-las falarem, elas conseguem sempre escapar. São aqueles dias em que queremos o silêncio, em que as palavras não chegam para dizer o que sentimos, em que nada nem ninguém serve de inspiração para criar conversa.Por vezes, as palavras estão tão gastas que o melhor remédio é deixa-las guardadas num canto e só usa-las quando é mesmo necessário. Daí as palavras rompidas e fartas, serem o objectivo profundo disto tudo… Um dia de descanso, ou até mais, é perfeito para elas não me fugirem para sempre e permanecerem no seu verdadeiro lar.

Brochado publicado aqui.


Hoje deixo-vos este texto excelente de alguém que passa por aqui em silêncio e que pertence a uma turma composta por algumas leitoras mais ou menos assiduas do Ticho. Ao 10º A, em especial à Sofia, à Morim, à Sara e claro à Brochado, um grande beijinho.

sábado, dezembro 27, 2008

Natal dos Sem Abrigo 2008

Já pensei relatar o que se passou no Jantar dos Sem Abrigo de Lisboa que participei, no fim de semana passado, mas como julgo que as palavras serão insuficientes para contar tudo o que aconteceu por lá, o ambiente criado por todos - voluntarios permanente e voluntarios apenas para o jantar, as vivências (melhores ou um pouco mais tristes e de desilusão - porque também existem!), as histórias, os sentimentos, os sorrios, deixo-vos um slide com algumas imagens...

Quero salientar que o João encontra-se em duas fotografias de casaco castanho e gorro preto, acompanhado por uma voluntaria e o Sr. Presidente da Comunidade Vida e Paz.


Quero ainda deixar um beijinho ao Pedro Lira (presente em duas fotografias com crianças) e à Sofia Cunha (responsaveis pela área das crianças) e à Sofia Valente (responsável pela área dos presentes - e que contacto desde há um ano na sequência da campanha das meias, e que tive a oportunidade de conhecer) pela excelente integração que fizeram aos voluntários. Foi um privilégio trabalhar convosco e com a CVP neste projecto. Se não nos encontrarmos antes, encontrar-nos-emos para o ano, sem dúvida!

ps - Obrigada Amiga por partilhares todos estes momentos comigo, foi bom ter-te ao lado a sorrir junto.

Adenda: por questões técnicas tive que retirar o slide e colocar o link... Peço desculpa pelo incomodo.

sexta-feira, dezembro 26, 2008

Numa rua agitada...

Estava sentada na esplanada daquela rua movimentada que apenas gosta de passar porque leva sempre a algum lugar, mas que hoje decidiu ir ali, àquele lugar. Sentada na esplanada olha para o ambiente geral agitado, os carros a passarem, as businas a tocarem, as pessoas a correrem de um lado para o outro... A correria de todos os dias, o stress, o mesmo que costuma ter, mas hoje decidiu parar. O stresss que sente agora é diferente daquele outro... Ansiedade? Talvez seja esse o sentimento... Medo? Imenso, embora não o queira admitir.

Hoje está ali, sentada naquela esplanada com a vida a correr-lhe ao lado, e ela ali parada, profundamente parada sem saber o que pensar, o que dizer, como reagir, apenas e só com medo de si própria no momento seguinte.

O relógio parece igualmente estático, o tempo não passa, e o que seriam 15 minutos parecem agora horas sem fim... Bebe mais um pouco de água e levanta-se, caminha devagar como que se isso evitasse chegar ao seu destino. Chega ao numero 1 da tal rua, olha para a porta e entra. Chama o elevador, olha-se ao espelho no seu interior, respira fundo e sobe ao terceiro piso. Procura a porta e empurra-a devagar como se pesasse toneladas.

Por detrás da porta uma senhora já com alguma idade lê um pequeno livro e ouve música classica. Ela entra e senta-se numa das cadeiras daquela sala vazia. Vê os quadros abstratos, as paredes, os tapetes e a carpete... Olha as portas fechadas e ouve vozes por detras de uma delas. "É por ali o caminho", pensa tentando-se convencer.

Algum tempo depois estava a fazer aquele percurso no sentido inverso. Caminhava com passos tremulos, mas com a certeza que tinha cumprido a sua missão por aquele dia, e que... o que se passou entre aquelas 4 paredes só ela saberia.

quarta-feira, dezembro 24, 2008

O verdadeiro Natal...

O João é um Sem Abrigo de Lisboa. Lá vinha ele com as suas vestes cinzentas, chapeu preto e com uma barba branca que lhe tapava todo o pescoço e pouco descobria da cara. Vinha do jardim, com uma flor na mão e uma verdura a acompanhar. Entra no espaço semi-vazio e diz em tom teatral:
- Hoje entrei pela porta do cavalo! Não entrei pela porta principal... - Denunciando o pequeno "crime" que tinha cometido.
- Foi?! Mas pelo menos traz uma flor... - respondeu a senhora que estava ao meu lado.
- E sabe como se chama esta flor? - Aproximando-se de nós, continuando com a sua forma teatral de falar - São tantas as Senhoras- que não sei a quem dar a flor. Mas dou um beijinho a quem souber o nome da flor.
Algumas de nós ainda tentámos dizer o nome, mas a maioria apenas dizia "não sei" ou abanava com a cabeça de forma negativa.
- Pois bem - disse ele - Fui perguntar à minha amiga Sara, florista, que flor era aquela mas que também não sabia. Florista e não sabia?! - Exclamava ele indignado. Mas continuou - Mostrou-me então um compendio de botanica e estivemos a ver e esta flor em latim chama-se ******is( sinceramente não consegui decorar o nome), mas mais conhecida por Não Sei.
Terminou e deu uma gargalhada. Nós todas ficamos a olhar para ele e depois desatamo-nos a rir também. Desejou-nos um Feliz Natal, mas que tinha que ir jantar porque esperavam-no lá dentro.
A cena teatral seria perfeita se não fosse interrompido pelo actor João Ricardo (este real e conhecido da nossa praça) que o queria conhecer (o João Ricardo ao João). Estiveram a falar um bocadinho ali a nossa frente, quando o João virou-se para o João Ricardo e disse num tom mais alto e novamente com a sua voz teatral:
- Agora tenho que ir, que esperam por mim para jantar, depois voltarei para dar autografos! - E seguiu-se nova gargalhada geral.


Pela conversa que estava a ter o João, o Sem Abrigo de Lisboa, é alguém culto e que por este ou aquele motivo foi parar à rua, onde reside. Aquela noite, no passado domingo, foi a sua ceia de Natal, com um prato de comida quente: Bacalhau, legumes e ovo, com arroz doce de sobremesa. Neste Natal lembrem-se do João, do Sem Abrigo de Lisboa, quando tiverem à vossa frente uma mesa farta, cheia de comida e doces, e pensarem que não gostam desta ou daquela comida, ou deste ou daquele presente. O Natal não é consumismo, presentes, e comer a perder de vista! O Natal é a celebração do nascimento de um Menino que nasceu pobre, sem luxos alguns. Natal é amizade, fraternidade, é familia, é sorrir... O João no meio da sua miséria brincava e sorria. Sabio como mostrou ser, talvez saiba bem melhor o que é o Natal que todos nós...

Desejo a todos vós um Santo e Feliz Natal junto da vossa familia, amigos ou pessoas que querem bem. Muita fraternidade e paz para todos vós.

CA

sexta-feira, dezembro 19, 2008

Hoje voltei lá...

Hoje voltei lá, voltei como tantas outras vezes volto num silêncio mais ou menos despercebido. Tudo parece calmo, abandonado, e esse o engano de muitos que lá vão. Olho em volta e vejo nas paredes os quadros que conheço de cor, alguns até pintados por mim, distração de horas que te queria por perto. Pintei para ti palavras que só tu entendias. As paredes, essas, são da cor de sempre, nada muito sofisticado, mas teu.

Caminho pelos corredores, e percorro o espaço. Veem-se aqui e ali fotografias, memórias de muitos momentos vividos, momentos partilhados, teus, tão teus... E nossos, teus e dos teus amigos, incluindo-me neles. Conheço as lembranças, mas ainda olho para elas como as visse pela primeira vez... E já foi ha tanto tempo!

Olho na sala o sofá, aquele que tantas vezes me enrolada esperando que o momento passasse, que passasse a tristeza, o medo... Depois chegavas tu em silêncio e vinhas com aquela fatia de bolo e um colo de leite, conjugação perfeita que partilhavamos. Não dizias palavra, não perguntavas nem questionavas aquele momento. Sabias sempre como chegar até a um sorriso meu, e esse era o momento em que eu sabia que era hora de lutar... Outras vezes era eu que lá te encontrava, e o caminho era o mesmo.

Vou, passo pela cozinha e sinto um aroma a café. Sorrio. Quantas vezes bebemos ali café deliciosamente ao sabor de uma conversa animada, de tanto disparate dito ou simplesmente ao sabor das noticias recentes. E a política? Quantas vezes era esse o assunto? Conversar, trocar ideias e criar novas visões...

Dirijo-me para a porta da rua e sigo para o jardim. Paro e vejo-te ali, de costas para a porta. Sabia que era ali que te iria encontrar... Não tinhamos combinado, mas estás a minha espera... Sabias que viria. Ouves-me os passos, coloco-te a mão sobre o ombro e tu chegas-te um pouco para eu me sentar também. Sento-me ali, contigo. Quantas foram as vezes que nos sentámos ali? Sentava-me ali quando queria sentir-te perto ou quando pedia ao vento para me levar os pensamentos. Muitas vezes dizias querer aquele espaço só para ti mas depois apenas fingias que não me vias por lá, quando ia à tua revelia...

Hoje sentamo-nos juntas ali, naquele nosso baloiço, a olha para o caminho à nossa frente. Sabemos que iremos para lá, mas também sabemos que não iremos sozinhas, caminharemos lado a lado com a confiança e amizade que construimos.

Hoje o Confesso Aqui faz 2 anos, sim faz, porque apesar de aparentemente abandonado, mantem-se visitado por vários. É um espaço especial, que foi e é um refugio meu. Lá encontrei alguém muito diferente e muito igual a mim que me abriu as portas daquela casa, e da sua vida. O baloiço ficará nos nossos corações e mantém-se naquele jardim, que voltamos que nem porto de abrigo. Parabéns ao Confesso e a ti, primota.

quarta-feira, dezembro 17, 2008

Dia de festa...

Existem pessoas que nos enchem a alma de carinho. Existem cantos que nos fazem sentir bem. O More than Words consegue juntar tudo isto: um canto especial de uma pessoa especial. Chegou por acaso e ficou, permaneceu e permanecerá para mim sempre, muito para além deste mundo que dizem virtual. Muita coisa já foi vivida e partilhada entre nós, foram (quase) dois anos intensos de crescimento...

...Porque existem coisas que não se explicam, que não se definem... são More Than Words! Parabéns mana querida, por seres a pessoa especial que és.

sábado, dezembro 13, 2008

Je t'aime...


Este é um dos videoclips mais marcantes que já vi e ouvi. Aproveito para dizer:

Je t'aime a todos vós, que eu tanto gosto

quarta-feira, dezembro 10, 2008

o combate com a realidade

"fausto olhou para o prédio tinha vidros em frente, vidros grandes assim em frente todo ele em vidros. a estaca zero era uma praça e os vidros reflectiam que os prédios uns tão outros e nuvens nas fachadas a passarem os prédios e as nuvens. a praça com um bar desfocado e a esplanada cheia de miúdas lindas. nem fausto começou era o álcool e tambem comprimidos. do que estava a ver. do que estava a ver começou o fausto chegou à praça e começou a atirar álcool para cima das fachadas e das ruas dos prédios. começou prédios de vidros linhas demasiado direitas e depois começou a entorná-los, como quem enche os folículos da cabeça do cérebro da cerveja eram linhas demasiado direitas. assim a enchere a inchar a cabeça de cerveja. e o ruído da espuma a chiar era a pressão nos ouvidos. e as raparigas sorriam-lhe cada vez mais sorriam cada vez mais elas mais bonitas e fausto cambaleava no meio dos sorrisos delas. e fausto tinha feito um pacto uma vez. fausto tinha feito um pacto, por isso elas sorriam-lhe
e olhava para as fachadas dos prédios eram uma esplanada, era uma praça à parte do mundo com uma esplanada, e as raparigas riam-se belas e bebiam cervejs, e o calor do verão por cima parecia uma cúpulacosmos de calor e as raparigas riam-se e mostravam os lábios sorridentes e carnudos com beijos lá dentro.
mas fausto estava interessado pôs-se a embirrar com a "realidade", estava mais interessado em distorcer a "realidade", porque a "realidade", porque a "realidade", diziam-lha. porque a "realidade" imitava-lhe com aquele arzinho irritante de tão ser a "realidade". por isso fausto entornava bebidas alcoólicas para cima das ruas, para cima dos prédios, enquanto os insectos ainda não lhe subiam as suas pernas aleatórias. e aranhas eram paridas pelas paredes.
primeiro era uma árvore que sofria torção, que cambaleava expressionista, uma árvore com os braços no ar a gritar clorofila verde que era e os ramos torcidos no ar clorofila. depois eram os comprimidos. depois eram as fachadas dos prédios que ficavam líquidas e de linhas bambas. a "realidade" sofria a investida era fausto a avançar odiava a "realidade". porque isso era quando as pessoas chegavam e diziam isto é a "realidade"e depois fausto cortava-lhes a garganta sempre que podia eles não se calavam!, eles não se calavam!, quando lhe diziam "a realidade".
fausto cravou as unhas nas gengivas da "realidade" e levou-a à força era um ringue com centenas de espectadores e de gladiadores. fausto tinha poder de encaixe, por isso bebia bebidas mágicas, a "realidade" batia em fausto, as miudas riram-se excitadas com quando há uma disputa pelos melhores genes, fausto tentava acertar na cada da "realidade" e quando pé no estômago ressentiu-se ao se curvar no ringue e o ringue falava ainda tempo para acabar. e fausto pregou-lhe um murro quando ela no chão depois com um pau no lombo a umas vezes nas vértebras outras nas costelas.
fausto estava francamente bêbado. no entanto estava a ganhar o combate à realidade. "a realidade" estava de gatas no chão a tentear levantar-se e eram cachos de sangue a caírem em cachos de sangue do nariz partido e a cada cabisbaixa quando sangue a cair em que isto sim se pode chamar poesia, o nariz partido e o sangue a cair aos bocados para o chão.
e fausto triunfava com os pulmões do cérebro pneumotórax na cabeça assim cheio de drogas.
nessa altura a cidade já se tinha liquefeito. as raparigas lindas tinham-se derretido com o calor, e boiavam mortas, com lábios entreabertos à esperaque fausto as fosse beijar corpos de princesas. fausto tentavanadar nas ruas liquefeitas, as pequenas ondulações da água eram reflexos de habitações, e os prédios quando se derretem transformam-se em água, nos reflexos ondulados da cidade tornada água. corpos de princesas.
agora que tinha mostrado ao mundo que tinha mostrado ao mundo que a "realidade" era fraca e que podia derrotar a "realidade", e que o mundo tinha derretido numa água cristalina e sem peixes, e qeu o mundo já tinha deixado de existir terra, agora só lhe faltava afundar-se afogar-se no fundo com um milhão de raparigas afogadas como o seu harém de princesas, corpos de."

por Rafael Dionísio em Cadernos de Fausto, Chili Com Carne 2008.

domingo, dezembro 07, 2008

Pára e pensa... precavê-te!

Arnaldo, 59 anos.
Após abandonar o ofício de sapateiro, Arnaldo, de 58 anos, casado e residente no Grande Porto, passou a dedicar o seu tempo livre a esculpir madeira com um canivete. As criações do artista de mãos habilidosas eram trabalhadas na rua, perante os olhares curiosos de dezenas de crianças que brincavam à sua volta.
Acabava por oferecer as esculturas aos miúdos. Quantos mais brinquedos dava, mas crianças andavam à sua volta. O povo nunca viu malícia naquela proximidade e, mesmo quando surgiram os primeiros boatos, a vizinhança não quis acreditar. Crianças carentes de afectos aceitavam "brincar" com o sapateiro em troca de presentes. Passaram-se anos até à primeira denúncia. Depois da primeira, sucederam-se outras, de meninas com idades entre os quatro e os oito anos, que o sapateiro desnudava, acariciava e pedia que lhe tocassem. Confrontado, negou quase por completo os crimes. Mesmo após a condenação, insistiu que eram só brincadeiras e que nunca seria capaz de fazer mal a uma criança. "Argumentava que jamais magoaria uma criança, até porque tinha familiares menores e que costumava brincar com eles", revela Armando Coutinho-Pereira*. Para o velho sapateiro Arnaldo, eram apenas "jogos" que fazia com as crianças.

António, 39 anos.
Poucas vezes António, tipógrafo, deixava as quatro paredes de casa. Era um solitário, com uma orientação sexual pouco esclarecida. Sujeito de trato fácil, mas muito reservado e introvertido, passava as noites a navegar na Internet, para dessa forma estabelecer contactos e marcar encontros com adolescentes (todos do sexo masculino), ora no seu apartamento, convidando-os para beber um porto ou para jogar bilhar num café pouco recomendado. Nessas alturas, em troca de dinheiro ou de prendas (como sapatilhas e bonés de marca), convencia os adolescentes a trocar favores sexuais. Umas vezes participando, outras assistindo. Na prisão, nunca teve uma vida fácil, pois tinha uns maneirismos/tiques muito singulares. Nunca revelou o seu crime. O psicólogo Armando Coutinho-Pereira* acredita que António nunca o entendeu. Para ele, eram apenas encontros.
Segundo o especialista*, António gozou de certa impunidade, porque os adolescentes em questão, de famílias mais ou menos carenciadas e pouco supervisionados (passavam o dia e, por vezes, as noites sozinhos, nas casas de uns e de outros), com vergonha e com receio de ser conotados com determinada orientação, só muito mais tarde o denunciaram e porque houve uma desavença.


Em Novembro arrancou em duas cadeias do país o "programa de intervenção terapêutica em agressores sexuais", sendo intervencionando em cerca 20 voluntários.

Uma característica dos "violas", como são comummente tratados no meio prisional, é a falta de sinceridade, manifestada através das mais diversas distorções cognitivas, levando a que se isolem. Regra geral, "negam ou minimizam as suas condutas, alegando que estavam alcoolizados ou drogados, que agiram por impulso ou que foram provocados pela vítima. Alguns tentaram convencer de que não pensaram no acto antes de tal acontecer. Muitas vezes, utilizam as distorções cognitivas como forma de minimizar as culpas. Outros há que acreditam que qualquer crime que seja originado por um acto impulsivo lhes poderá determinar uma sentença menor ou possibilitar um veredicto de culpado, mas inimputável. Uma vez condenados, aqueles homens "interiorizam estar no bom caminho", pois são integrados no contexto laboral e não registam medidas disciplinares", diz o psicólogo. Chegam ao ponto de não entenderem por que não beneficiam de medidas flexibilizadoras". (Armando Coutinho-Pereira).


"Não existem programas minimamente estruturados de avaliação, acompanhamento, intervenção e monitorização com agressores sexuais. Enquanto isso, a sociedade teoriza, questiona, reflecte e retém toda e qualquer iniciativa, dando espaço aos "predadores sexuais" para fazerem as suas vítimas, cumprirem penas de prisão e voltarem a fazer vítimas".

*Armando Coutinho-Pereira, psicólogo, mestre em Ciências Forenses e autor de um estudo sobre Distorções Cognitivas e Agressão Sexual

Nota: Post baseado na reportagem do JN de 21/10/2008 de Telma Roque, denominada «Cadeias tratam "predadores" sexuais».

sexta-feira, dezembro 05, 2008

...uma ordem!

Toda a gente sabe que eu sou uma pessoa sem opinião e submissa, que faz tudo o que me mandam. Ora bem, este é um post que prova isso mesmo! Disseram-me que queriam um post aqui até ao final da manhã, para ultrapassar o anterior, e heis-me aqui bem mandada a escrever.

O post anterior retrata uma situação muito complicada pela qual passei e que deixou marcas bem fundas em mim. Sei, e a pessoa que me ordenou tirar o post anterior de primeiro tambem o sabe, que não é por passar aquele post para segundo que vou ficar melhor mas, em todo o caso, é uma forma de não pensar tanto nisto, ou não ver esta imagem assim que entro aqui... Quero ainda agradecer a todos os que comentaram ou que fizeram chegar até mim algum conforto mediante assunto tão sensível. Fica no silêncio o que tanto queria dizer...

Para terminar em grande este post cheio de conteúdo, vou colocar uma música que me põe sempre a cantar... Aproveitem e juntem-se a mim, durante 2 minutos, a ouvir esta música fantástica!

quinta-feira, dezembro 04, 2008

A minha herança



A fraqueza é inata,
e essa foi a minha herança
a unica que trouxe
A unica que me deste...

A recordação mais nitida
que tenho de ti,
foi aquele momento
que te vi ali prostrado
diante de mim...

Foste cobarte,
não falaste...
escondeste-te...
e quando te fartaste,
decidiste partir...

Eu vi-te assim,
naquela figura
horas e mais horas
continuavas ali...

Ninguem reparou em mim
ninguem percebeu o que vi
ninguem percebeu o que senti
ninguem se preocupou...

Desde então achei
que tinha encontrado um solução
seguir-te... seguir o teu exemplo...

Muitas vezes pensei
que não conseguia continuar
Muitas vezes achei que era o fim
muitas vezes desisti...

Não fui...ainda...
faltaram as forças...
a coragem (ainda) não veio...
Um dia talvés nos encontraremos
aí onde estás...

Dir-te-ei que me marcaste,
que me magoaste,
que não te respeito
que não te amo...
que não me recordo de um beijo
muito menos de um abraço...

...recordo apenas aquele homem prostrado... diante de mim!

Faz 13 anos...

quarta-feira, dezembro 03, 2008

Prémio Dardos



Hoje é dia de distinções por aqui... A Maria Oliveira , a Marita Ferreira e a So Maria distinguiram o Ticho como o prémio Dardos. Quero agradecer-lhes a distinção porque, apesar de não comentarem o Ticho, mostram que o conhecem, que sabem o que se vive por aqui, e reconhecem-no (será que estou a dizer algo que não o seja?!). A Maria Oliveira, a Marita e a Só Maria fazem também parte de uma serie de blogs que visito com alguma regularidade. São três blogs algo diferentes, mas também iguais, pela partilha que se vive: a Maria escreve "simples desabafos", muitos com que eu me identifico bastante (já lhe disse várias vezes, embora não sei se ela tenha consciência do quanto...), a Marita é mais como que uma defensora de causas LGBT, dando-nos a conhecer o outro lado de uma forma séria, sem extremos, mas por vezes também de forma engraçada; a So Maria mostra através da fotografia situações, sentimentos, estados de espírito, curiosidades que nos fazem pensar, mas também dizer os maiores disparates... Obrigada às três!


"Os Prémios Dardos destinam-se a distinguir os blogues que contribuem de forma significativa para o enriquecimento da cultura virtual, através da veiculação de valores culturais, éticos, literários, pessoais… premiando os blogueiros que demonstram a sua criatividade através do pensamento vivo e através das formas de comunicação que utilizam para o expressar. Estes selos, foram criados com a intenção de promover o salutar convívio entre os bloggers e como forma de demonstrar carinho e, reconhecimento por um trabalho, que agregue valor à Web.”

Quem recebe o “Prémio Dardos” (e o aceita) deve:

Exibir a respectiva marca /imagem;
Linkar o blog através do qual recebeu o prémio;
Escolher quinze (15) outros blogs aos quais atribuirá o “Prémio Dardos”.

A capela
Branco Escuro
Carracinha Linda
Contemplar
Conto Aqui
Gostar de Viver
Jardim dos Segredos
Maça com Canela
MaMaRiso
More Than Words
Partilhas em Fa Menor
Procurar-se
Sonhar que é possivel acabar com a pobreza
Sonhos ao Luar
The Sound of Silence

A selecção destes blogs teve duas origens: ou são blogs que eu comento bastante, há muito tempo e que são já de amigas que ficarão, que me cativaram; ou são blogs novos que apesar de recentes (para mim), considero merecedores de tal premio pelo primeiro impacto que me causaram. Parabéns a todos.

domingo, novembro 30, 2008

Lançamento Mares d'Alma

Amanha será o lançamento do livro Mares d'Alma. Este é um livro que surgiu do sonho de criança de Elsa Sequeira e que amanha torna-o realidade. Eu, que soube há um ano atrás a sua intensão, estarei amanhã com ela a celebrar esta realização. O lançamento é amanhã, dia 1 de Dezembro, na Junta de Freguesia do Retaxo, concelho de Castelo Branco, às 18h30.

Para este dia ajudei tambem a Elsa na organização da propria festa com algumas ideias, com powerpoints que irão ilustrar e complementar todo o lançamento, escolha de músicas, etc. Foi bom poder ajudar na realização de um sonho...

E como esta ajuda não era suficiente, a Elsa pediu-me para ir ler (para não dizer declamar, porque parece-me muito formal) um poema. E pronto... Lá estarei eu a ler "A mansão do silêncio"...


Desejo à Elsa a maior sorte para este projecto, e deixo também o convite para quem quiser passar amanhã no Retaxo para conhecer o Mares d'Alma, a Elsa, a mim, e outros amigos da blogosfera que já confirmaram a sua presença.

sexta-feira, novembro 28, 2008

Numa fugida...

Está na hora! O sol já vai baixo e é tempo de partir… Sim, não é que tenha hora marcada, mas não gosto de dar margem de erro… Deslizo entre as árvores, com aquela armadura que me protege o corpo, e com a astucia que me protege a armadura… Olhos bem abertos, sentidos apurados. A espada preparada para qualquer eventualidade, é a extensão dos meus membros. Atravesso florestas, pontes, subo e desço montanhas… Vou e aproximo-me devagar… Sei que não espera por mim, gosto de ver a surpresa nos seus olhos. Aparecerei de repente… Grito o teu nome para que olhes para trás e me vejas a aproximar… Corro e… Cais nos meus braços. O amor vem ao de cima, e não existe armadura que lhe resista.

Sete horas da tarde e um calor escaldante, tenho que me despachar, o Asdrubal deve estar a chegar a qualquer momento. Levanto a viseira, limpo as gotas de suor, sim, isto da porra das armaduras faz um calor do caraças, e retoco a maquilhagem, uma coisa suave, para que ele ache que é a minha beleza natural. Mantenho-me abrigada debaixo da nogueira grande, por trás do roseiral, enquanto ele se aproxima do ribeiro seco. Gosto de o observar e chegar de surpresa, pé ante pé.Mas… gritam pelo nome dele, não sou eu… espreito entre os espinhos das roseiras… uma flausina corre para ele gritando o seu nome. Não sei que feitiço lhe lançou, mas vejo o terror nos seus olhos antes de cair. Está em perigo… meu pobre amado, irei em teu auxilio Asdrubal da minha vida…“Aguenta-te meu amor!!!” Grito já de espada em punho correndo na direcção deles e o meu pobre amorzinho que recuperava, olha na minha direcção e com a emoção volta a perder os sentidos…

Depois de me cair nos braços e de desmaiar de emoção, vem de lá uma outra mulher, toda esborratada de maquilhagem, armada em fina, como se não desse para se perceber que aquilo é tudo falso… até botox! Com a armadura ainda pode pensar que passa por verdadeiro, mas eu bem sei!! Ele, volta a desmaiar, deve ter sido de susto… Mas quem não desmairia ao ve-la a aproximar-se daquela maneira? Antes de desmaiar, ouço um “ai meu Deus”. Para boa entendedora, sei que se trata de um pedido de ajuda… Pego-lhe ao colo, monto no cavalo e vou… fujimos como que de um dragão em chamas se tratasse…

"Aguenta-te meu amor!!!" Volto a gritar. Voando na direcção deles e é nesse momento que a flausina monta o seu burro e o arrasta pelo chão atrás dela. Tudo para me sacar um resgate certamente. Meu pobre amor… não deixarei que sofras nas mãos dessa tirana desbotada. Assobio com classe ao meu trovão, um belo e reluzente cavalo negro, que num segundo se coloca a meu lado. Monto o trovão e num segundo estamos em cima deles. Como pode ela ter pensado (?) que me escapava em cima daquele andrajoso daquele burro e com o Asdrubal agora que recuperara novamente os sentidos, a querer claramente fugir. Eu sei que o Asdrubal é delicado, sensível, mas é também tão forte o meu amor… aiaiiii

Olho para trás e lá vem ela montada num cavalo preto que mais parece um boi a bufar por tudo o que é lado… Deve ser do peso! Ele, agora já acordado, grita qualquer coisa que não percebia o quê pelo barulho… Estava a pedir-me para que fosse mais rapido, só podia ser essa a razão. Os meus anos de aulas de equitação teriam que servir para alguma coisa… Acelerei, curvei e fui… até me perder de vista.

Vou-vos dizer, voou! A bandida voou para longe depois do soco que lhe dei a meio dos olhos. Creio mesmo que deve ter perdido a vista. (bondade minha, assim ganha umas corzinhas e durante um tempo está poupada de ver aquele ar desenxabido…). Comigo é assim, sou uma lady, mas se mexem com o que é meu, ui, ninguém me segura muito menos aquela pirralha desbotada armada em gente.Mas a minha preocupação estava com ele, meu pobre amor… estava traumatizado, via-se… olhava em volta ainda em desespero, mas estava já seguro, enlaçado nos meus braços fortes.

Era uma besta! Fugi, corri, desviei, mas a verdade é que veio atrás e deu-me um murro! Foi aí que eu tive a certeza… Não era botox, aquilo era homem! A maquilhagem era apenas para disfarçar a barba mal aparada e a armadura era para esconder o que não queria mostrar…

“É um homem!”
“É um homem!” Gritava a lingrinhas descabelada já sem a parte de cima da armadura. Despudorada! “Claro que é um homem” Berrei-lhe de volta, estava quase capaz de a fazer lamber o fundo ao tacho outra vez. “É um homem e é meu!” Acrescentei. E foi nesse momento. Foi nesse momento que o meu Adrusbal desatou a correr em direcção ao riacho. Fugia de nós como o diabo da cruz… estava traumatizado coitadinho…

Vi, com os olhos ainda entre abertos, o Asdrubal a correr em direcção ao riacho.. Olhei para ela… Ela olhava intrigada. Desatamos a rir… Foi naquele momento que uma cumplicidade veio ao de cima. Passaram 5 anos e ainda estamos juntas, num amor que apareceu de forma inesperada…
Do Asdrubal, tivemos apenas a noticia que tinha tambem virado gay e que vivia tranquilamente para os lados da montanha.

Demorei ainda uns minutos até me cair a ficha. A deslavada ainda não tinha percebido, olhei para ela em jeito de: dahhhhh, e foi aí que desatamos às gargalhadas.Ele há coisas engraçadas nesta vida. Não é que a sacana me conquistou? A sério. Lingrinhas, deslavada e fracalhota… mas pronto, não resisti. Deve ser por causa do meu instinto protector, quase maternal…O que vos sei dizer é que estamos juntas até hoje… o Asdrubal? Bem, o Asdrubal está a viver com o abominável homem das neves desde esse dia. Foi para lá que fugiu, tal era o medo do cobardolas!

Cátia e Marta


Estes foram os comentários a este texto, mas que viraram estória. Obrigada primota, gosto imenso de viajar contigo neste mundo de fantasia...

terça-feira, novembro 25, 2008

Uma noite especial...

Descobri um tesouro, um video que mostra um dos dias mais marcantes para mim... Música de despedida de uma casa que me marcou, uma casa que me viu crescer e que cresceu connosco... Os primeiros alunos de uma faculdade são sempre quem marca a diferença e nós sentimos essa responsabilidade, a responsabilidade de sermos o exemplo, a responsabilidade de carregar o simbolo da Universidade Católica Portuguesa mas principalmente o simbolo de uma nova faculdade que precisava crescer com valores.

Partilho convosco este video, a música foi cantada para nós, finalistas, no dia de entrega de diplomas.