quinta-feira, novembro 20, 2008
Jantar dos Sem Abrigo - Formação e Campanha 2008
quarta-feira, novembro 19, 2008
Desejo de felicidade...
terça-feira, novembro 18, 2008
Já sou crescida...
sábado, novembro 15, 2008
Parabéns...
Hoje queria dizer-te mil palavras, felicitações que tantos já te disseram... Hoje deixo uma música que já assistimos juntas e ao vivo... Uma musica especial que gostas e que te toca...
Ao som desta música digo que gosto muito de ti, daquela mulher louca e uma menina doce que aprendi a conhecer e a gostar... muito! Parabéns Plim!
quinta-feira, novembro 13, 2008
Coração precioso...
No bairro onde morava, a porta de sua casa sempre foi uma porta aberta para todos. Todos os dias, a D. Esmeralda colocava sete pratos na mesa, cinco para os filhos, um para si, e um ficava de sobra, porque haveria sempre alguém com fome para alimentar. A comida nem sempre era muita, mas com boa vontade, aquela que sempre teve, juntava um pouco mais de água, mais uma batata ou uma cebola, e lá havia um pouco mais de sopa.
Com algum esforço terminou o curso e tornou-se enfermeira no hospital da zona. O seu trabalho sempre foi conhecido e reconhecido por todos, mas o que lhe era mesmo reconhecida era a bondade com que encarava a vida. Muitas eram as vezes que entravam pessoas doentes no hospital, mas que ela reconhecia no olhar que apenas precisavam de um agasalho e de um prato de sopa quente, e meia hora depois, a maleita estava curada, pelo menos até à próxima noite fria.
Numa noite de frio intenso, a meados de Dezembro, entra José Afonso pela porta das urgências, com o seu pequeno filho Gonçalo nos braços, depois de ter sido atropelado por um carro que se pôs em fuga. José Afonso era um dos homens mais ricos da cidade, tinha várias empresas na região e era homem de muitos contactos internacionais. Era um homem respeitado, admirado, mas também temido, tal o seu poder. A sua entrada ali era de todo inesperada, mas não havia tempo para surpresas, o pequeno Gonçalo precisava de ajuda e atenção urgente.
Rapidamente uma equipa de médicos e enfermeiros correu em seu socorro, levando de imediato o pequeno rapaz para a sala de observações. Alguns exames, radiografias, TAC’s e foi levado para o bloco operatório. Gonçalo corria risco de vida e ia ser sujeito a uma longa operação que iria entrar pela noite fora, e que iria ser certamente a noite mais longa de José Afonso.
A D. Esmeralda, que estava de serviço nessa noite, e apesar dos muitos utentes que atendia, tinha sempre uma atenção para os que a rodeavam, e para os que mais precisavam. Naquela noite, tinha ali na sala de espera aquele homem imponente e rico, em sofrimento. Naquela noite, era ele que precisava de um pouco de ajuda. Apercebendo-se da sua aflição, foi informar-se sobre o estado do menino e foi até a sala. Sentou-se na cadeira ao lado de José Afonso, que anestesiado pela dor e preocupação, não se apercebeu da sua chegada. Ela colocou a sua mão sobre o sobre o ombro e sorrindo, tentando passar alguma serenidade, disse-lhe que a operação ainda iria demorar, mas que iria correr tudo bem. Ele olhou-a com surpresa, mas depois encontrou ali, naquele gesto, naquele, naqueles olhos verdes e tão verdadeiros, o carinho, a paz e a confiança que precisava. Ela ficou ali em silêncio mais 5 minutos junto dele, depois teve que voltar ao serviço. As visitas aquela sala foram frequentes durante aquelas horas.
As horas foram passando e no inicio do dia, houve noticias. A operação tinha corrido bem, mas as próximas 48 horas eram fundamentais para o desenvolvimento do estado de saúde da criança. D. Esmeralda ouvia atenta estas palavras que o Senhor Doutor transmitia, do outro lado da sala a José Afonso. Depois do médico ter voltado para dentro, José Afonso virou-se e encontrou, lá ao fundo, aqueles olhos que o observavam como a mesma serenidade e verdade do início da noite. Ela sorriu-lhe e desejou-lhe um bom dia, estava de saída para casa. Ele ainda tentou dizer-lhe alguma coisa, mas antes que o conseguisse, já a senhora tinha saído pela porta.
O dia foi passando e não havia novidades do Gonçalo. Ele estava ligado às máquinas e não havia meio de acordar. José Afonso, desesperado com a situação, e abatido pelo cansaço, decidiu ir caminhar um pouco para apanhar ar. A noite estava particularmente fria, mas isso não o importava. Foi andando sem pensar em nada, mas com um turbilhão de sentimentos no coração. Uma rua atrás de outra, virando aqui e ali, e indo sem destino… De repente ouviu, de uma forma quase silenciosa, uma voz que lhe pareceu familiar. Olhou um pouco mais em frente e viu a D. Esmeralda a sair de sua casa. Ia precipitar-se para ela, quando algo o fez parar, e ficou apenas a observá-la.
A D. Esmeralda transportava consigo algo enrolado que parecia um cobertor. Atravessou a rua, seguiu uns 100 metros mais a frente e foi entregar aquela manta a um homem, que se encontrava por ali deitado, meio enrolado no meio do frio. Naquele momento, ao observar aquele momento e no meio de tantos sentimentos que trazia, José Afonso começou a chorar. No seu íntimo, tinha considerado inicialmente aquela senhora como apenas mais uma profissional, que apenas estava a ser simpática porque o reconhecera, mas ali estava a prova da sua generosidade…
Quando D. Esmeralda regressava para casa, ele escondeu-se nas sombras da noite para não ser visto, não queria que de alguma forma ela fosse surpreendida depois daquele gesto tão pessoal e doloroso, por se confrontar com a realidade daquele homem ali deitado. Depois de ter entrado em casa, José Afonso voltou para o hospital, mas aquela imagem marcara-o.
Os dias foram passando, e felizmente o pequeno menino acordou e foi recuperando melhor que o esperado. Dois dias antes do Natal, estava recuperado o suficiente para ir para casa. Aquele Natal foi de comemoração intensa naquela luxuosa casa, presentes e mais presentes, comida, doces, e tudo o que tinham direito, naquele momento de felicidade.
Mas aqueles dias passados no hospital, aqueles gestos da D. Esmeralda não foram esquecidos. Assim que pararam as chuvas, começaram as obras de um empreendimento junto aquele bairro, que ninguém conseguia perceber a que se destinava. As dúvidas surgiam, muito se questionava, mas as respostas não chegavam.
Um dia, no inicio do tempo frio, tocaram a porta da D. Esmeralda. Como era hora de jantar, não era de estranhar que fosse algum “convidado” para uma sopa quente. Quando abriu a porta, viu do lado da porta, alguém que não esperava: José Afonso. A surpresa era grande, não poderia sequer imaginar a razão para tal visita. Depois de entrar, José Afonso informou que um ano antes tinha estado ali, naquela rua, e que ela tinha-lhe ensinado o que era a generosidade, o que era dar. E principalmente ensinou-lhe que se pode dar sempre, mesmo quando não se tem muito. Mas quando se tem, deve-se dar ainda mais, porque nunca se sabe quando se virá a precisar também. Durante aquele ano, ele tinha mandado construir um centro de acolhimento para sem abrigos, e vinha ali pessoalmente para lhe agradecer e para lhe pedir que ela fosse madrinha daquele centro.
Ela ouvia-o incrédula mas feliz e aceitou, quase sem palavras, apadrinhar aquela causa que lhe era tão querida. Minutos mais tarde, quando ele se dirigia para a porta, voltou-se para ela, aproximou-se e deu-lhe um abraço. Ela confortou-o nos seus braços, a experiência tinha-lhe ensinado a importância e o significado daquele gesto. Depois, ele disse-lhe: Sei porque todos lhe chamam Esmeralda, porque para além de ter esses olhos verdes que brilham no escuro, tem um coração precioso!
segunda-feira, novembro 10, 2008
Deixo-te um Jasmim...
Hoje queria dizer-te muita coisa... Hoje queria dizer-te que confio em ti como confio em poucos nesta vida... Hoje queria dizer-te que a nossa Amizade é especial, e que perdurá para além do tempo e do espaço... Hoje queria dizer-te que me preocupo contigo, como me preocupo comigo... Hoje queria dizer-te que és importante para mim e que é muito importante ter-te na minha vida... Hoje queria dizer-te que tive medo, um medo terrível de te ver sofrer ou até mesmo de te perder... Hoje queria dizer-te que gosto muito de ti... Hoje deixo-te um Jasmim, e deixo que o seu perfume fale por mim... quinta-feira, novembro 06, 2008
Voluntariado?
domingo, novembro 02, 2008
Presente de Aniversário...

Cristina, a ti e a tantos outros amigos que me leem aqui digo que, o que torna esta casa especial é a tua e a vossa presença aqui, a tua e as vossas visitas constantes, a tua e a vossa Amizade... O facto de me permitires e de me permitirem que eu entrasse na tua e nas vossas vidas assim, de coração aberto. O Ticho permitiu facilitar o encontro, mas coube-nos a nós fazer com que a Amizade acontecesse. Existem amigos aqui, que me acompanham há quase dois anos, alguns mais, outros há apenas alguns meses, mas a Amizade reina. O meu dia-a-dia mudou, a minha vida mudou, e eu cresci com todos vós, aqui.
O facto do Ticho ser considerado um blog de ouro, deixa-me orgulhosa. Orgulhosa de algo que eu criei, mas orgulhosa de mim mesma. Este é o prémio que reconhece e assinala tudo de bom que tenho feito e construido aqui, convosco... Inclusive, eu mesma e a minha forma de ver o mundo.
Obrigada por tudo, pela Amizade, pelos momentos felizes, pelas lágrimas e desilusões partilhadas, pelo aprender, pelo sofrer em comunhão. Obrigada pelo silêncio que nos fala ao coração...
terça-feira, outubro 28, 2008
Desafio: Um conto de Natal em 3 dias...
segunda-feira, outubro 27, 2008
Dois Anos...
Hoje é com orgulho imenso que vos apresento como Amigos, porque o são mesmo. Já pude dar o abraço apertado que tanto queria a alguns, a outros ainda não, um dia talvez... Mas estão todos no meu coração, e de uma ou outra forma, fazem parte do meu dia-a-dia. Vocês conhecem-me bem, conhecem episódios da minha vida que poucos daqui, deste lado do ecran, conhecem. Conhecem-me os sentimentos, os estados de espírito e até as dúvidas e as desilusões.
Para mim a Amizade pura e sincera, o estar disponível, o poder ajudar, o acariciar, o prestar atenção, o apoiar é fundamental. Por isso, hoje, neste dia que celebro o segundo aniversário desta casa que é nossa, digo: Amigo, gosto de ti desde aqui até à Lua, gosto de ti desde a Lua até aqui. Gosto de ti simplesmente porque gosto, e é tão bom viver assim...
domingo, outubro 26, 2008
temporariamente em obras
quarta-feira, outubro 22, 2008
Vou...
segunda-feira, outubro 20, 2008
Opiniões que não consigo compreender...
sexta-feira, outubro 17, 2008
Neste jardim...
Mas a verdade é que a realidade da minha vida agora é bem diferente, e o que era, agora já não é mais. Depois do divórcio, o rendimento ficou demasiado curto para dar face a todas as despesas, e começou a gerar-se uma bola de neve na qual me enrolei e embrulhei. O dinheiro não chegava e comecei a cortar nas futilidades, depois nos hobbies, na roupa, na renda de casa que ficou por pagar... A depressão e o desespero tomaram conta de mim sem eu me aperceber. Mas também como aguentar tudo aquilo sozinha? Começou a falhar o trabalho e em menos de uns meses perdi também o emprego. Foi quando tive que começar a cortar na comida, na minha e na dos meus filhos... E aí decidi parar e resolver a minha vida.
Os miudos agora estão em casa da minha irmã que cuida deles como filhos, são bem alimentados, têm horarios, vão à escola e um dia terão estudo e uma profissão. Serão uns grandes homens de amanhã e de quem sentirei muito orgulho.
A mim pouco me sobra para além de algumas contas por pagar, aquelas que ficaram pendentes desde o outro tempo. Tirando isso, tenho este banco de jardim, que tanto é janela para o mundo, como cama ao deitar.

(foto de Alex Gandum)
Hoje é o Dia Internacional para a Erradicação da Pobreza... Estejam atentos e se puderem contribuam porque este é um problema que se tem vindo a agravar ao longo do tempo... E lembrem-se que, ninguém está a salvo que, de um momento para o outro, também se encontre a precisar de ajuda. Levanta-te por esta causa...
terça-feira, outubro 14, 2008
Hoje queria escrever...
sexta-feira, outubro 10, 2008
Encontrar+se...
A Associação Encontrar+se é uma Instituição Particular de Solidariedade Social que surge da Necessidade de desenvolver soluções para as dificuldades encontradas no desenvolvimento, implementação, avaliação e investigação de respostas adequadas às exigências próprias da reabilitação psicossocial das pessoas com doença mental grave.
O Movimento UPA - Unidos Para Ajudar, cujo o mote é "Levanta-te contra a discriminação das doenças mentais", procura de forma responsável levar as pessoas a dar o primeiro passo que fará toda a diferença no entendimento e aceitação das doenças mentais.
Entre Janeiro e Outubro o Movimento UPA envolveu alguns dos mais significativos nomes da música portuguesa. Todos os meses, foi lançada uma música que resulta da parceria de duas personalidades / grupos marcantes da nossa música, alusivas aos temas propostos pela Encontrar+se.
Deixo-vos um video (não oficial) da 1ª música: Pertencer dos Xutos e OIOAI. Porque é preciso e é possível Pertencer...
quarta-feira, outubro 08, 2008
Enquanto esperas...

Enquanto esperas na (falsa) esperança
Enquanto esperas pela presença,
O sorriso,
O olhar,
Enquanto esperas pelo encontro que não chegará,
Pela esperança que te libertará,
O sorriso,
O olhar
que recordarás,
Enquanto esperas... está!
Enquanto esperas... ama!
Enquanto esperas pela eternidade que chegará... Vive!
Há duas semanas encontrei um Oásis no meio de um deserto. Um Oásis que prometia ser a área isolada no meio de algo existente, onde correriam sentimentos profundos, como água. Quem assina chama-se Zahir, que segundo a cultura asiática diz que, uma vez tocado ou visto não se pode esquecer mais. Não esqueci, e voltei dia após dia aquele Oásis, tão recente, mas puro, sensível e profundo. Ontem encontrei um post que me tocou, pelos seus jogos de palavras mas principalmente pela mensagem. Respondi-lhe lá, mas agora quis fazê-lo aqui, desta forma.
segunda-feira, outubro 06, 2008
Objectivos...

sexta-feira, outubro 03, 2008
6 coisas...

Ora bem, há algum tempo que já não tinha um desafio no Ticho, mas hoje é o dia.
6 coisas com que me preocupo?
- Com a minha família mais chegada;
- Com os meus amigos queridos
- Com os outros em geral (mas só com os que merecem)
- Com o futuro;
- Com a economia mundial;
- Com a sobrevivência, minha e de muitos.
6 coisas com que não me preocupo?
- Superstições;
- Dinheiro;
- Revistas cor-de-rosa e vida dos famosos;
- Bebidas alcoolicas;
- "Diz que disse";
- Saidas à noite tardias e repetidas, que nem uma rotina.
6 coisas que eu gosto?
- Escrita / Literatura;
- Cinema/ teatro;
- Estar com os amigos numa boa conversa;
- Sentir que estou sempre presente quando os amigos precisam;
- Estar na cama enquanto chove lá fora;
- Café.
6 coisas que eu não gosto?
- Violência;
- Injustiça;
- Falsidade;
- Mentira;
- Desinteresse;
- Presunção.
6 coisas que me fazem sorrir?
- Conversas sem nexo;
- Um carinho sincero;
- Uma atenção desinteressada de um amigo;
- Uma piada inteligente;
- Crianças;
- Um gesto de boa vontade.
6 coisas que me entristecem?
- A ingratidão;
- O desinteresse;
- O abandono de crianças, idosos e animais;
- A tristeza dos amigos;
- A perda de alguém;
- A saudade.
6 coisas que me definem?
- Amiga;
- Teimosa;
- Sempre disposta a aprender;
- Confiante em mim (às vezes)
- Baixa auto-estima (outras vezes);
- Confidente.
6 blogs que desafio?
Como considero que desafios destes ajudam a conhecer as pessoas, decidi passar este desafio aos amigos recentes por aqui, uns mais que outros é verdade, mas quem gosto de visitar.
- A Capela - Um sitio onde se fala de religião... e de muito mais.
- Branco Escuro - Um sitio de uma simplicidade e sinceridade fantástica.
- Contemplar - As portas abertas da casa de uma Amiga de verdade.
- Fluxos Magnéticos - Um blog que ainda estou a descobrir e a gostar
- Oásis - Apesar de ser um blog (muito) recente, gosto de passar por lá, adivinho que se passarei lá grandes momentos
- Procurar-se - Os desabafos e a abertura aos outros de alguém que se procura
- Simplesmente Morim - Amores e desamores, Diário de uma Aborrecente ;)
quinta-feira, outubro 02, 2008
Quem Lê...

domingo, setembro 28, 2008
Queria ser escolhido...
Vivo nesta casa há 11 anos, no total dos meus 12. Tenho os colegas, as pessoas que cuidam de mim, a minha escola, mas... Falta-me algumas coisas. Queria um quarto só meu com coisas compradas para mim... Queria alguém se preocupasse realmente comigo, com as minhas notas e que parasse com a sua labuta só para me ouvir contar o que se passou no meu dia. Queria uma festa de anos, com bolo e presentes, com amigos, e quem sabe até com um palhaço? Queria poder jantar à mesa onde se contavam as novidades, historias e ensinamentos. Queria que me ajudassem a fazer os trabalhos da escola, que me ensinassem a andar de bicicleta, a construir pequenas coisas e a jogar à bola... Queria aprender o significado de preocupação, e de carinho. Queria saber o significado da palavra família, e o poder de um abraço. Queria tanto uma historia contada ao deitar, um abraço e um beijo de boa noite...
Sonho acordado com tudo isto, vejo-me a correr, a brincar e a sorrir num jardim grande de um casa bonita. Cada vez que vejo um casal a entrar pela porta penso: "Olá, estou aqui e sou um bom menino. Não me querem conhecer?" Mas depois sou puxado para a realidade... Há 11 anos que espero, que sonho, mas os dias vão passando, as pessoas vão entrando e saindo e ouço continuamente aquele sussurro: "Ele não, que é grande demais, queremos uma criança pequenina..." Esta frase já não me faz chorar como me fez, das primeiras vezes... Aceito-a agora com normalidade. Vou ficando aqui até que um dia decidam o meu futuro.
CA
quinta-feira, setembro 25, 2008
É este o país que temos!
segunda-feira, setembro 22, 2008
Promessas de Solidão...
Sempre confiei em Deus, e no homem que Ele colocou ao meu lado. Era um homem bom, um homem que me amava como sabia amar, que me protegia e que eu amava no mais fundo do meu íntimo. Foi mais que um homem para mim, foi um companheiro de caminhada, de luta, de vida. O tempo foi passando, ano após ano. Os filhos apareceram, foram crescendo, saíram de casa e foi aí que ficámos os dois, um sendo a companhia e o apoio do outro, como sempre fomos a vida inteira. Um dia, a doença chegou e levou-o para longe de mim. Veio a solidão...
Passaram alguns anos, anos bastante dolorosos e sofridos. Tive que aprender a viver, aprender a superar a dor e ausência. Mas como mulher forte que sempre fui, mulher que do campo que sabe que tem que arregaçar as mangas e trabalhar, lutar pelo seu sustento, não podia parar. Continuei a dedicar-me as hortas, ao jardim, aos animais, e dando agora alguma atenção também às colheitas que antes faziam parte das tarefas dele. Apesar de sentir o peço da idade sabia que tinha as minhas obrigações e assim, dia após dia, ano a pós ano, continuava a lavoura do dia-a-dia.
Numa manha bem chuvosa de Outono, depois da colheita das uvas, os meus três filhos, aqueles que mudei as fraldas, aqueles que mimei e sustentei, chegaram-se a mim, e acharam que tinha chegado a minha hora de descansar. Tentei resistir a ideia, pedi alguns dias para pensar, embora a minha ideia fosse firme. Mas dia após dia, depois de sugestões e promessas que ecoam ainda dentro de mim, baixei as armas e vim. Fizeram-me a mala e trouxeram-me pela mão para este lugar escolhido por eles, que apenas conheci no dia em que aqui cheguei...
Olho em meu redor e sinto um vazio. As promessas de outrora, as promessas de uma vida descansada e serena com bom ambiente e visitas frequentes, as promessas de uma vida em família, mesmo que não a minha, ficaram por cumprir... Agora tenho apenas estas paredes brancas e vazias de histórias, este espaço amplo mas sem cor que me gela o coração, e estas pessoas que me acompanham mas que nunca deixarão de ser estranhos em mim. Já perdi a esperança de dias melhores, daqueles dias que mesmo que o corpo cedesse, ainda sorria só por sentir aquele cheiro da minha terra, das minhas plantas e do ar fresco, e não o ar condicionado que por aqui se respira.
Entrego-me à tristeza que é mais profunda em mim que a dor, à solidão e as recordações de um passado feliz que são agora a minha única companhia. Sinto o coração a bater descompensado no meu peito, como que ameaçando de parar a qualquer instante, mas que não pára! Outra promessa por cumprir…Fecho os olhos nesta cadeira de baloiço e rezo, enquanto aguardo que essa promessa um dia se torne realidade.
sábado, setembro 20, 2008
Dúvida Existencial
Então é assim, se o Pateta e Pluto são os dois cães, porque é que o Pateta fala e anda em pé, e o Pluto não? Porque é que o Pateta tem dois pés e duas mãos e o Pluto tem 4 patas?

quarta-feira, setembro 17, 2008
Faustoólicas #1
preciso de falar fausto, preciso de falar com fausto, preciso de falar,
um dia destes, um dia destes novamente, enquanto durante portanto pois depois, essa pressão na cabeça (os nervos), essa de preciso de te falar, essa pressão na preciso de te falar, (os nervos), essa de ensaiar o que te vou falar, porque preciso de falar, um destes preciso novamente, portanto com os nervos,
sabes fausto falar? sabes falar com fausto? sabes que fausto é um preciso de falar? sabes que dantes julgava dante mas agora já não? sabes que agora já não penso assim (são os nervos, são os nervos).
um dia destes, porque por enquanto, novamente, porque por enquanto, apenas por aqui, neste expressionismo minimalista, neste expressionismo mínima...
não me apetece falar mais."
Rafael Dionísio*, in Cadernos de Fausto.
* João Rafael Dionísio foi o meu professor de Escrita Criativa nos Ateliers que fiz. Cadernos de Fausto é já o seu sexto lívro editado.
sábado, setembro 13, 2008
Amigo...

Um Amigo é um cúmplice no olhar, que te reconhece nos olhos os sentimentos, as alegrias e as preocupações. Amigo é quem te seca as lágrimas e quem alimenta o teu sorriso.
Amigo é um irmão que te acompanha pela vida, aplaude da primeira fila em tempos de vitórias e ajuda a levantar sempre que caímos, não importa quantas vezes serão.
Amigo é alguém com quem te ris, brincas, falas, mas com quem também choras e contas o que tens medo de dizer em voz alta. Amigo é o que te escuta com atenção como se não existisse mundo lá fora.
Um Amigo aconselha e diz que "não" quando assim tem que ser, mas que está ao nosso lado quando tomamos uma decisão, mesmo que não seja acertada.
Amigo é aquele que dá sem esperar contrapartida, porque sabe que a partilha é o retorno.
Amigo é aquele que o tempo não apaga, que a distância não esquece e que a maldade não destrói.
Amigo é ternura, carinho, respeito, uma festa na cara e um beijo na testa. Amigo é aquele que diz que és importante na sua vida, e te mostra o quão gosta de ti. Amigo é um tesouro único que nos reconhece num sorriso e que nos protege na profundidade de um abraço enquanto nos fala em silêncio.
quinta-feira, setembro 11, 2008
Obrigada...
O desafio foi um sucesso? Sem dúvida. As estórias de vários formatos, tamanhos, linguagens e até em linguas diferentes, são todas excelentes. Demonstrou-se aqui que há muita gente a escrever bem.
Ni, Patrícia, Fa Menor, Belisa, Su, zeroz, Joaquim, John, Sofia, Marta, Metódica, Sónia Pessoa, Sara Cabral, bono_poetry, Maça com Canela, Cris, Malu, Obrigada por terem respondido tão bem ao desafio proposto. Proporcionaram ao Ticho passar por um momento muito interessante. Sem vós nada disto tinha sido possível.
É um orgulho e uma honra ter-vos por cá.
quarta-feira, setembro 10, 2008
Uma Estória (17)

No colégio interno...
De tão ocupada que andava com os três assuntos tão importantes, e que digamos a verdade, ocupavam-lhe o dia-a-dia, não sobrava tempo para outras actividades, como ir a escola nem tão pouco estudar... Que coisa mais normal e sem graça para se fazer nas tardes de inverno enquanto chovia e só apetecia estar no calor de um centro comercial, ou nas tardes de primavera, que só apetecia andar por aí com os amigos e com os... mais que amigos!
Os pais da Margarida, ambos com uma carreira para construir e pela qual lutar, não tinham muito tempo para se preocupar com essas andanças. Se ela queria comprar roupa que comprasse, era porque precisava e não podia fazer má figura; se queria sair, fazia-lhe bem, também precisava de distrair, e estava na idade para isso! Uma coisa não admitiam: é que a filha não fosse um modelo em tudo, desde roupas, a amigos, namorados e em notas! Sim, porque filha de dois profissionais como eles, não podia ser menos do que uma futura excelente profissional!
Mas a verdade é que parecia que o mundo estava mesmo feito para os contrariar, e no final de um ano, semelhante a tantos outros, lá chegaram as más notícias: a Margarida tinha chumbado! Como era possível?! O mundo parou, não haviam negócios, nem reuniões que fossem mais importantes que a fachada que era necessária manter... Após varias discussões, após culpas atiradas como bola de ping-pong entre pai e mãe, e entre pais e filha, era hora de tomar uma decisão radical e definitiva para aquela situação: colégio interno! Estava decidido e não havia volta a dar...
Passou-se o Verão e no final havia já um destino traçado e uma viagem marcada. Quando chegou tudo parecia cinzento demais para ser real. Uma coisa ela podia ter a certeza: seria a mais chique de todos eles e o lugar de rainha no baile de primavera seria seu! Isso, se houvesse baile, claro... As semanas foram passando e estava a ser tudo muito pior do que ela podia sequer imaginar: os horários, as regras, as aulas sequíssimas, os horários para estudar (como é que podia haver tanta coisa para estudar?!), e o pior que tudo, não havia a mínima distracção do seu agrado, nada que não envolvesse jogos físicos, ou aborrecidos jogos de estratégia; rezar, ou ler na biblioteca, e por aí adiante. Mas como era possível que alguém vivesse contente assim?!
Num dos dias que decidiu ceder à biblioteca encontrou algo que não esperava, um grupo de jovens que, de alguma forma, se destacava de todos os outros que permaneciam naquele espaço... Parecia até que escondiam alguma coisa! Mas ali, o que poderia ser? Era um grupo constituído por uma rapariga e três rapazes, e o seu aspecto era também diferente dos outros "cromos" que por ali andavam, tinham um ar mais... saudável! Aquela ideia fascinou-a, era a primeira vez que via algo que lhe prendia a atenção e que até lembrava outros tempos. Estes mistérios eram o que mais se assemelhava a algo proibido por ali. Tinha que arranjar uma forma de se aproximar, de descobrir... e se possível, integrar-se! Não sabia o que se passava, mas fosse o que fosse, ela estava determinada.
Durante uma semana as visitas à biblioteca eram regulares, e por coincidência (ou talvez não) à mesma hora que o tal grupo estava também por lá. Seguia com o olhar cada elemento daquele grupo e os seus gestos. Aparentemente só estudavam, mas investigavam livros que ela nunca tinha ouvido falar, e o olhar... aqueles olhares cúmplices não eram normais, não eram simples olhares de quem estuda historia ou matemática... Havia algo ali, isso ela tinha cada vez mais a certeza.
Um dia há hora de almoço (num colégio, tudo se passa à hora de almoço, não é?), enquanto a Margarida andava supostamente à procura de um lugar vazio numa das mesas daquele refeitório imenso e poderoso, veio "acidentalmente" parar à mesa do tal grupo. Pediu para se sentar. Pararam os quatro a olhar para ela, mas depois, e mudando o assunto, acenaram que sim. Durante todo o tempo da refeição, não houve mais do que a troca de uma ou duas palavras, de resto era quase como falar... do tempo.
Margarida sabia que tinha que ter cuidado nas investidas, e que tinha que ter paciência, aprendeu isso com muitas das conquistas "do tal" rapaz (mas que ia mudando todos os meses). Durante quase uma semana era assim, todas as refeições vinha para a mesa deles, e já nem era preciso pedir licença e eles já começavam a não disfarçar o “tal” assunto. Um dia, e sem ela estar a espera deixaram-lhe um recado no tabuleiro do refeitório: "Às 17 horas na biblioteca, na mesa do canto." Sentiu uma excitação a percorrer-lhe as veias, afinal estava certa, afinal havia mesmo alguma coisa!
À hora marcada lá estava ela, como combinado. Passaram 15 minutos e ninguém aparecia. Será que estavam a gozar com ela?! Decidiu esperar. Passou uma hora, e continuava sozinha. Como é que ela foi enganada assim tão facilmente? Apetecia-lhe insultar-se, como tinha sido ingénua! Saiu da biblioteca a mil à hora apetecendo-lhe levar tudo e todos à frente, que nem o Katrina.
“Espantoso!”, ouviu a trás de si, “Uma hora… nada mau!”. Virou-se com ar furioso, e lá viu os quatro a gozarem da sua cara. Aproximou-se deles em fúria… “Calma, era só para testar a tua paciência, e saber até que ponto é que querias integrar-te no grupo”, disse a única rapariga. Anda connosco… Margarida ficou surpresa, mas achou que até fazia algum sentido… Seguiu-os em silêncio. Percorreram alguns corredores por onde ela nunca tinha andado, e depois de tanto virar à direita e à esquerda, sentia-se completamente perdida. Finalmente pararam à frente de uma porta, abriram-na e entraram sem acender uma única luz. Fecharam a porta, e por momentos teve algum medo, aquele breu de um sítio que não conhecia não a deixava confortável. De repente acenderam três pequenas velas num castiçal, tipo século XVIII. Tentou ambientar-se àquela luz e tentar analisar o espaço… Era uma sala, com as dimensões de um escritório, com estantes até ao tecto em duas paredes, e com as outras duas livres de qualquer objecto. No meio, uma simples mesa com cinco cadeiras em volta (Cinco?!).
Levaram o castiçal para o meio da mesa, e um dos rapazes, o que parecia que tinha mais influência embora fosse o mais pequeno, levantou-se e foi buscar um livro. Colocou-o sobre a mesa, mas ainda tão distante dela que nem lhe conseguia reconhecer a cor. “Já ouviste falar no oculto? Em magia? Em feitiçaria? Aqui é o assunto… Se quiseres saber um pouco mais, ficas, senão sais e esqueces que alguma vez estiveste neste sítio.”
Os seus olhos estavam ainda a tentar ambientar-se ao espaço, e tentar perceber o que se estava a falar ali… Mas não deu asas a dúvidas e acenou logo com a cabeça, dando sinal que queria continuar. Começaram então a explicar-lhe que investigam velhos livros que tinham trazido da biblioteca sobre feitiçaria, e que têm aprendido alguns feitiços desde então. A Margarida não acreditava no que acabava de ouvir. Aprender feitiços? A partir de livros antigos e poeirentos?! Nada como ver para crer, pensou ela… No seu íntimo achava que os outros tinham era andado a ler, durante demasiadas horas, os livros de um tal Harry Potter que, das estórias, só conhecia de ouvir falar… Havia também essa mania entre os colegas da antiga escola, mas ela nunca tinha “perdido tempo com isso”… Será que agora estava no meio de uma dessas estórias? Pagava para ver no que ia dar…
Percebendo o que ela pensava, o Duarte, o tal rapaz que deveria ser o chefe do grupo, fez um pequeno gesto, seguidos de umas palavras, e o livro pousado sobre a mesa abriu-se sem que ele lhe tocasse! Ela não queria acreditar no que via… Será que tinha sido mesmo assim?!, perguntava-se em silêncio. Apercebendo-se das dúvidas, ele virou-se para uma estante, fez outro gesto, outros dizeres e… lá veio um livro a voar da prateleira! Ok… para ela isso chegava! Depois de rendida a ideia, teve que fazer um juramento que não iria contar nada do que visse ou do que se passasse ali, e que nunca iria usar para maus fins nada do que aprendesse ali … Posto isto, fecharam os livros, apagaram as velas e saíram em silêncio.
Naquela noite ela não conseguiu dormir, a tentar perceber o que se tinha passado e tomar consciência do que iria aprender nos próximos tempo. Será que também ia conseguir fazer coisas como o Duarte, o tal rapaz?
Foram-se passando várias semanas, as aulas iam correndo, sequíssimas como sempre. Margarida estava a adaptar-se aos poucos ao sistema, aos colegas, aos novos professores … Menos a francês! A professora de francês era uma senhora tão velha que ela desconfiava que já tinha mais que 100 anos, e até conseguia ser mais insuportável que a antiga directora da antiga escola que todos os dias lhe dava lições de moral… ou pior, mais chata que mil directoras da antiga escola, coisa que ela antes pensava impossível. Agora eram os trabalhos diários com mais de 50 páginas, as leituras de textos que tinham tamanho de autênticos romances, a pronúncia (que raio de pronúncia!), aqueles R’s ditos como quem diz: o rato roeu a rolha da garrafa de rum do rei da Rússia, e os verbos (quantos eram? Mil e trezentos? No mínimo!) [2].
Depois das aulas e de todas as actividades, a Margarida e os seus mais recentes quatro amigos, reuniam-se na tal sala, para a qual ela aprendeu o caminho, e onde estudavam vários truques, vários dizeres… Quase todos os dias, depois do estudo na sala, passavam pela biblioteca para tentarem encontrar respostas às dúvidas que iam surgindo nas várias secções… A Margarida estava claramente em desvantagem por estar a começar muito depois dos outros, eram os termos, os gestos, os significados... Sabia que se queria aprender, então tinha que estudar mais…
Estudou tanto que acabou por aprender mais depressa, e chegou até a descobrir alguns truques diferentes e a ensiná-los aos outros. Com o tempo, estava a ser até cada vez mais ousada no que estudava, e ia até tentando inventar pequenas coisas, acrescentar alguns pormenores… Como tudo na vida, é preciso prática, e essa ela estava a ganhá-la de dia para dia.
Ao fim de semana, alguns alunos iam para casa (a maioria!), mas a Margarida não, com quem passaria os fins-de-semana se os pais não largavam o trabalho? Ficava pela escola e ia investigando um pouco mais, e aperfeiçoando os seus truques (sim, porque já podia dizer que tinha os seus truques!).
Num desses fins-de-semana, ao dirigir-se para a pequena sala, cruzou-se com… podia ser o diabo, mas não, era mesmo “só” a professora de francês. Esta inquiriu-a sobre o que andava a fazer por ali, e se não devia estar a estudar um pouco mais de francês para melhorar a vergonha que era a sua leitura e a sua pronúncia…! Ela, respondeu algo à toa, querendo apenas livrar-se da mulher… “Ai se pudesse…”, pensava ela, não querendo sequer terminar o pensamento. Seguiu caminho entre corredores e portas. Entrou na sala já conhecida, acendeu as velas do castiçal, e sentou-se à mesa com o livro que tinha ali deixado no dia anterior…
De repente ouviu um barulho atrás de si e olhou rapidamente nessa direcção, era a bruxa, quer dizer, a professora de francês! Incrédula com o que via naquela sala, a velha professora, começou a tentar perceber o que se passava naquele espaço, mas sem deixar espaço para respostas, ou melhor, para desculpas, começou logo a partir para a discussão… Margarida estava com uma vontade imensa de lhe dizer umas quantas também, mas tentava controlar-se ao máximo. No fim, a professora, disse que ia fazer queixa ao director e que ia pedir para a suspender para ver se se deixava de coisas, de rebeldias. Nesse momento Margarida já não se importava muito com nada. Vendo que não estava a conseguir o que queria, a professora, continuava a sua ladainha sem parar… Aborrecida (e não de aborrecente agora) com tanta conversa, só queria fazer com que a velha senhora se calasse, mas não lhe parecia possível que isso acontecesse nos próximos 20 anos (no mínimo!). Fez um gesto, uns dizeres e transformou a professora num sapo! [3] “Será que assim já se cala?” pensava para com ela, com ar aborrecido… Sabia que não o devia ter feito, mas olhar para aquele sapo indefeso e pensar que era a pessoa que a andava a fazer a vida negra, tornou-se uma satisfação maior…
Voltando à consciência, e pensando no juramento que tinha feito no primeiro dia, pegou no sapo, levou-o até ao jardim e dizendo outras palavras fez com que o sapo voltasse à sua forma humana, mas garantindo que não se iria lembrar de nada do que ali se tinha passado. Mas… na verdade aproveitou e fez um pequeno feitiço de “simpatia”, só para que aquela mulher, com tanta idade mas com tão pouca sabedoria, aprendia que os alunos também mereciam um pouco de respeito, e que um sorriso por vezes não faz mal a ninguém.
Por Cátia do Ticho
[1] – aborrecente que, como explicado noutra estória, é um estado da nossa vida, pela qual todos passamos em fase de crescimento e em que nos tornamos aborrecentes...
terça-feira, setembro 09, 2008
Uma Estória (16 - parte 3)

(Conticho continuação...)
– Mas o que se passa aqui? – Perguntaram Miguel e Márcia ao mesmo tempo – sente-se bem Mrs. Some?
– O que se passa, é que por um pouco Anjúlia não virou sapo como Brid. Conheço todas as poções que esta bruxa usa e ao contrário do que disse, são eficazes porque sou eu quem primeiramente os pesquisa – explica ¬ e ela somente os prepara e por vezes junta-lhes outros ingredientes, que também eu conheço já suficientemente bem. Não havia portanto qualquer razão para adiar a administração do antídoto, percebem?
– E então por que não o fez ela? – Atónitos inquiriam todos.
– Penso que para forçar Anjúlia a assinar um contrato com ela que há muito deseja, ameaçando deixar Brid neste estado para sempre. E continuou:
– Assim, daria o antídoto a ti Anjúlia, na condição de o cumprires pelo tempo que determinasse, e, caso e ainda assim o recusasses, obrigar-to-ia a fazê-lo, administrando-te o amarelo que acabou de tomar. Pelo que sei, só existe esse mesmo que vemos ainda no cristal e nem eu mesma estudei ainda a sua composição, pois, não houve tempo para eu ler algo que o mencionasse e portanto sabe-me sem quaisquer indícios sobre o mesmo.
– De facto, tenho vindo a receber correspondência dela nesse sentido – confirmou a actriz – sem que no entanto lhe tenha respondido uma só vez.
– Aí está! – Continua Mrs. Some – O que para ela é uma afronta e já que quer o mundo inteiro rendido as seus pés. Isto está a tomar já contornos demasiado sérios, sem limites e se não, vejam:
– Depressa conquistou o mundo infantil, e, logo de seguida e algo pressionados por estes, os pais, – de todas as áreas profissionais, raças, religiões, etnias. O mundo está a mudar e cada vez mais lhe pertence. Ela reina e só vai parar quando a tiverem como única senhora e deusa. Os seus livros já são utilizados em escolas, cujo estudo e trabalhos dos alunos, contam para nota. Entretanto, proliferam as de bruxaria que, como sabemos, é uma religião que vai tendo cada vez mais seguidores Já não se trata apenas de dinheiro, mas de poder – rainha das trevas – vejam: única! E porque até aqui só conhecemos o Mal, ao qual não se associa companheira alguma. Ainda…– acrescentou.
Arrepiados, apertaram-se em grupo escutando-a atentamente.
– Em várias entrevistas que esta mulher concedeu, ela afirma-se adoradora da besta e reparem que cada vez mais a Bíblia é retirada do ensino, dos hotéis, instituições, enquanto brotam novas filosofias ideologias e se adere cada vez em maior número, ao ioga, magia e seitas sem fim.
– Mrs. Some! – Surge finalmente a voz de Joana que se mantivera em silêncio todo este tempo – Há então algo que não me faz sentido, a ver com o seu discurso anterior, lá em casa. Convencia-me de que nestas aventuras prevalecia o Bem e agora revela-nos outra teoria. Explique-se, por favor – pediu-lhe.
– Sim, com efeito, contradigo-me. Quis apenas testar os seus conhecimentos cristãos e convicções religiosas, peço desculpa, uma vez que no seu estúdio, reparei que praticamente todos os seus quadros retratam personagens e cenas bíblicas.
A maior parte dos leitores e público destas aventuras, inadvertidamente são induzidos a acreditar que de facto se luta pelo Bem e que este vence, mas o que acontece e não passa despercebido a quem os lê e vê para estudo aprofundado, é que se arquitecta, e linha a linha, um culto oposto que assim vai construindo o templo do mal. Só com algum conhecimento se verifica que a escrita está repleta de símbolos contrários aos dos cristãos, de significados antagónicos subtilmente escondidos nas entrelinhas, aos mais incautos, podendo afirmar que de facto se trata da religião que a autora e seus fãs, na realidade, professam.
Quis portanto trazê-la, Joana. E tomei a liberdade de pegar emprestada a sua Bíblia, logo que a descobri na estante em frente à sua mesa de trabalho. Tenho-a aqui mesmo comigo. – Voltou-se e tirou-a de uma pequena maleta, acrescentando: Vai-nos ser preciosa, verá.
– Então apressemo-nos a administrar o medicamento em Brid, por favor, para sairmos logo daqui – lembrou Anjúlia.
– Sim, chamemos-lhe assim – apressou-se Mrs. Some prestando-se a isso.
O grupo uniu-se no mais profundo silêncio, sem se ousar o mínimo gesto, com toda a atenção posta no trabalho da incansável senhora.
Estava feito. Aguardava-se o tempo que levaria a causar a acção desejada. Até agora nada. Os segundos compreendiam horas, os minutos pesavam dias e aquela meia-hora vivida, sem nada suceder, contava um interminável suplício, só comparável a um discurso do Só-Grades…
– Meu Deus, o que fazemos? – Irrompeu Anjúlia num pranto.
Nesse momento, o sapo mudou de posição. Agitou-se, parecendo que preparava um salto, mas não. Olhava-os, serena e simplesmente, mas já era alguma reacção.
– Não será, Mrs Daky? – Perguntou Márcia.
– Pode ser, esperemos que sim – confiou.
Nisto, Joana levanta-se e apressadamente tira as luvas, desembaraça-se das ligaduras e corre para a mesa onde encontra a pastilha branca ali esquecida. Pega e toma-a de seguida com um gole de chá.
– Nãaaaaaaaao! – Gritam-lhe – mas já tarde.
Temos dois sapos, - terão pensado, – enquanto os olhavam estupefactos e tal a rapidez do imprevisto.
– Joana-sapo não adormeceu como Brid, nem precisou de um gesto que lhe provocasse a transformação imediata – observara Márcia.
– Tem razão – respondeu Mrs. Some – mas vejamos que esta não era mais uma das minhas pastilhas; fora já trabalhada e trazida pela bruxa (que elas as há) na caixa de cristal, destinada a Anjúlia.
– Certo! – Concordaram todos.
Márcia mantinha-se atenta aos bichinhos e ajudava Joana a subir para o sofá onde Brid se encontrava ainda e foi quando assistiram ao inconcebível: Aproximaram-se, parecendo que se reconheciam. Então ela ergue-se nas patinhas traseiras, toca uma das dele, a mesma que a levantara do chão quando se ferira. Por fim, e instantaneamente, juntam-se ao grupo, em pessoas – de carne e osso. Deu lá para se perceber como!?
– Incrível! – Gritam contentes, de alívio, felizes! Abraçam-se, sorriem, choram, pulam e dançam. Dura isto ainda algum tempo e até concordarem que era hora de partir, quando, do outro lado da sala, ouve-se uma espécie de uivo. Apanhados de surpresa, voltam-se para trás e aterrados, dão com a dona da casa contorcendo-se na cadeira, de olhos esbugalhados, proferindo intermináveis rosnares, furibundos, horrendos e de se fugir.
– Vamos, que esta não é de se fiar e ainda nos engole vivos!
– Sim – concordam. Agarram nas suas coisas e procuram a saída. Atravessam a segunda sala, depois o corredor e só então notam que Mrs. Some não os acompanhava mais. Esperam então um pouco por ela. Afinal, a idade nestas coisas conta e ela devia estar muito cansada.
Ansiosos por se verem longe dali, dão-lhe no entanto algum tempo mais. Depois ficam preocupados e Miguel oferece-se para voltar atrás a dar-lhe uma mão.
– Por favor despachem-se então, não te percas e tem cuidado contigo. – Diz-lhe Márcia dando-lhe uma palmadita de apoio nas costas.
Vêem-no virar o corredor à esquerda e suspiram a cada minuto, com os olhos postos nesse ponto da casa, esperando ouvir-lhes os passos de volta, mas, de súbito assustam-se, dando com ele a aparecer numa corrida desenfreada, pálido e quase sem fôlego.
– Ai valha-nos Deus, que foi agora? – Custa-lhe falar precisa recobrar e por fim, cambaleante, Miguel consegue titubear:
– Nunca vi nada assim. A outra mulher está louca e embora meia paralisada ainda, retém Mrs. Daky num estado de hipnose, transe, sei lá o que é, que não reage, não me obedece, e não me seguiu. Consegui trazer-lhe as coisas, mas ela está que nem uma estátua de mármore, de sal, ou múmia paralítica; não soube o que fazer e temi ficar ali que a outra vira bicho com certeza, não sei do quê! – Desabafou.
– Liiivra! E agora? – Márcia inquiria os outros.
– Preciso de água, por favor… – Miguel suava frio.
– Aqui ninguém mais bebe água, coisíssima nenhuma, né? – Ordenou Brid.
– Sim, claro – concordaram. Subitamente Joana lembra-se da maleta de Mrs Daky e começa a remexê-la até encontrar e tirar de lá a sua Bíblia – Não sei para o que, quis trazê-la, mas por certo não a usou. Será que…? Hmmmm… Se quiserem não esperem por mim, vou levar-lha. E corre para lá.
Dá com o quadro que Miguel descrevera minutos atrás e apesar disso, manteve a calma possível.
– Mrs. Some, olhe para mim, ouça, veja. Trouxe-lhe a Bíblia – depositou-a nas suas mãos inertes, mas a senhora não reagia. Então, repentinamente, arranca o fio de ouro que trazia ao pescoço, no qual pendia um crucifixo. Mostrou-lho e agora sim, Mrs. Some moveu-se. Pegou nele e apertou-o fortemente contra o peito e rezou: “Só Vós sois o Santo, só vós o Senhor, Só vós o altíssimo Jesus Cristo! Com o Espírito Santo, na Glória de Deus Pai, ámen”
Apontou-o na direcção da mulher sentada na cadeira e logo esta perdeu os sentidos. A expressão dos olhos e do rosto amenizou. Quase como a de uma criança inocente que adormecia.
– Não temos tempo a perder, Joana. Ajude-me aqui enquanto resolvo uns assuntos no laboratório. Mantenha a Cruz voltada na sua direcção e se costuma rezar, faça-o e procure na Bíblia uns textos que goste. Recite-os ou escolha outros adequados a esta situação. Eu não demoro nada a cancelar toda a produção em curso e a eliminar algumas fórmulas que precisam desaparecer definitivamente do mapa e da base de dados. Levaram séculos a serem compostas mas bastará muito pouco para bani-las do sistema e do planeta para sempre.
Deixou-a por uns momentos que lhe pareceram séculos. Joana tremia um pouco e murmurava:
“S. Miguel Arcanjo, protegei-nos,
sede o nosso refúgio contra as maldades
e as ciladas do demónio.
Deus o submeta,
instantemente o pedimos;
e vós, Príncipe da milícia celeste,
pelo divino poder,
precipitai no inferno a Satanás
e aos outros espíritos malignos
que andam pelo mundo
procurando perder as almas.
Em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo.
Ámen.”
S. Miguel Arcanjo, protegei-nos… (…) Em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo ámen.
S. Miguel Arcanjo, protegei-nos… (…) Em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo ámen.
Foi assim que Mrs. Some a encontrou hora e meia depois. Vinha carregada de documentos, em pastas separadas e outros, poucos, dispostos propositadamente em pilha, ao de cima.
– Estes são uns originais valiosíssimos – mostrou-lhos – a quem lhes der a importância, está claro, e, infelizmente, são muitos e mais que as mães. Pois olhe o que lhes faço. E nisto, rasga um a um, em quatro, e vai atirando-os para a lareira.
Joana observava na atitude de Mrs. Some, um misto de tristeza e de orgulho. Comoveu-se. Fazia-o lenta e quase solenemente. No fim, o seu rosto brilhava em paz.
– É tudo – anunciou – e agora podemos ir.
– Assim? – Perguntou Joana apontando a monstra-adormecida na cadeira.
– Sim, já não demora quem venha tratar dela. Cuidei disso – assegurou – quanto aos nossos amigos, esperam-nos já num hotel aqui perto.
Na manhã seguinte, o grupo separava-se. Despediram-se tomando um fausto pequeno-almoço no terraço inundado por um radioso sol que nem por encomenda de Ball Gites, e os enchia ainda mais de alegria. Mais tarde, B. Patt viu-se obrigado a esclarecer a imprensa, que sim, que tinha aceitado um trabalho em Portugal, dirigido por um dos mais conceituados peritos em efeitos especiais e que não passara disso.
– And that’s all – concluía ele alegremente.
Mrs. Some, é que nem por isso lhes parecia animada. Afinal tinha dedicado largos anos àquela obra que se vira agora obrigada a terminar.
– Não foi fácil conseguir este trabalho, sabem? – Contou-lhes – A autora de Arre Porta era muito exigente e penso que o que me valeu na selecção rigorosa que fez a separar-me e por fim, dos imensos candidatos ao mesmo, bem como em ganhar-lhe a total confiança, foi a dedicação que sempre ponho no que faço. Sou uma boa profissional e para mim, contava como prestar serviço a uma boa causa, uma vez que as crianças nos merecem o melhor. De bom grado me empenhei e envolvi totalmente, convencida de que os meus préstimos, posteriormente, viriam a valer e de alguma forma, à nova geração.
Agora era a frustração, mas depressa – sentiram eles – ela iria inverter a situação e o seu fracasso, em campanha oposta e depressa se empenharia noutra boa causa. E assim foi. Começou a escrever sobre o assunto, deu palestras de evangelização pelo mundo fora e depois do seu terceiro volume, abriu uma creche para crianças desfavorecidas. Depois uma escola, e assim, sempre foram mantendo o contacto com ela. Era feliz.
Joana, colaborando de princípio no seu novo projecto como ilustradora das primeiras brochuras e depois dos livros, firmara com ela uma amizade profunda e mais tarde, concluiu em Londres os seus estudos em Artes. Começava agora a expor os seus trabalhos com algum sucesso e graças às excelentes coberturas dos mesmos, feitas pelos seus amigos e convidados de sempre, os jornalistas Márcia e Miguel que a incentivaram de início. Tinham-na como a uma filha.
– E por falar nisso, não era altura de pensarmos seriamente em termos uma criança? – Miguel sabia que ia surpreendê-la com a pergunta.
– E o que te leva a crer que te tenho pelo meu príncipe encantado? – Ria.
– Ora, porque sei que sempre achaste que tenho cara de sapo. Não basta? Assim, e com sorte, quem sabe se não conseguiremos uma aproximação chegada, ou mesmo a ter um de verdade?
– Maluco! Gosto mesmo é de rãs, ao alho e com uma pitada de pimenta, indispensáveis nas minhas dietas. Estás a insinuar que estou a precisar de uma, é?
– Não. Estou mesmo a pensar em construir uma casa sobre uma poça, sério! Ajudas-me?
Um ano depois, no dia em que lhes nasceu o primeiro filho, admiravam-no embevecidos, contentíssimos da vida.
– É lindo, não é?
– Mais, seria impossível. – Respondeu a mãe – É tão parecido contigo!
– Então sempre temos um sapo, eu não to prometi?
Márcia mudou de expressão e com um tom sério na voz, disse-lhe:
– Miguel, agora que tudo isso acabou e depois da notícia sobre a trágica morte dessa senhora, não falemos mais sobre o assunto.
– Tens razão, nem a brincar – concordou – mas não posso esquecer que foi graças a ela que te conheci e temos agora este anjinho.
– É verdade. E que temos Joana, fizemos excelentes amizades e que muitas crianças hoje, são mais felizes. Muitas outras ainda virão a ser e tanto quanto o queremos para o nosso filhito.
– Outra coisa Márcia, já pensaste…?
– O quê? – Ficou curiosa.
– Não gravámos… nada do que vimos acontecer…
– Ainda bem.
– Teríamos ficado ricos…
Zangada de verdade, Márcia quase lhe gritou:
– Miguel, Não encontrarás nunca maior riqueza que na obra de Mrs. Some e no bebé que vês aqui! Estás a ter um ataque de ansiedade pela responsabilidade recente de teres agora um filho e por isso te ordeno que vás imediatamente para debaixo do chuveiro para logo de seguida ires beber uma cerveja com os amigos, vá!
Obedeceu-lhe rindo. Gostava muito dela e mesmo quando arreliada. Porém, em vez de sair, sentou-se à secretária e abriu pela primeira vez um livro em branco que esperara por este dia, no qual começou a escrever. Passada uma meia-hora, concluía: “ E este, meu querido filho, é o primeiro conselho que te dou, ditado há pouco pela tua mãe que nos ama muito. Vamos por isso ouvi-la sempre, está bem? Eu prometo e como prova, assino com o meu nome e mais tarde, quando tu souberes ler, escreverás o teu abaixo do meu, está bem?”
Guardou o livro dentro de uma das gavetas da secretária, levantou-se e foi espreitar o quarto de Márcia. Mãe e filho dormiam como anjos. Deu graças a Deus e ficou de vigia, sentado no pequeno sofá da sala ao lado, lendo pela segunda vez a mensagem de parabéns que Mrs. Some lhes havia enviado há poucas horas, na qual adiantava algo sobre o seu trabalho:
“Baseando-me nos gestos altruístas de Joana que como eu conhecem, e na sua imensa bondade, conto usar na minha próxima palestra, a inspiração de alguns santos, em frases como esta que tão sabiamente, S. Gregório diz: “A humildade é uma descida rumo às alturas do Amor.”
Que acham? Joana, Anjúlia e Brid vão estar presentes. E quanto a vocês, meus amigos, as maiores felicidades e não se esqueçam que na vida nova que como pais, agora começam, esta vossa amiga, em nome de todas as minhas crianças, promete-vos e diz: “Estou Conticho!” – Para tudo e sempre! Em Cristo e Maria,
Some-Daky”
Por Malu de A Capela



