quinta-feira, novembro 20, 2008

Jantar dos Sem Abrigo - Formação e Campanha 2008

Falei aqui há duas semanas sobre a possibilidade de ir participar no Jantar de Natal dos Sem Abrigo de Lisboa. Pois é, inscrevi-me a mim, à minha mãe, puxei pela Catarina, que puxou por outra amiga, que está a tentar inscrever outra amiga. Na terça-feira (depois de ir buscar o meu popo novo), lá nos encontramos as 5 à hora combinada. Depois de percorrer a cidade universitária toda (que para mim mais pareceu que percorremos a cidade de Lx toda) com um frio tremendo (e quem me conhece sabe que casacos não é comigo), lá chegamos. E logo recebemos a informação: as inscrições estão fechadas e esgotadas!

Entrámos e a sala cheia. Sentámo-nos e começámos a ouvir os números: inscrições de voluntários deste ano: 1000; convidados do ano passado: 2680. O meu primeiro pensamento foi: tantas pessoas que moram nas ruas da cidade e nem damos conta... Passaram então a explicar que iam haver 20 áreas de trabalho, embora algumas não estejam a recrutar voluntários, tal é a sua especificidade.

Para além de ser "apenas" um jantar de Natal, que dura 3 dias, tem uma missão muito mais alargada que nem sempre é mencionada: Tentativa de retirar pessoas da rua. Existem 2 áreas fundamentais na festa: "Espaço aberto ao diálogo" e "Motivação" que pretendem dialogar, dar a conhecer a Comunidade Vida e Paz e tentar de alguma forma dar um primeiro passo para o encaminhamento para ingressarem no caminho da saida da rua. Do ano passado 163 estiveram no Espaço aberto ao diálogo e 18 fizeram o caminho. Como disseram e fizeram passar a mensagem: "Mesmo que fosse apenas 1 já teria valido a pena!".

Entretanto deram-nos a conhecer a Campanha deste ano que está em curso mas que, ao contrário do ano passado, não está a ser convenientemente divulgada pelos média.

Este Natal não olhe só para o exterior... Pequenas Peças, Fazem Grandes Diferenças!
Campanha de Angariação de Roupa Interior para os Sem Abrigo de Lisboa
Comunidade Vida e Paz

Este Natal não olhe só para o exterior... Pequenas Peças, Fazem Grandes Diferenças!Objectivo – angariar 10.000 peças de roupa interior novas - meias e cuecas - até dia 19 de Dezembro!

Para quem estiver interessado em aquecer os dias e as noites... A Roupa Interior - cuecas e meias - deverão ser entregues ou enviadas para:

Campanha – Pequenas Peças, Fazem Grandes Diferenças, Comunidade Vida e Paz
Rua Domingos Bom tempo, nº 7
1700 – 142 Lisboa


Fico a contar com a vossa participação... E nos dias 19, 20 e 21... lá estaremos nós a ajudar!!

quarta-feira, novembro 19, 2008

Desejo de felicidade...

Hoje venho escrever umas palavras para uma amiga, uma amiga do Ticho há mais de 1 ano e meio (não consegui descobrir o primeiro comentário, nem como nos encontrámos neste mundo, mas o primeiro comentario que descobri aqui data 4 de Abril 2007).

Estivemos presentes em momentos bons e menos bons (e existiram alguns, não foi?). Se calhar nunca estive tão presente nem tão próximo como poderia estar, é verdade... Mas é também verdade é que nos vamos acompanhando de forma mais ou menos constante.

Esta amiga está a passar agora momentos de grande felicidade, e dei por mim a ficar feliz, muito feliz com a sua felicidade... Isto não é amizade? A data estava marcada, lembrei-me alguns dias antes, no dia e alguns dias depois, tentando ter notícias. As notícias chegaram e sente-se agora, em cada palavra, uma felicidade que tranparece.

Sei que estamos presentes de forma apenas virtual, mas como costumo dizer, existe alguém bem real do outro lado do ecran, alguem com sentimentos e emoções e que é tocada por tudo o que lhe oferecem, mesmo apenas através de palavras... Torço por ti querida, desejo-te, de forma muito sincera, as maiores felicidades do mundo, e que depois de algumas curvas, vás agora directo à felicidade. Nem tudo são rosas, existirão também alguns momentos menos agradáveis, mas que tudo seja tido como uma forma de crescer.

Estas são apenas mais algumas palavras, uma carta aberta aqui no meu sitio. Eram para ter vindo para aqui há um mês atrás, mas não vieram, talvez porque achasse que não chegariam a ti, nessa altura... Mas hoje termino com algo que acho que nunca te disse, mas é sincero: Gosto muito de ti.

terça-feira, novembro 18, 2008

Já sou crescida...

Quando sabemos que estamos crescidos? Quando começamos a votar? Quando acabamos um curso e começamos a trabalhar? Pois bem, as ultimas semanas têm sido uma loucura de uma até saborosa... Agora sinto-me que estou a ficar crescida (ok, não me refiro ao tamanho...) em responsabilidade... Sinto-me crescida e tenho "forçado" a que os outros me vejam assim...

Comprei um carro novo, um carro meu, que tenho a obrigação de pagar nos próximos anos. Fui eu que tratei de tudo sozinha, desde a visita aos stands, escolha do carro, do modelo, test drive, pedidos de simulação de financiamento, negociação do financiamento, pedido de simulações de seguros, negociação (ok, aqui tive ajuda da minha mediadora...), etc. E... daqui a umas horas vou busca-lo.




Vamos dar uma volta?

sábado, novembro 15, 2008

Parabéns...



Hoje queria dizer-te mil palavras, felicitações que tantos já te disseram... Hoje deixo uma música que já assistimos juntas e ao vivo... Uma musica especial que gostas e que te toca...

Ao som desta música digo que gosto muito de ti, daquela mulher louca e uma menina doce que aprendi a conhecer e a gostar... muito! Parabéns Plim!

quinta-feira, novembro 13, 2008

Coração precioso...

Todos na rua conheciam a D. Esmeralda, que apesar de saberem que não era esse o seu verdadeiro nome, todos a tratavam assim. Era um doce de senhora para todos, e por isso muito respeitada também. D. Esmeralda enviuvou muito cedo, e criou, sozinha, filhos muito jovens ainda e três filhos que veio a adoptar depois. Apesar da idade, a D. Esmeralda era uma pessoa linda, com os seus cabelos cinzentos sempre bem penteados, com as suas leves rugas que lhe desenhavam a cara, e com aqueles olhos verdes cheios de ternura.

No bairro onde morava, a porta de sua casa sempre foi uma porta aberta para todos. Todos os dias, a D. Esmeralda colocava sete pratos na mesa, cinco para os filhos, um para si, e um ficava de sobra, porque haveria sempre alguém com fome para alimentar. A comida nem sempre era muita, mas com boa vontade, aquela que sempre teve, juntava um pouco mais de água, mais uma batata ou uma cebola, e lá havia um pouco mais de sopa.

Com algum esforço terminou o curso e tornou-se enfermeira no hospital da zona. O seu trabalho sempre foi conhecido e reconhecido por todos, mas o que lhe era mesmo reconhecida era a bondade com que encarava a vida. Muitas eram as vezes que entravam pessoas doentes no hospital, mas que ela reconhecia no olhar que apenas precisavam de um agasalho e de um prato de sopa quente, e meia hora depois, a maleita estava curada, pelo menos até à próxima noite fria.

Numa noite de frio intenso, a meados de Dezembro, entra José Afonso pela porta das urgências, com o seu pequeno filho Gonçalo nos braços, depois de ter sido atropelado por um carro que se pôs em fuga. José Afonso era um dos homens mais ricos da cidade, tinha várias empresas na região e era homem de muitos contactos internacionais. Era um homem respeitado, admirado, mas também temido, tal o seu poder. A sua entrada ali era de todo inesperada, mas não havia tempo para surpresas, o pequeno Gonçalo precisava de ajuda e atenção urgente.

Rapidamente uma equipa de médicos e enfermeiros correu em seu socorro, levando de imediato o pequeno rapaz para a sala de observações. Alguns exames, radiografias, TAC’s e foi levado para o bloco operatório. Gonçalo corria risco de vida e ia ser sujeito a uma longa operação que iria entrar pela noite fora, e que iria ser certamente a noite mais longa de José Afonso.

A D. Esmeralda, que estava de serviço nessa noite, e apesar dos muitos utentes que atendia, tinha sempre uma atenção para os que a rodeavam, e para os que mais precisavam. Naquela noite, tinha ali na sala de espera aquele homem imponente e rico, em sofrimento. Naquela noite, era ele que precisava de um pouco de ajuda. Apercebendo-se da sua aflição, foi informar-se sobre o estado do menino e foi até a sala. Sentou-se na cadeira ao lado de José Afonso, que anestesiado pela dor e preocupação, não se apercebeu da sua chegada. Ela colocou a sua mão sobre o sobre o ombro e sorrindo, tentando passar alguma serenidade, disse-lhe que a operação ainda iria demorar, mas que iria correr tudo bem. Ele olhou-a com surpresa, mas depois encontrou ali, naquele gesto, naquele, naqueles olhos verdes e tão verdadeiros, o carinho, a paz e a confiança que precisava. Ela ficou ali em silêncio mais 5 minutos junto dele, depois teve que voltar ao serviço. As visitas aquela sala foram frequentes durante aquelas horas.

As horas foram passando e no inicio do dia, houve noticias. A operação tinha corrido bem, mas as próximas 48 horas eram fundamentais para o desenvolvimento do estado de saúde da criança. D. Esmeralda ouvia atenta estas palavras que o Senhor Doutor transmitia, do outro lado da sala a José Afonso. Depois do médico ter voltado para dentro, José Afonso virou-se e encontrou, lá ao fundo, aqueles olhos que o observavam como a mesma serenidade e verdade do início da noite. Ela sorriu-lhe e desejou-lhe um bom dia, estava de saída para casa. Ele ainda tentou dizer-lhe alguma coisa, mas antes que o conseguisse, já a senhora tinha saído pela porta.

O dia foi passando e não havia novidades do Gonçalo. Ele estava ligado às máquinas e não havia meio de acordar. José Afonso, desesperado com a situação, e abatido pelo cansaço, decidiu ir caminhar um pouco para apanhar ar. A noite estava particularmente fria, mas isso não o importava. Foi andando sem pensar em nada, mas com um turbilhão de sentimentos no coração. Uma rua atrás de outra, virando aqui e ali, e indo sem destino… De repente ouviu, de uma forma quase silenciosa, uma voz que lhe pareceu familiar. Olhou um pouco mais em frente e viu a D. Esmeralda a sair de sua casa. Ia precipitar-se para ela, quando algo o fez parar, e ficou apenas a observá-la.

A D. Esmeralda transportava consigo algo enrolado que parecia um cobertor. Atravessou a rua, seguiu uns 100 metros mais a frente e foi entregar aquela manta a um homem, que se encontrava por ali deitado, meio enrolado no meio do frio. Naquele momento, ao observar aquele momento e no meio de tantos sentimentos que trazia, José Afonso começou a chorar. No seu íntimo, tinha considerado inicialmente aquela senhora como apenas mais uma profissional, que apenas estava a ser simpática porque o reconhecera, mas ali estava a prova da sua generosidade…

Quando D. Esmeralda regressava para casa, ele escondeu-se nas sombras da noite para não ser visto, não queria que de alguma forma ela fosse surpreendida depois daquele gesto tão pessoal e doloroso, por se confrontar com a realidade daquele homem ali deitado. Depois de ter entrado em casa, José Afonso voltou para o hospital, mas aquela imagem marcara-o.

Os dias foram passando, e felizmente o pequeno menino acordou e foi recuperando melhor que o esperado. Dois dias antes do Natal, estava recuperado o suficiente para ir para casa. Aquele Natal foi de comemoração intensa naquela luxuosa casa, presentes e mais presentes, comida, doces, e tudo o que tinham direito, naquele momento de felicidade.

Mas aqueles dias passados no hospital, aqueles gestos da D. Esmeralda não foram esquecidos. Assim que pararam as chuvas, começaram as obras de um empreendimento junto aquele bairro, que ninguém conseguia perceber a que se destinava. As dúvidas surgiam, muito se questionava, mas as respostas não chegavam.

Um dia, no inicio do tempo frio, tocaram a porta da D. Esmeralda. Como era hora de jantar, não era de estranhar que fosse algum “convidado” para uma sopa quente. Quando abriu a porta, viu do lado da porta, alguém que não esperava: José Afonso. A surpresa era grande, não poderia sequer imaginar a razão para tal visita. Depois de entrar, José Afonso informou que um ano antes tinha estado ali, naquela rua, e que ela tinha-lhe ensinado o que era a generosidade, o que era dar. E principalmente ensinou-lhe que se pode dar sempre, mesmo quando não se tem muito. Mas quando se tem, deve-se dar ainda mais, porque nunca se sabe quando se virá a precisar também. Durante aquele ano, ele tinha mandado construir um centro de acolhimento para sem abrigos, e vinha ali pessoalmente para lhe agradecer e para lhe pedir que ela fosse madrinha daquele centro.

Ela ouvia-o incrédula mas feliz e aceitou, quase sem palavras, apadrinhar aquela causa que lhe era tão querida. Minutos mais tarde, quando ele se dirigia para a porta, voltou-se para ela, aproximou-se e deu-lhe um abraço. Ela confortou-o nos seus braços, a experiência tinha-lhe ensinado a importância e o significado daquele gesto. Depois, ele disse-lhe: Sei porque todos lhe chamam Esmeralda, porque para além de ter esses olhos verdes que brilham no escuro, tem um coração precioso!

CA.

Este foi o meu conto enviado para a Crioestaminal na sequência do projecto CrioNatal 2008, com contributo para a Casa do Gil. Outros cinco contos foram enviados por amigos do Ticho. Um deles encontra-se aqui.

segunda-feira, novembro 10, 2008

Deixo-te um Jasmim...

Hoje queria dizer-te muita coisa... Hoje queria dizer-te que confio em ti como confio em poucos nesta vida... Hoje queria dizer-te que a nossa Amizade é especial, e que perdurá para além do tempo e do espaço... Hoje queria dizer-te que me preocupo contigo, como me preocupo comigo... Hoje queria dizer-te que és importante para mim e que é muito importante ter-te na minha vida... Hoje queria dizer-te que tive medo, um medo terrível de te ver sofrer ou até mesmo de te perder... Hoje queria dizer-te que gosto muito de ti... Hoje deixo-te um Jasmim, e deixo que o seu perfume fale por mim...

quinta-feira, novembro 06, 2008

Voluntariado?

Certamente que se lembram da campanha que houve o ano passado da Comunidade Vida e Paz, sobre "junta a tua meia a minha", no sentido de juntar meias para os sem abrigo. Referenciei aqui e participei, na medida do que me foi possível. No início de Dezembro o armazém foi assaltado e todos os bens foram roubados: as meias e os bens alimentares e outros a distribuir no Jantar de Natal. Fiquei triste na altura, já que a minha ajuda tinha sido em vão, mas não baixei os braços: fui ao supermercado, comprei bens alimentares e fui entrega-los pessoalmente.

Na altura, embalada pela onda de solidariedade, falei com os meus pais, que também contribuiram com bens, em participarmos como voluntários. Estavamos os três de acordo, no entanto, já haviam mais de 1500 voluntarios inscritos, e a formação já tinha sido dada, e por isso não podemos ajudar. A verdade é que fiquei com esta história na cabeça todo o ano, e agora em Outubro fui ao site e estão a receber os voluntários. Falei com os meus pais e estão dispostos a alinhar, como combinado desde o ano passado.

A verdade é que ainda não nos inscrevi... É muito facil falar e mais dificil de concretizar. É facil escrever aqui sobre pobreza, sobre sem abrigos, e como tantos outros temas que tenho escrito, e acho que todos podemos fazer um bocadinho para ajudar, mas... Há sempre um mas. Os sem abrigo são quase considerados por todos como "paisagem da cidade". Vamos na rua, vemos um, desviamo-nos, como desviamos de um sinal ou de um buraco, e seguimos em frente. Não os queremos ver! Mesmo quem diz que sim, mesmo quem fala no assunto, como já foi aqui falado. E trabalhar para eles, é "ter que" ver, "ter que" ter contacto com a realidade que é dura e por vezes mais cruel do que se imagina...

Estou a adiar a inscrição, embora não o possa fazer por muitos mais dias... Mas acho que no fundo há algum receio da minha parte, algum desconforto... Não é tão melhor andar num bom carro, com roupas de marca, e andar a comer em restaurantes? É verdade... Mas acho que está na hora de passar das palavras à realidade.

Alguém me acompanha? Vamos numa de fazer algo pela comunidade e tomar consciência da realidade?

domingo, novembro 02, 2008

Presente de Aniversário...

O Ticho fez dois anos, há menos de 1 semana. Muitos foram os amigos, amigos queridos, que apareceram para celebrar comigo o início desta casa que é nossa. É bom ser acarinhada, é bom ter presente, nas datas importantes, aqueles que de que tanto gostamos.

Hoje o Ticho recebeu um presente de aniversário. O presente chegou-me através de um mail da Cristina que felicitava a existência do Ticho, felicitava a amizade e o carinho que se vive por aqui, e que se sente. Felicitava ainda este mundo da blogosfera por criar a oportunidade de nos conhecermos e de criar uma verdadeira amizade, assim como conheci tantos outros amigos especiais por este meio.

O presente foi assim explicado: "Não é uma estatueta de ouro (até porque de actriz não tens nada: és muito autêntica!), mas é um "B" de ouro para que possas colocar no Ticho distinguindo-o, assim, como blog de ouro!". O Ticho foi assim classificado e eleito como Blog de Ouro.




Cristina, a ti e a tantos outros amigos que me leem aqui digo que, o que torna esta casa especial é a tua e a vossa presença aqui, a tua e as vossas visitas constantes, a tua e a vossa Amizade... O facto de me permitires e de me permitirem que eu entrasse na tua e nas vossas vidas assim, de coração aberto. O Ticho permitiu facilitar o encontro, mas coube-nos a nós fazer com que a Amizade acontecesse. Existem amigos aqui, que me acompanham há quase dois anos, alguns mais, outros há apenas alguns meses, mas a Amizade reina. O meu dia-a-dia mudou, a minha vida mudou, e eu cresci com todos vós, aqui.

O facto do Ticho ser considerado um blog de ouro, deixa-me orgulhosa. Orgulhosa de algo que eu criei, mas orgulhosa de mim mesma. Este é o prémio que reconhece e assinala tudo de bom que tenho feito e construido aqui, convosco... Inclusive, eu mesma e a minha forma de ver o mundo.

Obrigada por tudo, pela Amizade, pelos momentos felizes, pelas lágrimas e desilusões partilhadas, pelo aprender, pelo sofrer em comunhão. Obrigada pelo silêncio que nos fala ao coração...

terça-feira, outubro 28, 2008

Desafio: Um conto de Natal em 3 dias...

No final da semana passada a Fa Menor enviou-me uma notícia que me falava do Projecto CrioNatal 2008. O Projecto CrioNatal 2008 é um projecto desenvolvido pela Crioestaminal para auxiliar a Casa do Gil.

O Projecto CrioNatal 2008 pretende reunir os mais belos Contos de Natal que, depois se serem previamente seleccionados e analisados irão “dar vida” a um livro onde a magia do Natal será contada “ao sabor” de todos aqueles que aderirem a esta iniciativa. Por cada conto recebido, a Crioestaminal compromete-se a doar 50 euros à Casa do Gil.

Após receber a notícia entrei em contacto, por diversas vezes com a Crioestaminal, e recebi hoje a confirmação que o projecto será para participação de todos e não apenas de clientes. Os contos deverão ser enviados até dia 31 de Outubro para o email: info@crioestaminal.pt.

Eu e a Fa estamos a começar a escrever (na verdade ainda não comecei, mas ja tenho uma ideia, pormenores!). Com pequenos gestos, podemos fazer alguma diferença. Faço-vos um desafio: Vamos escrever um conto de Natal? Sei que o tempo é pouco e que ainda estamos um pouco longe do espírito Natalicio, mas vamos por impulso... Aos que acederem a este desafio, se quiserem, enviem-me os contos que terei o maior prazer de o publicar aqui.

Boas escritas!

segunda-feira, outubro 27, 2008

Dois Anos...

Faz já dois anos que abri esta casa. Nesse dia estava longe de imaginar que, para além de abrir um blog, estava a abrir as portas da minha vida a tanta gente, pessoas fantásticas que foram entrando e ficando no meu coração.

Hoje é com orgulho imenso que vos apresento como Amigos, porque o são mesmo. Já pude dar o abraço apertado que tanto queria a alguns, a outros ainda não, um dia talvez... Mas estão todos no meu coração, e de uma ou outra forma, fazem parte do meu dia-a-dia. Vocês conhecem-me bem, conhecem episódios da minha vida que poucos daqui, deste lado do ecran, conhecem. Conhecem-me os sentimentos, os estados de espírito e até as dúvidas e as desilusões.

Para mim a Amizade pura e sincera, o estar disponível, o poder ajudar, o acariciar, o prestar atenção, o apoiar é fundamental. Por isso, hoje, neste dia que celebro o segundo aniversário desta casa que é nossa, digo: Amigo, gosto de ti desde aqui até à Lua, gosto de ti desde a Lua até aqui. Gosto de ti simplesmente porque gosto, e é tão bom viver assim...


Obrigada a todos vós, por estes dois anos fantásticos de cumplicilidade e partilha...

CA

domingo, outubro 26, 2008

temporariamente em obras


Durante o dia de hoje o Ticho encontra-se em Obras. É normal que encontre o Ticho sujeito a algumas alterações. Retomaremos dentro de possivel...

quarta-feira, outubro 22, 2008

Vou...


Espreito.
Espreito devagar.
Espreito por lá.
E olho.
O que olho?
Olho para lá.
E vejo.
Quero ver.
Ver sem ver,
mas ver.
E sigo.
Sigo para a frente.
Sigo enfrentando.
E vou.
Vou por mim.
Sei que vou.
Quero ir.
Vens?

segunda-feira, outubro 20, 2008

Opiniões que não consigo compreender...

Existem coisas que me fazem tirar do sério mas a incompreensão, a falta de tolerância, e a pretensão de sabedores do mundo, não permitem que fique calada. Na sexta feira passada chegou até mim um email com referência a um texto que fui ler, naturalmente. Depois de o ler juro que tentei controlar-me, mas decidi não deixar passar em branco este assunto. No Ticho fala-se de tudo, e este assunto nunca foi aqui tratado. Hoje é o dia!

O texto, intitula-se "Homossexualidade" e comecei a lê-lo, perdendo o meu tempo, considerando que haveria algo de interesse para ler. A introdução ao texto começa da forma brilhante dizendo que nada tem contra os homossexuais, apenas não aceita a homossexualidade. Continua afirmando que vivemos numa sociedade tolerante, mas não podemos aceitar os homossexuais; não devemos discriminar, a não ser que sejam homossexuais; e que se deve saber ouvir "não!", como se os homossexuais fossem crianças a pedir um brinquedo. Ainda na introdução percebe-se que a pessoa que a escreveu não sabe muito sobre a homossexualidade, porque refere a mudança de sexo (uma das principais razões da sua indignação contra a homossexualidade - errada!). Nessa altura perguntei-me se se falava de homossexuais se de transsexuais... mas continuei a ler. O texto propriamente dito traduz-nos a ideia de que os homossexuais são todos uns anti-normalidade, pessoas horriveis e ignorantes. No fim o único comentário que fiz para comigo mesma foi: "como é que há pessoas que conseguem escrever tantos disparates?".

Conheço alguns homossexuais, alguns pessoalmente, outros apenas por via da blogosfera. Os homossexuais são as pessoas com quem nos cruzamos na rua, são homens e mulheres da nossa sociedade, são professores, contabilistas, advogados, jornalistas, etc. Homossexuais, são homens e mulheres que amam outras pessoas, tal como cada um de nós, porque mais do que amar um género, amamos pessoas como um todo!

Algumas das pessoas que conheço têm filhos de outras relações ou até mesmo adoptadas. As crianças/jovens são miudos normais que brincam e passeiam como os amiguinhos, que vão à escola e tiram boas notas. São pessoas com valores (porque os homossexuais também os têm), a diferença destas crianças/jovens é que estes são mais abertos e preparados para o mundo, sabem bem o que é a tolerância, sabem que o importante é amar e sabem dar valor ao próximo, coisas que não sei se os filhos de todos os heterossexuais sabem (principalmente se os pais derem exemplos de repressão e discriminação destacados no texto).

Há algumas perguntas que me surgem quando se fala e opina sobre a homossexualidade: Quantas vezes nos perguntam na rua quantas vezes fazemos sexo e com quem? Será que andam com binóculos a ver se me deito com este ou com aquele? Porque será que estas pessoas pensam que têm o direito de o fazer com os homossexuais? Os homossexuais são pessoas com os mesmos direitos de liberdade e de privacidade que todos os heterossexuais. Que direito temos de falar sobre os parceiros das outras pessoas?! Será que não temos mais nada com que nos preocupar na vida?

O texto original faz ainda um "ps", perguntando onde estão os cristãos no meio de tudo isto. Eu acredito em Deus, só não sei se é o mesmo Deus destas pessoas. O Deus em que eu acredito é tolerante e ama todos os Seus filhos de forma igual. Os mandamentos falam em "Amar ao próximo como a nós mesmos", mas parece que para algumas pessoas depende do "próximo". O Deus que acredito não vira as costas a ninguém, quem vira somos nós, humanos imperfeitos.

sexta-feira, outubro 17, 2008

Neste jardim...

Sento-me neste jardim. Gosto de vir até cá e sentir esta tranquilidade. Vejo estas estrelas a cintilarem neste céu escuro que nem pirilampos e ouço o som da água daquela fonte distante a cair como uma melodia serena e suave, que nem acordes cuidadosamente colocados numa pauta de música. Sinto o perfume intenso das várias flores que ladeiam todo este lugar a entrar em mim e a percorrer-me todas as minhas veias. Sinto uma paz imensa...

Olho ao fundo e vejo o parque infantil abandonado pelo adiantado da hora. São escorregas, baloiços, cavalinhos e outras diversões. Está tudo ali, suspenso por algumas horas. Durante o dia, é uma agitação sem igual, com crianças de todas as idades a correrem entre todos estes recantos, a cantarem, a dançarem e a brincarem a jogos sem fim. Eu própria, há alguns anos, trazia aqui os meus filhos. Que boas recordações...

Mas a verdade é que a realidade da minha vida agora é bem diferente, e o que era, agora já não é mais. Depois do divórcio, o rendimento ficou demasiado curto para dar face a todas as despesas, e começou a gerar-se uma bola de neve na qual me enrolei e embrulhei. O dinheiro não chegava e comecei a cortar nas futilidades, depois nos hobbies, na roupa, na renda de casa que ficou por pagar... A depressão e o desespero tomaram conta de mim sem eu me aperceber. Mas também como aguentar tudo aquilo sozinha? Começou a falhar o trabalho e em menos de uns meses perdi também o emprego. Foi quando tive que começar a cortar na comida, na minha e na dos meus filhos... E aí decidi parar e resolver a minha vida.

Os miudos agora estão em casa da minha irmã que cuida deles como filhos, são bem alimentados, têm horarios, vão à escola e um dia terão estudo e uma profissão. Serão uns grandes homens de amanhã e de quem sentirei muito orgulho.

A mim pouco me sobra para além de algumas contas por pagar, aquelas que ficaram pendentes desde o outro tempo. Tirando isso, tenho este banco de jardim, que tanto é janela para o mundo, como cama ao deitar.


(foto de Alex Gandum)

Hoje é o Dia Internacional para a Erradicação da Pobreza... Estejam atentos e se puderem contribuam porque este é um problema que se tem vindo a agravar ao longo do tempo... E lembrem-se que, ninguém está a salvo que, de um momento para o outro, também se encontre a precisar de ajuda. Levanta-te por esta causa...

terça-feira, outubro 14, 2008

Hoje queria escrever...

Hoje queria escrever... Queria escrever sobre amizade, sobre compreensão, sobre partilha. Hoje queria escrever sobre momentos vividos, conversas tidas, sobre silêncios partilhados. Queria falar das lágrimas caidas, dos sorrisos cúmplices, das gargalhadas deitadas. Hoje queria falar daqueles momentos que são bons apenas pela presença, pela companhia, pela conversa intensa, mas também pelos disparates ditos.

Hoje queria dizer que é muito bom poder estar perto, poder estar ali. Se são gargalhadas que damos, damos em conjunto, mas se são lágrimas que caem, é bom poder estar ali a uns centímetros de um abraço, de um carinho, ou apenas e só de um escutar atento, uma presença que diz que não estamos sozinhos, que temos alguém que nos escuta de verdade, como se o mundo não existisse lá fora. Hoje queria falar daquelas conversas tidas, daquelas que tinhamos medo de ter com o nosso interior, mas que já demos por nós a tê-las em conjunto.

Hoje queria falar de um reencontro, porque o foi, não foi? Quanto tempo já tinha passado? Não sei bem, o tempo flui ordeiramente na desordem entre o espaço e a experiência. Não é o tempo a quarta dimensão?! Talvez o encontro tivesse sido já noutros espaços, noutros tempos, noutras dimensões ou noutras vidas.... Mas o que interessa?

Hoje queria escrever, queria falar, porque amigo é também aquele que diz o quão gosta do outro e o quanto é importante na sua vida. Mas hoje prendem-se em mim todas as palavras. Não falo, deixo fluir o silêncio, porque também o silêncio se tornou agradável...

sexta-feira, outubro 10, 2008

Encontrar+se...

Como já todos se habituaram, por aqui fala-se! Hoje não podia deixar de falar do Dia Mundial de Saúde Mental. Não venho falar dos "coitadinhos" que tantos preferem não ver, ou ignorar. Venho falar de uma Associação e de um Movimento, que trabalham em conjunto, e que acompanho (mesmo de longe e sem qualquer contributo - ainda!) há vários meses!

A Associação Encontrar+se é uma Instituição Particular de Solidariedade Social que surge da Necessidade de desenvolver soluções para as dificuldades encontradas no desenvolvimento, implementação, avaliação e investigação de respostas adequadas às exigências próprias da reabilitação psicossocial das pessoas com doença mental grave.

O Movimento UPA - Unidos Para Ajudar, cujo o mote é "Levanta-te contra a discriminação das doenças mentais", procura de forma responsável levar as pessoas a dar o primeiro passo que fará toda a diferença no entendimento e aceitação das doenças mentais.

Entre Janeiro e Outubro o Movimento UPA envolveu alguns dos mais significativos nomes da música portuguesa. Todos os meses, foi lançada uma música que resulta da parceria de duas personalidades / grupos marcantes da nossa música, alusivas aos temas propostos pela Encontrar+se.

As parcerias foram: Xutos e Pontapés / OIOAI, Rodrigo Leão / J.P Simões; Camané / Dead Combo; GNR / The Gift; Sérgio Godinho / Xana; José Mário Branco / Mão Morta; Cool Hipnoise / Tiago Bettencourt; Mariza / Boss AC (estreou hoje); Jorge Palma / Clã (em breve disponível).

As músicas podem ser ouvidas no site do UPA, e pode ser feito o download individual destas, pagando uma quantia à escolha. No entanto, a 17 de Novembro haverá o lançamento de um cd / dvd, com estas músicas, videoclips, videos, testemunhos dos artistas, etc. Um optimo presente de Natal para todos! Os meus estão garantidos...

Deixo-vos um video (não oficial) da 1ª música: Pertencer dos Xutos e OIOAI. Porque é preciso e é possível Pertencer...



quarta-feira, outubro 08, 2008

Enquanto esperas...



Enquanto esperas pelo encontro,
Enquanto esperas na (falsa) esperança
Enquanto esperas pela presença,
O sorriso,
O olhar,
Enquanto esperas pelo encontro que não chegará,
Pela esperança que te libertará,
O sorriso,
O olhar
que recordarás,
Enquanto esperas... está!
Enquanto esperas... ama!
Enquanto esperas pela eternidade que chegará... Vive!


Há duas semanas encontrei um Oásis no meio de um deserto. Um Oásis que prometia ser a área isolada no meio de algo existente, onde correriam sentimentos profundos, como água. Quem assina chama-se Zahir, que segundo a cultura asiática diz que, uma vez tocado ou visto não se pode esquecer mais. Não esqueci, e voltei dia após dia aquele Oásis, tão recente, mas puro, sensível e profundo. Ontem encontrei um post que me tocou, pelos seus jogos de palavras mas principalmente pela mensagem. Respondi-lhe lá, mas agora quis fazê-lo aqui, desta forma.

segunda-feira, outubro 06, 2008

Objectivos...


Eu sempre soube o que queria para a minha vida. Sim, é verdade que sabia, ou pelo menos tinha algumas ideias. Mas a verdade é que quando somos muito jovens tudo nos parece fácil de conseguir. Mas quando começamos a trabalhar, vêm algumas responsabilidades, alguns encargos, e começa-se a ter a noção que existem entraves... Depois vem o comodismo, e esse é o maior inimigo de qualquer objectivo que tenhamos.

Este fim-de-semana, em conversa com uma amiga disse: "eu sempre soube muito bem o que queria para a minha vida". Mas depois pensei um bocadinho e acrescentei: "ando é um pouco afastada, mas voltarei ao caminho".

A conversa ficou a martelar-me na cabeça. Como é que eu me permiti desligar o motor e ir ao sabor do vento? Não posso, quero muito mais que isto, tenho as minhas ambições e não posso deixar de lutar, porque a vida passa e não espera por mim.

Tomei várias decisões, tanto a nível profissional como ideológico. Decisões que tenho que realizar entre hoje e o final de 2009. Entre elas estão: Vou tornar-me militante de um partido político (decisão que está adiada desde 2003/2004); tenho que candidatar a publicação de um / dois artigos ciêntificos; tenho que voltar a estudar (outro mestrado/ pós-graduação/ MBA/ doutoramento). Para além disso, quero ainda levar a minha escrita mais a sério. O que vier a mais para além disto, é optimo. Menos é que não!

Na passagem de ano costuma-se fazer pedidos para o ano novo e promessas para cumprir. Pois bem, ao Ticho a passagem de ano chegou mais cedo!! Feliz 2009!

sexta-feira, outubro 03, 2008

6 coisas...



Ora bem, há algum tempo que já não tinha um desafio no Ticho, mas hoje é o dia.

6 coisas com que me preocupo?

- Com a minha família mais chegada;
- Com os meus amigos queridos
- Com os outros em geral (mas só com os que merecem)
- Com o futuro;
- Com a economia mundial;
- Com a sobrevivência, minha e de muitos.

6 coisas com que não me preocupo?

- Superstições;
- Dinheiro;
- Revistas cor-de-rosa e vida dos famosos;
- Bebidas alcoolicas;
- "Diz que disse";
- Saidas à noite tardias e repetidas, que nem uma rotina.

6 coisas que eu gosto?

- Escrita / Literatura;
- Cinema/ teatro;
- Estar com os amigos numa boa conversa;
- Sentir que estou sempre presente quando os amigos precisam;
- Estar na cama enquanto chove lá fora;
- Café.

6 coisas que eu não gosto?

- Violência;
- Injustiça;
- Falsidade;
- Mentira;
- Desinteresse;
- Presunção.

6 coisas que me fazem sorrir?

- Conversas sem nexo;
- Um carinho sincero;
- Uma atenção desinteressada de um amigo;
- Uma piada inteligente;
- Crianças;
- Um gesto de boa vontade.

6 coisas que me entristecem?

- A ingratidão;
- O desinteresse;
- O abandono de crianças, idosos e animais;
- A tristeza dos amigos;
- A perda de alguém;
- A saudade.

6 coisas que me definem?

- Amiga;
- Teimosa;
- Sempre disposta a aprender;
- Confiante em mim (às vezes)
- Baixa auto-estima (outras vezes);
- Confidente.

6 blogs que desafio?

Como considero que desafios destes ajudam a conhecer as pessoas, decidi passar este desafio aos amigos recentes por aqui, uns mais que outros é verdade, mas quem gosto de visitar.

- A Capela - Um sitio onde se fala de religião... e de muito mais.
- Branco Escuro - Um sitio de uma simplicidade e sinceridade fantástica.
- Contemplar - As portas abertas da casa de uma Amiga de verdade.
- Fluxos Magnéticos - Um blog que ainda estou a descobrir e a gostar
- Oásis - Apesar de ser um blog (muito) recente, gosto de passar por lá, adivinho que se passarei lá grandes momentos
- Procurar-se - Os desabafos e a abertura aos outros de alguém que se procura
- Simplesmente Morim - Amores e desamores, Diário de uma Aborrecente ;)

quinta-feira, outubro 02, 2008

Quem Lê...


Quem aprende crava o pedúnculo na terra da mente. Quem lê, se ler num movimento de abertura da mente e com o espírito do pensamento, se ler da esquerda para a direita ou vice versa, da direita para a esquerda, colocado sobre o nascimento de algo novo, é pessoa que não tem em permanência o sonho parado pelo tempo. O sonho tem quem tem a visão da leitura como um espelho. Um espelho que de pessoa, e leia-se como pessoa, é uma cadeira que se senta sobre a paisagem de conhecimento, embora seja mais conforme com a viagem.

CA

domingo, setembro 28, 2008

Queria ser escolhido...

Acordo bem cedo, mas gosto de ficar ali na cama a olhar para aquele espaço cheio de pessoas, e vazio de memórias... "Será que é hoje?" Não sei quem me ensinou esta frase, esta pergunta, mas sei-a de cor, repito-a todas as manhãs. A verdade é que não sei ainda acredito que o "hoje" pode chegar. "Será?"

Vivo nesta casa há 11 anos, no total dos meus 12. Tenho os colegas, as pessoas que cuidam de mim, a minha escola, mas... Falta-me algumas coisas. Queria um quarto só meu com coisas compradas para mim... Queria alguém se preocupasse realmente comigo, com as minhas notas e que parasse com a sua labuta só para me ouvir contar o que se passou no meu dia. Queria uma festa de anos, com bolo e presentes, com amigos, e quem sabe até com um palhaço? Queria poder jantar à mesa onde se contavam as novidades, historias e ensinamentos. Queria que me ajudassem a fazer os trabalhos da escola, que me ensinassem a andar de bicicleta, a construir pequenas coisas e a jogar à bola... Queria aprender o significado de preocupação, e de carinho. Queria saber o significado da palavra família, e o poder de um abraço. Queria tanto uma historia contada ao deitar, um abraço e um beijo de boa noite...

Sonho acordado com tudo isto, vejo-me a correr, a brincar e a sorrir num jardim grande de um casa bonita. Cada vez que vejo um casal a entrar pela porta penso: "Olá, estou aqui e sou um bom menino. Não me querem conhecer?" Mas depois sou puxado para a realidade... Há 11 anos que espero, que sonho, mas os dias vão passando, as pessoas vão entrando e saindo e ouço continuamente aquele sussurro: "Ele não, que é grande demais, queremos uma criança pequenina..." Esta frase já não me faz chorar como me fez, das primeiras vezes... Aceito-a agora com normalidade. Vou ficando aqui até que um dia decidam o meu futuro.

CA

Nota Posterior: Ao escrever estes post "temáticos" a minha intensão é sempre colocar as pessoas a pensarem. Como eu costumo dizer, enquanto me leem e comentam pensam 5 minutos sobre o tema. Tento escrever algo que seja semelhante à realidade, mas (in)felizmente existem realidades que não conheço. Após escrever este texto, veio-me a chamada de atenção do Jorge:

Na realidade as pessoas não vão aos centros de acolhimento ver as crianças, aquela parte do "Ele não, que é grande demais, queremos uma criança pequenina..." ", realmente não é suposto acontecer. A segurança social apresenta os dados de uma criança especifica a quem quer adoptar e só depois de haver uma resposta positiva para aquela criança é que as pessoas vão ao centro de acolhimento... mas é ver aquela criança, não escolher uma criança.

A verdade é que, em todo o caso, existe a escolha, seja presencial ou em processo... Mas fica a informação para todos e fica reposta a verdade. Obrigada Jorge.

quinta-feira, setembro 25, 2008

É este o país que temos!

Os amigos que passam por aqui regularmente sabem que não sou muito de me queixar, porque considero que se todos contribuirmos um pouco, o mundo ficará melhor. Mas ontem aconteceu-me algo que me escandalizou e que não posso deixar de divulgar! Ora aqui vai... As pessoas mais sensiveis, por favor não continuem a ler!! (O recado está dado).

Ontem ia a caminho do Porto, em trabalho, na A17 por volta de Leiria, com mais 3 colegas (2 Homens e 1 Mulher - gravida de 5 meses) quando o carro onde seguiamos avariou (basicamente morreu). Ok, até aí nada de novo até porque já esperavamos a sua morte há algum tempo. A minha colega que está habituada a estas coisas (porque a profissão exige que faça 60.000 kms por ano, e isto acontece), agarrou o tlm, e a apolice do seguro da ALLIANZ e lá foi tratar da assistência em viagem. Saberiamos que o carro voltaria para baixo de reboque, e que nós iriamos de taxi para o Porto. No entanto era necessario ter atenção ao taxi que nos enviavam porque, para além das malas, tinhamos imensas coisas para transportar, e eramos 4.

Passadas 1h30m depois chega o reboque para transportar o carro. O taxi? Não havia meio de chegar, e nós com varios contactos com a assistencia! Ao fim desse tempo, disseram-nos que o taxi iria chegar, mas que nos levaria para Leiria e nós iriamos à procura de uma Rent a Car para alugar um carro!! O quê???! Primeira indignação, por vários motivos: faltavam 20 minutos para as 19h, hora em que as Rent a Car fecham, e para além disso não iriamos pagar, nem tão pouco dar caução.

Disseram-nos para aguardar o proximo contacto deles. Como nem contacto, nem taxi chegaram, voltamos a telefonar (era aí a 5ª ou 6ª vez!) para saber se ainda demoravam muito. Foi quando fui eu a falar com o Senhor da ALLIANZ que me informou que o taxi nos levaria a uma estação de comboio e que iriamos seguir para o Porto de Comboio às 23horas! Foi quando me passei com ele. Como é que ele tinha coragem de nos enviar para o Porto às 23h de comboio? Qual foi a parte de sermos 4 e termos imensa bagagem para transportar que ele não percebeu? E às 23h? Eram 19h e pouco!! Foi quando referi que para além de tudo isso, tinhamos uma pessoa grávida entre nós e que não iria fazer essa viagem! A resposta que ouvi do outro lado foi brilhante: "foi a primeira vez que nos deram essa informação, não sabiamos que havia uma pessoa grávida. Um segundo..."

Passados 5 minutos a ouvir música do outro lado, enquanto a ALLIANZ telefonou ao senhor do reboque a perguntar se havia mesmo uma pessoa grávida e de quantos meses (??!!), lá apareceu o Senhor do outro lado a dizer "Obrigada por ter aguardado, já tenho uma resposta dos meus superiores, o taxi irá levar-vos ao Porto". Foi com grande indignação e revolta que ouvi esta resposta, e que passados menos de 10 minutos, apareceu um taxi enorme para nos transportar até ao Porto!

Foram assim passadas 2 horas à beira da auto-estrada, e que apenas o facto de existir uma pessoa grávida entre nós, as coisas se resolveram em 10 minutos. Fantastico Senhores da Allianz!

Agora eu penso: qualquer um de nós, simples mortais e "não grávidos", não temos o mesmo direito de assistencia que os especiais. Se não fosse a minha colega, ainda estaria a esta hora algures no meio do pinhal de Leiria?!

Para vós, amigos que ainda estão a ler e que não partiram já o computador só com a revolta por estas situações como esta que acontece no nosso país, aconselho a que verifiquem que companhia de seguro têm nos vossos automóveis. Se for a ALLIANZ pensem que qualquer um está sujeito a ficar algures pelos caminhos deste nosso Portugal.

Estou bem, sã e salva já em casa!

ps - Quero agradecer à Cristina que ainda nos ajudou neste nosso momento de aventura. Obrigada por tudo.

segunda-feira, setembro 22, 2008

Promessas de Solidão...

Passei toda a minha vida ao ar livre, com o barulho dos pássaros como banda sonora e o sol como maestro dos meus dias. Eram dias de trabalho que se confundiam com diversão, ou diversão que era também trabalho. Cuidava das hortas, do jardim, dos animais, da casa. Foi assim a vida inteira, cresci e aprendi a desfrutar do que a vida tinha para me dar. Aceitei cada queda, cada dificuldade para me tornar mais forte, para crescer, e alegrei-me por cada bênção, por cada dia vivido.

Sempre confiei em Deus, e no homem que Ele colocou ao meu lado. Era um homem bom, um homem que me amava como sabia amar, que me protegia e que eu amava no mais fundo do meu íntimo. Foi mais que um homem para mim, foi um companheiro de caminhada, de luta, de vida. O tempo foi passando, ano após ano. Os filhos apareceram, foram crescendo, saíram de casa e foi aí que ficámos os dois, um sendo a companhia e o apoio do outro, como sempre fomos a vida inteira. Um dia, a doença chegou e levou-o para longe de mim. Veio a solidão...

Passaram alguns anos, anos bastante dolorosos e sofridos. Tive que aprender a viver, aprender a superar a dor e ausência. Mas como mulher forte que sempre fui, mulher que do campo que sabe que tem que arregaçar as mangas e trabalhar, lutar pelo seu sustento, não podia parar. Continuei a dedicar-me as hortas, ao jardim, aos animais, e dando agora alguma atenção também às colheitas que antes faziam parte das tarefas dele. Apesar de sentir o peço da idade sabia que tinha as minhas obrigações e assim, dia após dia, ano a pós ano, continuava a lavoura do dia-a-dia.

Numa manha bem chuvosa de Outono, depois da colheita das uvas, os meus três filhos, aqueles que mudei as fraldas, aqueles que mimei e sustentei, chegaram-se a mim, e acharam que tinha chegado a minha hora de descansar. Tentei resistir a ideia, pedi alguns dias para pensar, embora a minha ideia fosse firme. Mas dia após dia, depois de sugestões e promessas que ecoam ainda dentro de mim, baixei as armas e vim. Fizeram-me a mala e trouxeram-me pela mão para este lugar escolhido por eles, que apenas conheci no dia em que aqui cheguei...

Olho em meu redor e sinto um vazio. As promessas de outrora, as promessas de uma vida descansada e serena com bom ambiente e visitas frequentes, as promessas de uma vida em família, mesmo que não a minha, ficaram por cumprir... Agora tenho apenas estas paredes brancas e vazias de histórias, este espaço amplo mas sem cor que me gela o coração, e estas pessoas que me acompanham mas que nunca deixarão de ser estranhos em mim. Já perdi a esperança de dias melhores, daqueles dias que mesmo que o corpo cedesse, ainda sorria só por sentir aquele cheiro da minha terra, das minhas plantas e do ar fresco, e não o ar condicionado que por aqui se respira.

Entrego-me à tristeza que é mais profunda em mim que a dor, à solidão e as recordações de um passado feliz que são agora a minha única companhia. Sinto o coração a bater descompensado no meu peito, como que ameaçando de parar a qualquer instante, mas que não pára! Outra promessa por cumprir…Fecho os olhos nesta cadeira de baloiço e rezo, enquanto aguardo que essa promessa um dia se torne realidade.

CA

sábado, setembro 20, 2008

Dúvida Existencial

Ontem durante o jantar com os colegas de trabalho, surgiu-me uma dúvida existencial. Não consigo ter uma resposta certa e concreta para tal duvida e antes que comece a deixar de dormir, de comer e sequer de me mexer, tenho que partilhá-la convosco. Ora aqui vai...

Então é assim, se o Pateta e Pluto são os dois cães, porque é que o Pateta fala e anda em pé, e o Pluto não? Porque é que o Pateta tem dois pés e duas mãos e o Pluto tem 4 patas?





quarta-feira, setembro 17, 2008

Faustoólicas #1

"preciso de falar (os nervos), preciso de falar (os nervos), preciso de, preciso de, (os nervos, os nervos), porque preciso de, porque preciso de, porque preciso de falar. sabes que fausto é um satanista? sabes que fausto é um sabes que fausto é um satanista?
preciso de falar fausto, preciso de falar com fausto, preciso de falar,
um dia destes, um dia destes novamente, enquanto durante portanto pois depois, essa pressão na cabeça (os nervos), essa de preciso de te falar, essa pressão na preciso de te falar, (os nervos), essa de ensaiar o que te vou falar, porque preciso de falar, um destes preciso novamente, portanto com os nervos,
sabes fausto falar? sabes falar com fausto? sabes que fausto é um preciso de falar? sabes que dantes julgava dante mas agora já não? sabes que agora já não penso assim (são os nervos, são os nervos).
um dia destes, porque por enquanto, novamente, porque por enquanto, apenas por aqui, neste expressionismo minimalista, neste expressionismo mínima...
não me apetece falar mais."

Rafael Dionísio*, in Cadernos de Fausto.

* João Rafael Dionísio foi o meu professor de Escrita Criativa nos Ateliers que fiz. Cadernos de Fausto é já o seu sexto lívro editado.

Nota: A forma de escrita deste post é rigorosamente igual à apresentada no livro.

sábado, setembro 13, 2008

Amigo...


No início desta semana em conversa, com uma recente amiga daqui, esta pediu-me que escrevesse um texto sobre a Amizade para colocar no seu blog. Era uma honra estar a pedir-me algo assim... Mas como se escreve sobre a Amizade?! Um sentimento tamanho e tão profundo. Pensei que seria mais facil tentar definir um Amigo... O texto ficou assim:

Um Amigo é um cúmplice no olhar, que te reconhece nos olhos os sentimentos, as alegrias e as preocupações. Amigo é quem te seca as lágrimas e quem alimenta o teu sorriso.

Amigo é um irmão que te acompanha pela vida, aplaude da primeira fila em tempos de vitórias e ajuda a levantar sempre que caímos, não importa quantas vezes serão.

Amigo é alguém com quem te ris, brincas, falas, mas com quem também choras e contas o que tens medo de dizer em voz alta. Amigo é o que te escuta com atenção como se não existisse mundo lá fora.

Um Amigo aconselha e diz que "não" quando assim tem que ser, mas que está ao nosso lado quando tomamos uma decisão, mesmo que não seja acertada.

Amigo é aquele que dá sem esperar contrapartida, porque sabe que a partilha é o retorno.

Amigo é aquele que o tempo não apaga, que a distância não esquece e que a maldade não destrói.

Amigo é ternura, carinho, respeito, uma festa na cara e um beijo na testa. Amigo é aquele que diz que és importante na sua vida, e te mostra o quão gosta de ti. Amigo é um tesouro único que nos reconhece num sorriso e que nos protege na profundidade de um abraço enquanto nos fala em silêncio.

CA

Naquele dia, quando cheguei ao blog tinha esta introdução ao texto:

"Passo, agora, as palavras maravilhosas que me foram oferecidas por alguém ainda mais maravilhoso... Não são as palavras que são maravilhosas: o seu reflexo - esse sim! Ainda mais quando reflectidas por alguém que, num momento inesperado e de forma incrivelmente marcante, entra na minha vida... Alguém para quem ainda não encontrei as palavras exactas para definir... Não é verdade! Este alguém definiu-se (sem saber) com estas palavras".

Que dizer mais quando nos tratam assim e dizem-nos tudo isto? As palavras voam, fica o sorriso e um enorme carinho e uma grande Amizade... Obrigada Amiga, e obrigada a todos os Amigos que me têm acompanhado por aqui, e que tanto me têm dado...

O texto encontra-se aqui.

quinta-feira, setembro 11, 2008

Obrigada...

O desafio "Vamos escrever uma estoria?" surgiu de uma ideia repentina quando eu estava a ter ideia para uma estoria provocada pelo quadro da Joana. Fiz o desafio, postei e enviei a alguns amigos. As estórias foram chegando e no final eis-me aqui com 17 estórias (e quem sabe se ainda chega outra que anda por aí...)!

O desafio foi um sucesso? Sem dúvida. As estórias de vários formatos, tamanhos, linguagens e até em linguas diferentes, são todas excelentes. Demonstrou-se aqui que há muita gente a escrever bem.

Ni, Patrícia, Fa Menor, Belisa, Su, zeroz, Joaquim, John, Sofia, Marta, Metódica, Sónia Pessoa, Sara Cabral, bono_poetry, Maça com Canela, Cris, Malu, Obrigada por terem respondido tão bem ao desafio proposto. Proporcionaram ao Ticho passar por um momento muito interessante. Sem vós nada disto tinha sido possível.

Quero ainda deixar um agradecimento à Joana Ramos, a autora do Quadro fonte de inspiração para todo o desafio.

É um orgulho e uma honra ter-vos por cá.

quarta-feira, setembro 10, 2008

Uma Estória (17)


No colégio interno...


A Margarida era uma jovem adolescente, aborrecente [1] como muitas outras jovens da sua idade. Pensava essencialmente em três coisas na vida: na moda; em saídas à noite até às tantas da noite; e em rapazes, como seria de esperar. Apesar do seu estado de rebeldia e de supérfluo permanente, até tinha a noção de que um dia as coisas iriam mudar, e que faria tudo para trocar aqueles rapazes giros com quem já saíra, por um belo príncipe encantado. Enquanto isso não acontecia, e ela sabia que o mais provável era não acontecer, porque príncipes encantados só em estórias de encantar, em que envolvendo sempre um sapo ou um cavalo branco, e na verdade nenhum dos dois a agradavam, tinha era que viver a vida, e aproveitar enquanto era jovem e, principalmente, gira!!

De tão ocupada que andava com os três assuntos tão importantes, e que digamos a verdade, ocupavam-lhe o dia-a-dia, não sobrava tempo para outras actividades, como ir a escola nem tão pouco estudar... Que coisa mais normal e sem graça para se fazer nas tardes de inverno enquanto chovia e só apetecia estar no calor de um centro comercial, ou nas tardes de primavera, que só apetecia andar por aí com os amigos e com os... mais que amigos!

Os pais da Margarida, ambos com uma carreira para construir e pela qual lutar, não tinham muito tempo para se preocupar com essas andanças. Se ela queria comprar roupa que comprasse, era porque precisava e não podia fazer má figura; se queria sair, fazia-lhe bem, também precisava de distrair, e estava na idade para isso! Uma coisa não admitiam: é que a filha não fosse um modelo em tudo, desde roupas, a amigos, namorados e em notas! Sim, porque filha de dois profissionais como eles, não podia ser menos do que uma futura excelente profissional!

Mas a verdade é que parecia que o mundo estava mesmo feito para os contrariar, e no final de um ano, semelhante a tantos outros, lá chegaram as más notícias: a Margarida tinha chumbado! Como era possível?! O mundo parou, não haviam negócios, nem reuniões que fossem mais importantes que a fachada que era necessária manter... Após varias discussões, após culpas atiradas como bola de ping-pong entre pai e mãe, e entre pais e filha, era hora de tomar uma decisão radical e definitiva para aquela situação: colégio interno! Estava decidido e não havia volta a dar...

Passou-se o Verão e no final havia já um destino traçado e uma viagem marcada. Quando chegou tudo parecia cinzento demais para ser real. Uma coisa ela podia ter a certeza: seria a mais chique de todos eles e o lugar de rainha no baile de primavera seria seu! Isso, se houvesse baile, claro... As semanas foram passando e estava a ser tudo muito pior do que ela podia sequer imaginar: os horários, as regras, as aulas sequíssimas, os horários para estudar (como é que podia haver tanta coisa para estudar?!), e o pior que tudo, não havia a mínima distracção do seu agrado, nada que não envolvesse jogos físicos, ou aborrecidos jogos de estratégia; rezar, ou ler na biblioteca, e por aí adiante. Mas como era possível que alguém vivesse contente assim?!

Num dos dias que decidiu ceder à biblioteca encontrou algo que não esperava, um grupo de jovens que, de alguma forma, se destacava de todos os outros que permaneciam naquele espaço... Parecia até que escondiam alguma coisa! Mas ali, o que poderia ser? Era um grupo constituído por uma rapariga e três rapazes, e o seu aspecto era também diferente dos outros "cromos" que por ali andavam, tinham um ar mais... saudável! Aquela ideia fascinou-a, era a primeira vez que via algo que lhe prendia a atenção e que até lembrava outros tempos. Estes mistérios eram o que mais se assemelhava a algo proibido por ali. Tinha que arranjar uma forma de se aproximar, de descobrir... e se possível, integrar-se! Não sabia o que se passava, mas fosse o que fosse, ela estava determinada.

Durante uma semana as visitas à biblioteca eram regulares, e por coincidência (ou talvez não) à mesma hora que o tal grupo estava também por lá. Seguia com o olhar cada elemento daquele grupo e os seus gestos. Aparentemente só estudavam, mas investigavam livros que ela nunca tinha ouvido falar, e o olhar... aqueles olhares cúmplices não eram normais, não eram simples olhares de quem estuda historia ou matemática... Havia algo ali, isso ela tinha cada vez mais a certeza.

Um dia há hora de almoço (num colégio, tudo se passa à hora de almoço, não é?), enquanto a Margarida andava supostamente à procura de um lugar vazio numa das mesas daquele refeitório imenso e poderoso, veio "acidentalmente" parar à mesa do tal grupo. Pediu para se sentar. Pararam os quatro a olhar para ela, mas depois, e mudando o assunto, acenaram que sim. Durante todo o tempo da refeição, não houve mais do que a troca de uma ou duas palavras, de resto era quase como falar... do tempo.

Margarida sabia que tinha que ter cuidado nas investidas, e que tinha que ter paciência, aprendeu isso com muitas das conquistas "do tal" rapaz (mas que ia mudando todos os meses). Durante quase uma semana era assim, todas as refeições vinha para a mesa deles, e já nem era preciso pedir licença e eles já começavam a não disfarçar o “tal” assunto. Um dia, e sem ela estar a espera deixaram-lhe um recado no tabuleiro do refeitório: "Às 17 horas na biblioteca, na mesa do canto." Sentiu uma excitação a percorrer-lhe as veias, afinal estava certa, afinal havia mesmo alguma coisa!

À hora marcada lá estava ela, como combinado. Passaram 15 minutos e ninguém aparecia. Será que estavam a gozar com ela?! Decidiu esperar. Passou uma hora, e continuava sozinha. Como é que ela foi enganada assim tão facilmente? Apetecia-lhe insultar-se, como tinha sido ingénua! Saiu da biblioteca a mil à hora apetecendo-lhe levar tudo e todos à frente, que nem o Katrina.

“Espantoso!”, ouviu a trás de si, “Uma hora… nada mau!”. Virou-se com ar furioso, e lá viu os quatro a gozarem da sua cara. Aproximou-se deles em fúria… “Calma, era só para testar a tua paciência, e saber até que ponto é que querias integrar-te no grupo”, disse a única rapariga. Anda connosco… Margarida ficou surpresa, mas achou que até fazia algum sentido… Seguiu-os em silêncio. Percorreram alguns corredores por onde ela nunca tinha andado, e depois de tanto virar à direita e à esquerda, sentia-se completamente perdida. Finalmente pararam à frente de uma porta, abriram-na e entraram sem acender uma única luz. Fecharam a porta, e por momentos teve algum medo, aquele breu de um sítio que não conhecia não a deixava confortável. De repente acenderam três pequenas velas num castiçal, tipo século XVIII. Tentou ambientar-se àquela luz e tentar analisar o espaço… Era uma sala, com as dimensões de um escritório, com estantes até ao tecto em duas paredes, e com as outras duas livres de qualquer objecto. No meio, uma simples mesa com cinco cadeiras em volta (Cinco?!).

Levaram o castiçal para o meio da mesa, e um dos rapazes, o que parecia que tinha mais influência embora fosse o mais pequeno, levantou-se e foi buscar um livro. Colocou-o sobre a mesa, mas ainda tão distante dela que nem lhe conseguia reconhecer a cor. “Já ouviste falar no oculto? Em magia? Em feitiçaria? Aqui é o assunto… Se quiseres saber um pouco mais, ficas, senão sais e esqueces que alguma vez estiveste neste sítio.”

Os seus olhos estavam ainda a tentar ambientar-se ao espaço, e tentar perceber o que se estava a falar ali… Mas não deu asas a dúvidas e acenou logo com a cabeça, dando sinal que queria continuar. Começaram então a explicar-lhe que investigam velhos livros que tinham trazido da biblioteca sobre feitiçaria, e que têm aprendido alguns feitiços desde então. A Margarida não acreditava no que acabava de ouvir. Aprender feitiços? A partir de livros antigos e poeirentos?! Nada como ver para crer, pensou ela… No seu íntimo achava que os outros tinham era andado a ler, durante demasiadas horas, os livros de um tal Harry Potter que, das estórias, só conhecia de ouvir falar… Havia também essa mania entre os colegas da antiga escola, mas ela nunca tinha “perdido tempo com isso”… Será que agora estava no meio de uma dessas estórias? Pagava para ver no que ia dar…

Percebendo o que ela pensava, o Duarte, o tal rapaz que deveria ser o chefe do grupo, fez um pequeno gesto, seguidos de umas palavras, e o livro pousado sobre a mesa abriu-se sem que ele lhe tocasse! Ela não queria acreditar no que via… Será que tinha sido mesmo assim?!, perguntava-se em silêncio. Apercebendo-se das dúvidas, ele virou-se para uma estante, fez outro gesto, outros dizeres e… lá veio um livro a voar da prateleira! Ok… para ela isso chegava! Depois de rendida a ideia, teve que fazer um juramento que não iria contar nada do que visse ou do que se passasse ali, e que nunca iria usar para maus fins nada do que aprendesse ali … Posto isto, fecharam os livros, apagaram as velas e saíram em silêncio.

Naquela noite ela não conseguiu dormir, a tentar perceber o que se tinha passado e tomar consciência do que iria aprender nos próximos tempo. Será que também ia conseguir fazer coisas como o Duarte, o tal rapaz?

Foram-se passando várias semanas, as aulas iam correndo, sequíssimas como sempre. Margarida estava a adaptar-se aos poucos ao sistema, aos colegas, aos novos professores … Menos a francês! A professora de francês era uma senhora tão velha que ela desconfiava que já tinha mais que 100 anos, e até conseguia ser mais insuportável que a antiga directora da antiga escola que todos os dias lhe dava lições de moral… ou pior, mais chata que mil directoras da antiga escola, coisa que ela antes pensava impossível. Agora eram os trabalhos diários com mais de 50 páginas, as leituras de textos que tinham tamanho de autênticos romances, a pronúncia (que raio de pronúncia!), aqueles R’s ditos como quem diz: o rato roeu a rolha da garrafa de rum do rei da Rússia, e os verbos (quantos eram? Mil e trezentos? No mínimo!) [2].

Depois das aulas e de todas as actividades, a Margarida e os seus mais recentes quatro amigos, reuniam-se na tal sala, para a qual ela aprendeu o caminho, e onde estudavam vários truques, vários dizeres… Quase todos os dias, depois do estudo na sala, passavam pela biblioteca para tentarem encontrar respostas às dúvidas que iam surgindo nas várias secções… A Margarida estava claramente em desvantagem por estar a começar muito depois dos outros, eram os termos, os gestos, os significados... Sabia que se queria aprender, então tinha que estudar mais…

Estudou tanto que acabou por aprender mais depressa, e chegou até a descobrir alguns truques diferentes e a ensiná-los aos outros. Com o tempo, estava a ser até cada vez mais ousada no que estudava, e ia até tentando inventar pequenas coisas, acrescentar alguns pormenores… Como tudo na vida, é preciso prática, e essa ela estava a ganhá-la de dia para dia.

Ao fim de semana, alguns alunos iam para casa (a maioria!), mas a Margarida não, com quem passaria os fins-de-semana se os pais não largavam o trabalho? Ficava pela escola e ia investigando um pouco mais, e aperfeiçoando os seus truques (sim, porque já podia dizer que tinha os seus truques!).

Num desses fins-de-semana, ao dirigir-se para a pequena sala, cruzou-se com… podia ser o diabo, mas não, era mesmo “só” a professora de francês. Esta inquiriu-a sobre o que andava a fazer por ali, e se não devia estar a estudar um pouco mais de francês para melhorar a vergonha que era a sua leitura e a sua pronúncia…! Ela, respondeu algo à toa, querendo apenas livrar-se da mulher… “Ai se pudesse…”, pensava ela, não querendo sequer terminar o pensamento. Seguiu caminho entre corredores e portas. Entrou na sala já conhecida, acendeu as velas do castiçal, e sentou-se à mesa com o livro que tinha ali deixado no dia anterior…

De repente ouviu um barulho atrás de si e olhou rapidamente nessa direcção, era a bruxa, quer dizer, a professora de francês! Incrédula com o que via naquela sala, a velha professora, começou a tentar perceber o que se passava naquele espaço, mas sem deixar espaço para respostas, ou melhor, para desculpas, começou logo a partir para a discussão… Margarida estava com uma vontade imensa de lhe dizer umas quantas também, mas tentava controlar-se ao máximo. No fim, a professora, disse que ia fazer queixa ao director e que ia pedir para a suspender para ver se se deixava de coisas, de rebeldias. Nesse momento Margarida já não se importava muito com nada. Vendo que não estava a conseguir o que queria, a professora, continuava a sua ladainha sem parar… Aborrecida (e não de aborrecente agora) com tanta conversa, só queria fazer com que a velha senhora se calasse, mas não lhe parecia possível que isso acontecesse nos próximos 20 anos (no mínimo!). Fez um gesto, uns dizeres e transformou a professora num sapo! [3] “Será que assim já se cala?” pensava para com ela, com ar aborrecido… Sabia que não o devia ter feito, mas olhar para aquele sapo indefeso e pensar que era a pessoa que a andava a fazer a vida negra, tornou-se uma satisfação maior…

Voltando à consciência, e pensando no juramento que tinha feito no primeiro dia, pegou no sapo, levou-o até ao jardim e dizendo outras palavras fez com que o sapo voltasse à sua forma humana, mas garantindo que não se iria lembrar de nada do que ali se tinha passado. Mas… na verdade aproveitou e fez um pequeno feitiço de “simpatia”, só para que aquela mulher, com tanta idade mas com tão pouca sabedoria, aprendia que os alunos também mereciam um pouco de respeito, e que um sorriso por vezes não faz mal a ninguém.


Por Cátia do Ticho


Nota da Autora:


[1] – aborrecente que, como explicado noutra estória, é um estado da nossa vida, pela qual todos passamos em fase de crescimento e em que nos tornamos aborrecentes...

[2] - Espero que as professoras de francês não me venham processar depois disto, mas eu, o Francês e as professoras de francês não nos damos muito bem...

[3] - Não tentem fazer isto em casa, ou melhor, na escola...

terça-feira, setembro 09, 2008

Uma Estória (16 - parte 3)


(Conticho continuação...)


Poucos segundos depois, a escritora ficou imobilizada.
– Mas o que se passa aqui? – Perguntaram Miguel e Márcia ao mesmo tempo – sente-se bem Mrs. Some?
– O que se passa, é que por um pouco Anjúlia não virou sapo como Brid. Conheço todas as poções que esta bruxa usa e ao contrário do que disse, são eficazes porque sou eu quem primeiramente os pesquisa – explica ¬ e ela somente os prepara e por vezes junta-lhes outros ingredientes, que também eu conheço já suficientemente bem. Não havia portanto qualquer razão para adiar a administração do antídoto, percebem?
– E então por que não o fez ela? – Atónitos inquiriam todos.
– Penso que para forçar Anjúlia a assinar um contrato com ela que há muito deseja, ameaçando deixar Brid neste estado para sempre. E continuou:
– Assim, daria o antídoto a ti Anjúlia, na condição de o cumprires pelo tempo que determinasse, e, caso e ainda assim o recusasses, obrigar-to-ia a fazê-lo, administrando-te o amarelo que acabou de tomar. Pelo que sei, só existe esse mesmo que vemos ainda no cristal e nem eu mesma estudei ainda a sua composição, pois, não houve tempo para eu ler algo que o mencionasse e portanto sabe-me sem quaisquer indícios sobre o mesmo.
– De facto, tenho vindo a receber correspondência dela nesse sentido – confirmou a actriz – sem que no entanto lhe tenha respondido uma só vez.
– Aí está! – Continua Mrs. Some – O que para ela é uma afronta e já que quer o mundo inteiro rendido as seus pés. Isto está a tomar já contornos demasiado sérios, sem limites e se não, vejam:

– Depressa conquistou o mundo infantil, e, logo de seguida e algo pressionados por estes, os pais, – de todas as áreas profissionais, raças, religiões, etnias. O mundo está a mudar e cada vez mais lhe pertence. Ela reina e só vai parar quando a tiverem como única senhora e deusa. Os seus livros já são utilizados em escolas, cujo estudo e trabalhos dos alunos, contam para nota. Entretanto, proliferam as de bruxaria que, como sabemos, é uma religião que vai tendo cada vez mais seguidores Já não se trata apenas de dinheiro, mas de poder – rainha das trevas – vejam: única! E porque até aqui só conhecemos o Mal, ao qual não se associa companheira alguma. Ainda…– acrescentou.

Arrepiados, apertaram-se em grupo escutando-a atentamente.
– Em várias entrevistas que esta mulher concedeu, ela afirma-se adoradora da besta e reparem que cada vez mais a Bíblia é retirada do ensino, dos hotéis, instituições, enquanto brotam novas filosofias ideologias e se adere cada vez em maior número, ao ioga, magia e seitas sem fim.
– Mrs. Some! – Surge finalmente a voz de Joana que se mantivera em silêncio todo este tempo – Há então algo que não me faz sentido, a ver com o seu discurso anterior, lá em casa. Convencia-me de que nestas aventuras prevalecia o Bem e agora revela-nos outra teoria. Explique-se, por favor – pediu-lhe.
– Sim, com efeito, contradigo-me. Quis apenas testar os seus conhecimentos cristãos e convicções religiosas, peço desculpa, uma vez que no seu estúdio, reparei que praticamente todos os seus quadros retratam personagens e cenas bíblicas.
A maior parte dos leitores e público destas aventuras, inadvertidamente são induzidos a acreditar que de facto se luta pelo Bem e que este vence, mas o que acontece e não passa despercebido a quem os lê e vê para estudo aprofundado, é que se arquitecta, e linha a linha, um culto oposto que assim vai construindo o templo do mal. Só com algum conhecimento se verifica que a escrita está repleta de símbolos contrários aos dos cristãos, de significados antagónicos subtilmente escondidos nas entrelinhas, aos mais incautos, podendo afirmar que de facto se trata da religião que a autora e seus fãs, na realidade, professam.

Quis portanto trazê-la, Joana. E tomei a liberdade de pegar emprestada a sua Bíblia, logo que a descobri na estante em frente à sua mesa de trabalho. Tenho-a aqui mesmo comigo. – Voltou-se e tirou-a de uma pequena maleta, acrescentando: Vai-nos ser preciosa, verá.

– Então apressemo-nos a administrar o medicamento em Brid, por favor, para sairmos logo daqui – lembrou Anjúlia.
– Sim, chamemos-lhe assim – apressou-se Mrs. Some prestando-se a isso.

O grupo uniu-se no mais profundo silêncio, sem se ousar o mínimo gesto, com toda a atenção posta no trabalho da incansável senhora.
Estava feito. Aguardava-se o tempo que levaria a causar a acção desejada. Até agora nada. Os segundos compreendiam horas, os minutos pesavam dias e aquela meia-hora vivida, sem nada suceder, contava um interminável suplício, só comparável a um discurso do Só-Grades…

– Meu Deus, o que fazemos? – Irrompeu Anjúlia num pranto.
Nesse momento, o sapo mudou de posição. Agitou-se, parecendo que preparava um salto, mas não. Olhava-os, serena e simplesmente, mas já era alguma reacção.
– Não será, Mrs Daky? – Perguntou Márcia.
– Pode ser, esperemos que sim – confiou.

Nisto, Joana levanta-se e apressadamente tira as luvas, desembaraça-se das ligaduras e corre para a mesa onde encontra a pastilha branca ali esquecida. Pega e toma-a de seguida com um gole de chá.
– Nãaaaaaaaao! – Gritam-lhe – mas já tarde.
Temos dois sapos, - terão pensado, – enquanto os olhavam estupefactos e tal a rapidez do imprevisto.
– Joana-sapo não adormeceu como Brid, nem precisou de um gesto que lhe provocasse a transformação imediata – observara Márcia.
– Tem razão – respondeu Mrs. Some – mas vejamos que esta não era mais uma das minhas pastilhas; fora já trabalhada e trazida pela bruxa (que elas as há) na caixa de cristal, destinada a Anjúlia.
– Certo! – Concordaram todos.

Márcia mantinha-se atenta aos bichinhos e ajudava Joana a subir para o sofá onde Brid se encontrava ainda e foi quando assistiram ao inconcebível: Aproximaram-se, parecendo que se reconheciam. Então ela ergue-se nas patinhas traseiras, toca uma das dele, a mesma que a levantara do chão quando se ferira. Por fim, e instantaneamente, juntam-se ao grupo, em pessoas – de carne e osso. Deu lá para se perceber como!?

– Incrível! – Gritam contentes, de alívio, felizes! Abraçam-se, sorriem, choram, pulam e dançam. Dura isto ainda algum tempo e até concordarem que era hora de partir, quando, do outro lado da sala, ouve-se uma espécie de uivo. Apanhados de surpresa, voltam-se para trás e aterrados, dão com a dona da casa contorcendo-se na cadeira, de olhos esbugalhados, proferindo intermináveis rosnares, furibundos, horrendos e de se fugir.

– Vamos, que esta não é de se fiar e ainda nos engole vivos!
– Sim – concordam. Agarram nas suas coisas e procuram a saída. Atravessam a segunda sala, depois o corredor e só então notam que Mrs. Some não os acompanhava mais. Esperam então um pouco por ela. Afinal, a idade nestas coisas conta e ela devia estar muito cansada.
Ansiosos por se verem longe dali, dão-lhe no entanto algum tempo mais. Depois ficam preocupados e Miguel oferece-se para voltar atrás a dar-lhe uma mão.
– Por favor despachem-se então, não te percas e tem cuidado contigo. – Diz-lhe Márcia dando-lhe uma palmadita de apoio nas costas.

Vêem-no virar o corredor à esquerda e suspiram a cada minuto, com os olhos postos nesse ponto da casa, esperando ouvir-lhes os passos de volta, mas, de súbito assustam-se, dando com ele a aparecer numa corrida desenfreada, pálido e quase sem fôlego.
– Ai valha-nos Deus, que foi agora? – Custa-lhe falar precisa recobrar e por fim, cambaleante, Miguel consegue titubear:
– Nunca vi nada assim. A outra mulher está louca e embora meia paralisada ainda, retém Mrs. Daky num estado de hipnose, transe, sei lá o que é, que não reage, não me obedece, e não me seguiu. Consegui trazer-lhe as coisas, mas ela está que nem uma estátua de mármore, de sal, ou múmia paralítica; não soube o que fazer e temi ficar ali que a outra vira bicho com certeza, não sei do quê! – Desabafou.
– Liiivra! E agora? – Márcia inquiria os outros.
– Preciso de água, por favor… – Miguel suava frio.
– Aqui ninguém mais bebe água, coisíssima nenhuma, né? – Ordenou Brid.
– Sim, claro – concordaram. Subitamente Joana lembra-se da maleta de Mrs Daky e começa a remexê-la até encontrar e tirar de lá a sua Bíblia – Não sei para o que, quis trazê-la, mas por certo não a usou. Será que…? Hmmmm… Se quiserem não esperem por mim, vou levar-lha. E corre para lá.

Dá com o quadro que Miguel descrevera minutos atrás e apesar disso, manteve a calma possível.
– Mrs. Some, olhe para mim, ouça, veja. Trouxe-lhe a Bíblia – depositou-a nas suas mãos inertes, mas a senhora não reagia. Então, repentinamente, arranca o fio de ouro que trazia ao pescoço, no qual pendia um crucifixo. Mostrou-lho e agora sim, Mrs. Some moveu-se. Pegou nele e apertou-o fortemente contra o peito e rezou: “Só Vós sois o Santo, só vós o Senhor, Só vós o altíssimo Jesus Cristo! Com o Espírito Santo, na Glória de Deus Pai, ámen”
Apontou-o na direcção da mulher sentada na cadeira e logo esta perdeu os sentidos. A expressão dos olhos e do rosto amenizou. Quase como a de uma criança inocente que adormecia.
– Não temos tempo a perder, Joana. Ajude-me aqui enquanto resolvo uns assuntos no laboratório. Mantenha a Cruz voltada na sua direcção e se costuma rezar, faça-o e procure na Bíblia uns textos que goste. Recite-os ou escolha outros adequados a esta situação. Eu não demoro nada a cancelar toda a produção em curso e a eliminar algumas fórmulas que precisam desaparecer definitivamente do mapa e da base de dados. Levaram séculos a serem compostas mas bastará muito pouco para bani-las do sistema e do planeta para sempre.

Deixou-a por uns momentos que lhe pareceram séculos. Joana tremia um pouco e murmurava:
“S. Miguel Arcanjo, protegei-nos,
sede o nosso refúgio contra as maldades
e as ciladas do demónio.
Deus o submeta,
instantemente o pedimos;
e vós, Príncipe da milícia celeste,
pelo divino poder,
precipitai no inferno a Satanás
e aos outros espíritos malignos
que andam pelo mundo
procurando perder as almas.
Em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo.
Ámen.”

S. Miguel Arcanjo, protegei-nos… (…) Em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo ámen.
S. Miguel Arcanjo, protegei-nos… (…) Em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo ámen.

Foi assim que Mrs. Some a encontrou hora e meia depois. Vinha carregada de documentos, em pastas separadas e outros, poucos, dispostos propositadamente em pilha, ao de cima.
– Estes são uns originais valiosíssimos – mostrou-lhos – a quem lhes der a importância, está claro, e, infelizmente, são muitos e mais que as mães. Pois olhe o que lhes faço. E nisto, rasga um a um, em quatro, e vai atirando-os para a lareira.

Joana observava na atitude de Mrs. Some, um misto de tristeza e de orgulho. Comoveu-se. Fazia-o lenta e quase solenemente. No fim, o seu rosto brilhava em paz.
– É tudo – anunciou – e agora podemos ir.
– Assim? – Perguntou Joana apontando a monstra-adormecida na cadeira.
– Sim, já não demora quem venha tratar dela. Cuidei disso – assegurou – quanto aos nossos amigos, esperam-nos já num hotel aqui perto.

Na manhã seguinte, o grupo separava-se. Despediram-se tomando um fausto pequeno-almoço no terraço inundado por um radioso sol que nem por encomenda de Ball Gites, e os enchia ainda mais de alegria. Mais tarde, B. Patt viu-se obrigado a esclarecer a imprensa, que sim, que tinha aceitado um trabalho em Portugal, dirigido por um dos mais conceituados peritos em efeitos especiais e que não passara disso.
– And that’s all – concluía ele alegremente.

Mrs. Some, é que nem por isso lhes parecia animada. Afinal tinha dedicado largos anos àquela obra que se vira agora obrigada a terminar.
– Não foi fácil conseguir este trabalho, sabem? – Contou-lhes – A autora de Arre Porta era muito exigente e penso que o que me valeu na selecção rigorosa que fez a separar-me e por fim, dos imensos candidatos ao mesmo, bem como em ganhar-lhe a total confiança, foi a dedicação que sempre ponho no que faço. Sou uma boa profissional e para mim, contava como prestar serviço a uma boa causa, uma vez que as crianças nos merecem o melhor. De bom grado me empenhei e envolvi totalmente, convencida de que os meus préstimos, posteriormente, viriam a valer e de alguma forma, à nova geração.

Agora era a frustração, mas depressa – sentiram eles – ela iria inverter a situação e o seu fracasso, em campanha oposta e depressa se empenharia noutra boa causa. E assim foi. Começou a escrever sobre o assunto, deu palestras de evangelização pelo mundo fora e depois do seu terceiro volume, abriu uma creche para crianças desfavorecidas. Depois uma escola, e assim, sempre foram mantendo o contacto com ela. Era feliz.

Joana, colaborando de princípio no seu novo projecto como ilustradora das primeiras brochuras e depois dos livros, firmara com ela uma amizade profunda e mais tarde, concluiu em Londres os seus estudos em Artes. Começava agora a expor os seus trabalhos com algum sucesso e graças às excelentes coberturas dos mesmos, feitas pelos seus amigos e convidados de sempre, os jornalistas Márcia e Miguel que a incentivaram de início. Tinham-na como a uma filha.

– E por falar nisso, não era altura de pensarmos seriamente em termos uma criança? – Miguel sabia que ia surpreendê-la com a pergunta.
– E o que te leva a crer que te tenho pelo meu príncipe encantado? – Ria.
– Ora, porque sei que sempre achaste que tenho cara de sapo. Não basta? Assim, e com sorte, quem sabe se não conseguiremos uma aproximação chegada, ou mesmo a ter um de verdade?
– Maluco! Gosto mesmo é de rãs, ao alho e com uma pitada de pimenta, indispensáveis nas minhas dietas. Estás a insinuar que estou a precisar de uma, é?
– Não. Estou mesmo a pensar em construir uma casa sobre uma poça, sério! Ajudas-me?

Um ano depois, no dia em que lhes nasceu o primeiro filho, admiravam-no embevecidos, contentíssimos da vida.
– É lindo, não é?
– Mais, seria impossível. – Respondeu a mãe – É tão parecido contigo!
– Então sempre temos um sapo, eu não to prometi?
Márcia mudou de expressão e com um tom sério na voz, disse-lhe:
– Miguel, agora que tudo isso acabou e depois da notícia sobre a trágica morte dessa senhora, não falemos mais sobre o assunto.
– Tens razão, nem a brincar – concordou – mas não posso esquecer que foi graças a ela que te conheci e temos agora este anjinho.
– É verdade. E que temos Joana, fizemos excelentes amizades e que muitas crianças hoje, são mais felizes. Muitas outras ainda virão a ser e tanto quanto o queremos para o nosso filhito.
– Outra coisa Márcia, já pensaste…?
– O quê? – Ficou curiosa.
– Não gravámos… nada do que vimos acontecer…
– Ainda bem.
– Teríamos ficado ricos…
Zangada de verdade, Márcia quase lhe gritou:
– Miguel, Não encontrarás nunca maior riqueza que na obra de Mrs. Some e no bebé que vês aqui! Estás a ter um ataque de ansiedade pela responsabilidade recente de teres agora um filho e por isso te ordeno que vás imediatamente para debaixo do chuveiro para logo de seguida ires beber uma cerveja com os amigos, vá!

Obedeceu-lhe rindo. Gostava muito dela e mesmo quando arreliada. Porém, em vez de sair, sentou-se à secretária e abriu pela primeira vez um livro em branco que esperara por este dia, no qual começou a escrever. Passada uma meia-hora, concluía: “ E este, meu querido filho, é o primeiro conselho que te dou, ditado há pouco pela tua mãe que nos ama muito. Vamos por isso ouvi-la sempre, está bem? Eu prometo e como prova, assino com o meu nome e mais tarde, quando tu souberes ler, escreverás o teu abaixo do meu, está bem?”

Guardou o livro dentro de uma das gavetas da secretária, levantou-se e foi espreitar o quarto de Márcia. Mãe e filho dormiam como anjos. Deu graças a Deus e ficou de vigia, sentado no pequeno sofá da sala ao lado, lendo pela segunda vez a mensagem de parabéns que Mrs. Some lhes havia enviado há poucas horas, na qual adiantava algo sobre o seu trabalho:

“Baseando-me nos gestos altruístas de Joana que como eu conhecem, e na sua imensa bondade, conto usar na minha próxima palestra, a inspiração de alguns santos, em frases como esta que tão sabiamente, S. Gregório diz: “A humildade é uma descida rumo às alturas do Amor.”

Que acham? Joana, Anjúlia e Brid vão estar presentes. E quanto a vocês, meus amigos, as maiores felicidades e não se esqueçam que na vida nova que como pais, agora começam, esta vossa amiga, em nome de todas as minhas crianças, promete-vos e diz: “Estou Conticho!” – Para tudo e sempre! Em Cristo e Maria,

Some-Daky”


Por Malu de A Capela